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Invenções de Morel. · Apr 13, 2026

Livro é caro

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Ronaldo Bressane · Invenções de Morel.

Ouvi a frase no lançamento de um amigo. “Livro é caro”, me disse a figura, que além de intelectual renomado tem sobrenome quatrocentão. Não era a primeira vez que escutava o truísmo, mas disparado por um playboy em um lançamento me pareceu mais vexaminoso. Nos milissegundos entre equilibrar meu uisquinho e sorrir querendo xingá-lo, pensei: será que me disse isso em modo empático, pois sabe que sou um escriba sem ter onde cair morto e vou concordar? Ou será tão pão-duro a ponto de realmente acreditar nisso? Ou será tão viajado que está comparando o preço do livro no Brasil com o valor de um exemplar comprado em uma livraria de Paris, Londres ou Nova York, cidades cujas visitas ele ostentou recentemente no Insta?

Caro em relação ao quê? Como nos ensinou o Alcoforado, supérfluos e privilégios são sempre relacionais. Um livro novo, de 250 páginas, impresso em preto e branco, publicado por uma editora de ponta, é mais barato que 500g de café bourbon do Cerrado ou um ovo de páscoa feito com 200g de chocolate suspeito. Mais ou menos o preço de um PF num restaurante razoável, ou few small beers num boteco, e bem mais barato que uma camiseta simples.

Você não ouve alguém da classe média reclamando do preço de um negroni num bar bacana - mas o tipo se queixa do preço do livro. A classe média ilustrada também não lamenta a alta do custo de vida numa cidade global (problema mundial, não só de São Paulo) nem do custo de um show daquela banda imperdível (entre um salário mínimo e um rim) que os amigos loucamente instagramaram. Por que reclamam tanto do livro?

A mesma queixa estapafúrdia, sedimentada sobre truísmos mas sem pé na realidade, é de que “revista não existe mais, você vai numa banca e só tem doces e carregadores de celulares”. Há quanto tempo você não visita uma banca de revistas, zé-ruela? Há quanto tempo não visita uma livraria especializada em revistas ou não pesquisa na internet sobre revistas impressas em baixa tiragem que são vendidas em sites ou plataformas de publicações independentes? Há quanto tempo se acostumou ao doomscrolling a ponto de não conseguir mais prestar atenção em nada?

Esse tipo de lamento de gente branca me irrita em especial pelo fato de eu editar uma revista independente, ser escritor e professor de escrita, claro. Mas não só. Porque embutido nos truísmos “livro é caro” e “revista não existe mais” noto uma espécie de torcida contra a democratização da cultura, vinda dessa classe média pretensamente ilustrada, que não lê porra nenhuma mesmo e no fundo preferia que a cultura se mantivesse como um bem só indispensável à elite. O subtexto é “Livro é caro pra você, não compre” e “revista não devia existir, só as redes sociais e os canais de streaming”.

Como não acredito nisso, vou seguir editando uma revista que dizem ser cara - e não é, pelo nível do material - e estimulando a leitura de livros caros - que também não são. Os preços dos livros parecem elevados em relação à renda média brasileira, com média de R$ 50 por exemplar. Mas houve quedas significativas em termos reais, como redução de 36% desde 2006 e 25% no varejo de 2014 a 2022. E embora representem em torno de 3 a 6% do salário mínimo, o que é relativamente alto, comparações internacionais indicam preços absolutos mais baixos que na Europa (o mesmo livro de 50 reais no Brasil custaria uns 20 euros na UE). Inclusive mulheres pretas e pardas da classe C são o maior grupo consumidor de livros no Brasil, representando 15% do total de compradores (30% entre mulheres e ~49% pretos/pardos no geral). Todos esses dados obtive na CBL, na Nielsen e na Agência Brasil (mais detalhes na Livros imperecíveis, news de Matinas Suzuki).

Dito isso 1, se você continua achando o livro caro, tenho uma sugestão: o MEC Livros. A iniciativa do ministério da Educação veio tarde, mas veio. Tem muito livro bom - não sei de quem é a curadoria, mas há desde clássicos obrigatórios a todos os livros de uma autora contemporânea de vanguarda como a Olga Tockarczuk, por exemplo. Você empresta um livro, pode ficar até 2 semanas com ele e tem direito a outro assim que devolver, como numa biblioteca de verdade. A plataforma tem navegação simples, algumas gralhas (como colocar Campos de Carvalho na tag “literatura de cordel”…), mas funciona bem, acessado pelo Gov.br, um troço tão genial quanto o Poupatempo (e que não existe nem nos EUA nem na Europa - sabia que na Alemanha ainda usam fax pra coisas como tirar certidão de nascimento?). Em tempo: esta newsletter não recebe nada do governo - em quem aliás votará de novo, meio a contragosto, pois ficou devendo, e muito.

Dito isso 2, a não ser que você more distante das capitais e não tenha livrarias na sua cidade, não compre na Amazon. Mesmo vendendo livros mais baratos, é uma máquina do Mal que está devorando o ecossistema do livro. Busque conhecimento, busque livrarias, busque as editoras, busque os autores.

E se Lolita fosse escrita do ponto de vista dela? Bem, não é exatamente o caso de Metade da Idade Dele (Intrínseca), mas quase. O título e a capa acenam à fetichização desse tabu tão combatido pelo feminismo contemporâneo: o enlace amoroso entre uma mulher jovem e um homem mais velho. Mas, apesar de todas as red flags e das consequências nem sempre com final feliz, sinto informar que este evento segue acontecendo. E a ele Jennette McCurdy se dedica com coragem - e muitas cenas de sacanagem. Bem escritas, diga-se: sua escrita ágil equilibra sarcasmo e vazio na medida (trad. Carolina Simmer).

O pau dele está na minha boca quando ela liga.

-Merda. Preciso atender - diz ele.

Afasto os lábios e enquanto ele pede desculpas, o pênis amolece. Quando Korgy pigarreia e atende a ligação, ele já murchou para seu estado normal.

-Oi querida - diz ele, a voz de casado um pouco mais aguda que o normal.

E apaziguadora. E covarde.

Waldo tem 17 anos e mora na insípida Anchorage, no Alasca; trabalha em uma loja de roupas, é viciada em compras online e vive com a mãe. Esta, desde que foi largada pelo pai de Waldo, sofre com paixonites por namorados toscos e tem com a filha uma relação ora de amiga ora de pessoa a ser cuidada. Embora fuja do modelo mulher-carente-possessiva da mãe, Waldo acaba caindo na mesma armadilha - e se apaixona por um homem indisponível.

Seu nome é Senhor Korgy e ele é, adivinhe, professor de escrita criativa em sua escola. Charmoso, casado, tem quarenta anos, um filho pequeno e de cara capta o talento literário de Waldo. Mesmo relutante com os avanços da jovem, arrisca o casamento e o emprego em troca de sua febre adolescente. Embora às vezes flerte com o soft porn, o livro não foi escrito por Nabokov, então as coisas não acabam tão mal quanto em Lolita. Tampouco acabam bem. No entanto, ao contrário da maioria dos romances adolescentes (e também de Lolita), aqui é Waldo quem detém a agência do enredo.

O que talvez explique o romance vender 30 mil exemplares só na primeira semana de lançamento. O livro prende: li num dia só (talvez o esqueça no dia seguinte). Jennette McCurdy, atriz e cantora teen, abandonou as produções da Disney para escrever o autoficcional Estou Feliz Que Mamãe Morreu, em que relata os abusos sofridos pela mãe para torná-la uma mini diva. Seu primeiro best seller vai virar série produzida por Margot Robbie, com Jennifer Aniston no elenco. Perdeu, Humbert Humbert.

Eis um segundo exemplar de uma linhagem rara: um livro escrito por um filho escritor a partir dos diários do pai também escritor. O primeiro exemplar dessa comunidade de autores é Armadilha para Lamartine, de Carlos & Carlos Sussekind (Companhia das Letras), um dos livros mais originais da literatura brasileira. Enquanto tocava uma novelinha, André Viana, jornalista carioca-sergipano especialista em biografar famílias, encontrou um tesouro: um diário de vários anos da vida de seu pai, o fabuloso contista sergipano Antonio Carlos Viana. O registro documenta uma época em que o pai vivia longe do filho e tratava um câncer. Apesar da batalha contra o inimigo implacável, sustentada pela depressão e pela melancolia típica dos escribas mal pagos, Viana pai enfrenta a meia-idade doente com galhardia - e um apetite sexual considerável. Viana filho reescreve os diários do pai de olho na obra-prima de Sussekind: afinal, os registros da história íntima são trespassados pela História.

Então, se em Lamartine temos a crônica do Brasil pós-Getúlio, em Apesar dos Meus Ossos Roídos lemos a crônica dos anos 2010, menos centrada na política e mais nos comentários de livros lidos e filmes assistidos no período. No entanto, o narrador não é o escritor Antonio, e sim Carlos, um personagem ficcional daquela novela de André - um professor que sonha em ser escritor, narrando episódios de sua vida nos anos 1980 em Paris. Assim, temos um ziguezague intertextual, em que não se sabe se quem narra é o pai ou o filho, e uma montanha-russa afetiva, em que se pula de exames, cirurgias e remédios para longas transas com as namoradas. Um livro excêntrico, pautado pelo medo da morte e pela obsessão pelos últimos momentos da vida, em que o rigor do registro rima com o ardor de viver o instante.

Várias vezes em minhas aulas de escrita criativa eu desistia de dar algum conselho e apelava: “Leiam Tipos de Perturbação, da Lydia Davis. Ali tem todos os tipos de conto que dá pra escrever”. Contos na primeira, na segunda e na terceira pessoas; contos-ensaio, microcontos, contos só com diálogos, contos só com descrições... Agora dá pra mandar ler as ficções e também os ensaios de Um Pato Amado é Assado (WMF Martins Fontes, trad. Camila von Holdefer). Passeando entre as reminiscências de sua vida de leitora, tradutora e escritora, e conselhos práticos para a escrita, Davis vai no coração da matéria: a busca pelo extremo específico. Sua luta contra o lugar-comum, aliada ao olhar enviesado para o lirismo e o humor, busca uma expressividade na linguagem que soe ao mesmo tempo espontânea e elaborada, inusitada e clara. Uma linguagem substantiva.

De todos, “Trinta conselhos para bons hábitos de escrita” é o saborosíssimo suprassumo, pois além das próprias dicas ela traz conselhos de Bashô, Handke, Kafka, Delacroix, Chaudhuri, McCarthy, Roddy Doyle e muitos outros. Basicamente o livro pode ser resumido em a) leia muito; b) anote tudo o que você viveu ou pensou; c) busque expressões novas para mostrar o que você viveu; d) sente a bunda e escreva; e) corte, copie e cole. E depois, corte e escreva de novo. Pois é, dona Lydia, não tem mistério. O resto é caô de coach.

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Falando em ensaio, a última parte do impressionante Vidro, Ironia e Deus (Relicário) traz “O gênero do som”, uma das coisas mais cheias de mindfucks que li nos últimos tempos. A quem tenha lido o ensaio “Desejo e sujeira: a fenomenologia da poluição feminina na Antiguidade", que está em Sobre Aquilo Em Que Eu Mais Penso (34, trad. Sofia Nestrovski), este aqui, traduzido por Adriana Lisboa, é complementar.

É em grande parte de acordo com os sons emitidos pelas pessoas que as julgamos sãs ou loucas, machos ou fêmeas, boas, más, confiáveis, depressivas, casáveis, moribundas, com probabilidade ou não de declararem guerra contra nós, só um pouco melhores do que os animais, inspiradas por Deus.

Em sua vasta pesquisa sobre os escritores gregos, Anne Carson identificou a dualidade vazamento / contenção como relacionado a tudo o que é feminino / masculino. Neste ensaio, Carson relaciona a contenção à segurança, monotonia e gravidade da voz masculina, ao passo que a voz feminina se conecta à loucura, ao desvario, ao que escapa dos limites. Nessa odisseia pelos escritos da Antiguidade, a absurda erudição de Carson - sempre modulada por uma fina ironia - chega até Freud:

Deveríamos também dar alguma consideração a essa bizarra prática chamada aischrologia (…) que significa “dizer coisas feias”. Certos festivais próprios às mulheres incluíam um intervalo em que elas gritavam comentários abusivos ou obscenidades ou piadas sujas uma à outra (…) O ritual tem alguma semelhança com o procedimento desenvolvido por Sigmund Freud e seu colega Josef Breuer para o tratamento de mulheres histéricas (…) Usam os termos “katharsis” e “cura pela fala” para essa terapia revolucionária (…) Eles são capazes de drenar memórias ruins ou emoções feias presas dentro de si como poluição induzindo as mulheres sob hipnose a dizer coisas indizíveis.

O ensaio são só 25% do livro. Os outros 75% são de poemas como este:

RIJO FEITO DEUS

Deus deu uma qualidade onomatopaica à linguagem das mulheres

Esses sons eternamente atrapalhados que eternamente se atrapalham ao tropeçar

para dentro das palavras reais daquilo que são

feito pés que se deixam cair em sapatos de osso.

“Traição” (ela percebe) soa exatamente como o zíper Dele se abrindo.

Em Um Brinde aos Mortos (N-1), a filósofa Vinciane Despret afirma que os mortos têm agência: “Fazem circular mensagens que manifestam sua preocupação com os vivos”. E ouvir os mortos é o que faz Tessa Hulls neste monumental romance gráfico de 400 páginas - o único livro da sino-americana de 42 anos, vencedor dos prêmios Eisner e Pulitzer, que levou 10 anos para ser concluído. Meus Fantasmas (Quadrinhos na Cia., trad. Érico Assis) é uma escavação nos traumas ancestrais desta neta de Sun Yi, uma jornalista que combateu a Revolução Cultural chinesa e fugiu para Hong Kong com a filha pequena, Rose - a mãe de Tessa. Vivendo sob a paranoia de ser sequestrada pelo regime chinês, Yi refugia-se na própria mente após um colapso, e a filha Rose, sua cuidadora, é arrastada a viver em pânico permanente. Mas Tessa foge para o mundão, se afasta para contar.

O traço expressionista, suportado por fortes chiaroscuros, e a divisão criativa dos quadrinhos - não existe uma só página igual - fazem com que a narrativa se movimente em um contraste dinâmico de peso e leveza, indo para a frente e para trás no tempo.

“O dever e a exaustão eram demais. Eu não conseguia dar um abraço nela”, diz Rose a Tess. “Quando Sun Yi morreu, fui ver o cadáver. Eu a peguei nos braços e a abracei, abracei, abracei. E abracei. No fim das contas, esta história trata da vontade de abraçar, da vontade de ser abraçada, e todos os fantasmas que ficam entre mães e filhas que não sabem lidar com seus anseios.”

Os conflitos do Oriente Médio sublinham mais do que nunca as imensas maldade e estupidez da guerra - este tema tão bem contado por Kurt Vonnegut no clássico Matadouro-Cinco. Descendente de alemães, o soldado raso Kurt esteve no coração do Mal ao se refugiar em um frigorífico enquanto a cidade de Dresden era obliterada pelos Aliados. O trauma foi recriado em um dos principais romances do século 20, e por isso Vonnegut não tem ilusões virtuosas: “Se eu tivesse nascido na Alemanha, teria sido um nazista e enfiado a porrada em judeus, ciganos e polacos”. É assim, transmutando-se em outros, que ele faz em Mãe Noite um de seus livros mais imaginativos (Intrínseca, trad. André Czarnobai). A falsa autobiografia de Howard Campbell Jr. narra a história de um escritor estadunidense vivendo na Alemanha durante a eclosão do nazismo. Dramaturgo famoso, ele se finge de antissemita para fazer amizade com os nazistas enquanto trabalha como espião para os EUA. Só que depois da guerra Campbell é capturado por Israel, que não acredita nele. O desfecho tira o tapete debaixo do leitor e o força a olhar o horror atual - em Gaza. Só que este romance é de 1961…

Há motivos de sobra para lutar, mas nenhuma razão para odiar sem limites, para imaginar que Deus todo-poderoso compartilha esse ódio com você. Onde mora a maldade? Naquela parte enorme de cada homem que deseja odiar sem limites, que deseja odiar tendo Deus a seu lado. É essa parte de cada homem que sente tanta atração assim por todo tipo de feiura. É essa parte de um imbecil que pune e vilipendia e declara guerras com todo o prazer.

“No fim das contas, o Inferno é o que já está aqui”, escreve no posfácio a tradutora Claudia Tavares Alves. “Buscamos com obstinada teimosia a salvação, apesar do Inferno. Pasolini não nos dá os caminhos, não nos guia, mas o que sua obra não deixa de fazer é de nos inquietar sobre o presente, de nos lembrar que isso aqui é o Inferno e que, como parte dele, precisamos continuar buscando entendê-lo. Salvar-se do Inferno, apesar do Inferno.” No meio do caminho de sua vida - na verdade, ele estava a alguns anos do fim, mas não sabia - , Pier Paolo Pasolini sentiu-se, como Dante, enredado a uma selva selvagem - que, no caso, era o onipresente fascismo italiano sustentado pela nascente sociedade de consumo. Escrito fragmentariamente entre 1963 e 1967, quando produzia o livro Poesia em Forma de Rosa e o filme O Evangelho Segundo São Mateus, é um livro-projeto em que Pasolini se vê como um Dante moderno, cujo Inferno não passa de um supermercado:

“O Inferno que pus na cabeça descrever já foi descrito simplesmente por Hitler. Foi através de sua política que a Irrealidade se mostrou de verdade em toda a sua luz. Foi dela que os burgueses extraíram o verdadeiro escândalo ou, me envergonha dizer, viveram a verdadeira contradição de suas vidas.”

Publicado em 1975, ano em que foi assassinado, A Divina Mimesis (Jabuticaba) traz este diário de viagem de Pasolini pelo Inferno da Itália burguesa nos anos 1960 - antevendo a padronização cultural de hoje -, seguido de um álbum de fotografias de poetas a que o autor dá o nome de poema visual.

Por falar em passeios pelo Inferno, é esta a jornada da protagonista deste estranho romance atmosférico, em que a meditação dá lugar à ação. A narradora vive em um hotel cheio de zumbis, seu braço cai de seu corpo, ela vive com vontade de comer carne, um corvo se hospeda em seu colo e ela parte em viagem para um Oeste perpétuo. Traduzido por Angélica Freitas, Dura Para Sempre e Depois Acaba (Fósforo) deu à estadunidense Anne de Marcken o Ursula K. Le Guin, um dos principais prêmios de ficção especulativa.

Era o fim, mas naquela momento não sabíamos. A pessoa não sabe que o fim chegou no momento em que ele chega. Ou não admite. Depois, quando olha pra trás, consegue ver. E entende que todo o tempo que se passou depoois disso foi só um esforço para seguir em frente como se tudo não houvesse acabado. Mesmo naquela época, eu já era um zumbi. Devoradora voraz de um mundo que já era o último da espécie. (…) O que mais seria um começo, senão o fim de outra coisa?

A cabana de Tom Waits em Father Mother Sister Brother, cheia de livros

Há filmes que contam mais pelo que não contam e que, no uso do silêncio e da vagareza, nos induzem a pensar sobre nossas próprias vidas. É o caso do novo Jim Jarmusch, Pai Mãe Irmã Irmão. Talvez um dos títulos mais sugestivos de sua filmografia, notável pelo laconismo, minimalismo, incompletude, nonsense e acenos para o mistério. A amiga com quem vi lembrou que o filme transita pelo território de Valor Sentimental, de Joachim Trier – porém, um exato antípoda ao cinema de Jarmusch, em suas explosões emocionais, ironia bem colocada, curvas dramáticas. Aqui há o oposto: desconexão, constrangimento, tentativas malogradas de aproximação, ilhas afetivas ao contrário de um continente destroçado. Os três curtas se conectam pelo tema do estranhamento dos filhos em relação aos pais – idosos, como Tom Waits no primeiro curta e Charlotte Rampling do segundo, ou mortos, no terceiro. Enquanto vemos as conversas girarem sobre silêncios embaraçosos, refletimos sobre nossos próprios pais ou filhos: quanto sabemos deles, quanto sabem de nós, o quanto de sua companhia queremos de fato, que centralidade têm em nossas existências, qual foi a fronteira que cruzamos para vê-los agora como absolutos estranhos a nos causar vergonha, pena, curiosidade, cansaço, medo ou até horror?

Como em outros filmes de Jarmusch – Café e Cigarros, Daumbailó, Strangers than Paradise –, há os símbolos que se repetem, nas sequências visuais dos skatistas (um aceno ao transcendente), nas piadas com o Rolex (o tempo está passando e não está do nosso lado) e nos brindes com a água (comunhão entre desiguais). Tom Waits cada vez mais velhinho mantém a essência da coolness; Cate Blanchett quase irreconhecível em sua travadice; Adam Driver perfeito como filho cuzão; e os gêmeos Indya Moore e Luka Sabbat quebram a geleira afetiva dos dois primeiros curtas insinuando uma reparação possível. O resto é o de sempre: precisão extrema na fotografia, na direção de arte, no figurino, na trilha sonora. Não é Dead Man, mas é Jarmusch - melhor que 90% do que está em cartaz.

Cotação: 4, 44 copos dágua.

Gracias pela leitura,

abraços

Ronaldo Bressane

Read the original on ronaldobressane.substack.com

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