Elas não têm nada a ver entre si - a não ser o fato de serem autoras brasileiras lançando livros mais ou menos nessa época. E serem minhas amigas. A amizade é um bom motivo pra você gostar dessa lista. Ou pra suspeitar deste jornalista cultural. Todos os críticos têm amigos e inimigos, afinal. Poucos assumem. Prefiro falar de obras de gente que manda bem e com quem eu tomaria uma cerveja. É uma escolha que fiz lá no começo da carreira. Com quem não tomo cerveja, pra falar bem só depois de morto.
O título desta news homenageia o poeta Aníbal Cristobo, que partiu semana passada. O argentino que vivia em Barcelona adorava o Brasil e teve um blog chamado As Escolhas Afectivas, em que juntava escribas favoritos e pedia dicas de outros autores - resultando em uma rede gigante de poesia e amizade. Grande cara, baita poeta, uma inspiração; aqui um perfil dele. Torço pra que o Substack não se contamine pela cultura egoica do Instagram e retorne aos bons tempos da blogosfera de Aníbal - em que uns divulgavam mais os outros que os próprios feitos e umbigos. É o que tento fazer.
Abro nova turma do Submarino, minha oficina de ficções breves, em abril. Já está se formando um bom grupo, mas ainda tem vagas, bora? Inscrições aqui. Dúvidas, questões, sugestões, escreva para ronaldobressane@gmail.com.
Pontes lançou seu livro nesta quinta 26 e aliás não fui porque estava justamente em aula no Submarino. A quantidade de lançamentos que deixei de ir nos últimos anos por este motivo… Mas vamos a Vida Doçura (Cia das Letras), este estranho romance construído em fragmentos. A autora de Os Tais Caquinhos e Copacabana Dreams pega uma vereda da estética intimista e fragmentária de Ana C e tira de um fiapo de enredo uma máquina narrativa viciante. Estamos todos viciados na repetição das redes sociais? Jocasta, a protagonista e narradora, está. Na verdade viciada nos vídeos de Jovana, uma dona de casa da classe C, que registra cotidianamente sua anódina vida cor de rosa: a filha fofa, o marido motoboy, o limpíssimo lar. Contrastante ao nojento apê de Jocasta - uma escritora que mal come, mal toma banho, mal alimenta o gato Argos, num mal estar em looping, herança do suicídio de sua mãe Maria, uma diretora de teatro que planejava montar Édipo Rei.
“Tenho que enterrar o fantasma da minha mãe. Sinto raiva de tudo o que ela não fez por mim. Raiva não, ira. Mia Farrow em O Bebê de Rosemary. Você, sua filha da mãe, me entregou ao sacrifício. Essa dor nunca vai passar. Eu sinto nojo de um corpo que é o meu, este saco amarrotado sem mãe, sem filho, cadê minha mãe?, eu me pergunto deitada no chão, intuindo poeiras milenares debaixo do meu sofá-cama. Argos sobe na minha barriga. Sinto o calor da vida. Sinto uma lassidão devastadora. Preciso de Jovana. Preciso escrever esse livro.”
Embora deprimente, a trama tem abruptos acessos de humor, sobretudo nas iluminações da linguagem pulsante e livre-associativa de autora cearense, chacoalhada pelas imagens dos pequenos contos escritos por Jocasta, das rememorações de sua vida entre Fortaleza e Brasília, da inspirada teia de referências que cruzam Kurt Cobain e tragédia grega, da brincadeira entre primeira, segunda e terceira pessoas. Um jogo de espelhos em que três mulheres estão presas em microespaços e buscam reconstituir sua liberdade nesses cacos do real - como Duda, a filha de Jovana, que conta como uma personagem de uma fábula “constuiu com os destoços um palhácio lindo”. A narrativa ganha tração quando Jocasta resolve concretizar sua fixação por Jovana fantasiando-se para ir espioná-la pessoalmente, e…
Chuto que é provavelmente o livro mais inesperado lançado por uma escritora brasileira este ano - assim como Guerra I, de Beatriz Bracher, foi o livro mais original a sair em 2024. Pra começar, não é autoficção. Não fala de relacionamentos - ao menos, não dos contemporâneos. Não se interessa em identitarismo de nenhuma espécie, seja de ângulo racial, de classe social, de desvio psíquico, de gênero ou orientação sexual. É o tipo de livro que força o leitor a buscar outra perspectiva pra além de sua vidinha. (O tipo de livro que força o leitor é o tipo que eu gosto.)
Pra começar, o principal foco narrativo nem é uma mulher, e sim um Homem. Assim mesmo, com H maiúsculo. E faz sentido, já que ele é um dos primeiros personagens da sua espécie. E talvez um dos últimos. Afinal, o Homem que guia Os Imortais da bióloga brasiliense Paulliny Tort (Fósforo) é o líder de um clã de neandertais que, há mais de 40 mil anos, ali pelas bandas da Eurásia, buscava comida e já lutava por espaço com outra espécie: os sapiens. Um momento curioso é quando o Homem, guiando sua turminha que acabou de sofrer um violento ataque de um bando de javalis e perdeu o Velho, vê pela primeira vez uma mulher de outra espécie. Terá nascido aí a antropologia?
Suada, a estrangeira, que aqui não é mais estrangeira que qualquer um deles, corre a parte interna do cotovelo pela testa larguíssima. Diz para ninguém algo que o Homem não compreende, em uma língua sua, afastando os falhos mais impertinentes das plantas. Com cuidado, o Homem se vira para os companheiros. Vê como estão apreensivo - a Mulher chega a morder firmemente os lábios. Então se volta novamente para a estrangeira e seus frutos. Não, ela não é muito diferente deles. Em um mundo tão vasto, não parece fantástico haver outros aos quais se assemelhem tanto?
Parece fantástico, e é. Com a mão segura que exibiu em um dos melhores livros da literatura recente, Erva Brava, Tort segue as aventuras dessa família que não é bem família, humanos que não são bem humanos, nossos estranhos parentes ainda espantados com coisas como consciência, memória, linguagem, comunicação, sentimento. Você se sente ali na alvorada do 2001 de Arthur C. Clarke. Mas jogar este livro na caixinha da ficção científica me parece falta de imaginação. Tort investiga nossos terrores e paixões no nascedouro da ciência, da religião, da arte e do amor, no encontro e no confronto com a natureza. Nada mais atual.
Ser professor de escrita criativa é - para além do fato de ler muito texto ruim, todo mundo fala das cachaças que eu tomo mas ninguém vê os tombos que eu levo… - ter a sorte de testemunhar o nascimento de vozes originais como a da designer de IA Susy Freitas. Lá no começo da pandemia ela me apareceu no Submarino trazendo parágrafos como estes:
Aquela do edifício foi bem comentada. Um dos mais antigos de Manaus, com duas empenas viradas para a cidade. Na primeira, a indígena sorridente ilustrava os quase 400m2. Seus cabelos negros recobriam os seios de forma pudica, e a face, antes pacata e convidativa, ganhou algo de maligno ao percebermos que suas mãos, espalmadas em direção aos céus, passaram a ter uma granada em cada uma. Na outra empena, o paredão cru de concreto apresentava apenas uma palavra, escrita em tinta vermelha e letras garrafais: ÓDIO.
Nos registros aéreos para o telejornal, as águas do Rio Negro sibilavam ao fundo do edifício, como se uma serpente engolisse o horizonte. Eram quatro e meia da manhã quando finalizaram a intervenção, fazia trinta e um graus e o Coletivo Amargo estava orgulhoso de mais uma ação bem sucedida, como bem explicitavam em seus registros pessoais, especialmente a última selfie, tirada por Ruas já em solo. Nela, seus dentes amarelados pelo cigarro e a dobra de uma barriga, branca e precoce sob a camiseta preta, reluziam ao flash. Lua Madeira, miúda e suada, agarrava firme a sua cintura como que a ponto de cair. O primo dela, codinome Mutirão, tocava com a ponta do polegar o carnudo lábio inferior de sua boca e dava um cotoco na direção dos céus com a outra mão. Já a Sorria, em segundo plano, ensaiava um passo de balé, uma perna flexionada, a outra reta no ar, apontando na direção das empenas. Seu braço, longo e musculoso, parecia do tamanho do prédio.
Depois do explosivo Madnaus (Reformatório), elogiado por Fausto Fawcett por sua encantatória “escrita-grimório”, a manauara Freitas dobra a aposta com os terroristas arquitetônicos de No Baile do Juízo Final (Todavia). A primeira parte, Contos do Amargo, traz cinco ficções interligadas apresentando o Coletivo Amargo: a fascinante Lua Madeira, uma moça interiorana assombrada por fantasmas, que define as ações do Coletivo a partir de visões sob o efeito de alucinógenos; o abastado Bento Ruas, que banca as ações lisérgicas e destrutivas do bando; Mutirão, amigo de infância de Ruas e seu ponto de contato com a realidade da periferia; e Sorria, uma mulher trans cuja mãe drag queen tem um passado com Ruas. Já a segunda parte do livro, Outras Desintegrações, foca em narrativas de personagens e fronteiras periféricas de uma Amazônia eletricamente diversa do que a mídia costuma apresentar. Está em pré-venda, com lançamento previsto para maio.
A mineira Fabiane Secches também foi aluna, muitos anos atrás… escreveu em uma oficina um conto que está na antologia Leia Mulheres (Jandaíra). Mas em Ilhas Suspensas seu projeto vai a outro patamar. Psicanalista, Secches trabalha com o ouvido, de olho no Outro; desenvolveu um projeto de leitura de Elena Ferrante, que pesquisou no mestrado e resultou em Uma Longa Experiência de Ausência (Claraboia). Daí esta ficção que não só se interessa por outras leituras como também outras consciências, lendo ao largo Donna Haraway e seu diálogo com as espécies companheiras.
Ela tenta a escrita de um romance, mas, quando se dá conta, envereda para o ensaio e não consegue dispensar as palavras alheias, que invadem as próprias. Agora, no novo país, afastada dos laços e dos afazeres sociais, envolta em um idioma que não compreende, a língua portuguesa passa a ser um abrigo. O novo apartamento tem metade do tamanho do que viviam no Brasil, e não há um cômodo que ela possa chamar de quarto só seu. Na maior parte do tempo, trabalha à mesa da cozinha. Há cafés, há bibliotecas, podeia encontrar acolhida em outros endereços. Mas algo na casa a enfeitiça, sempre enfeitiçou. É como um caramujo, como uma tartaruga.
Destituída da capacidade de ser mãe, e também de ter mãe, e também distante da língua-mãe, brasileira vivendo em algum país nórdico, Mariana, a protagonista desta autoficção especulativa - em que o eu se transmuta em ela (voltarei a este conceito nas próximas newsletters) -, luta contra o luto focando na escrita, que também conversa com outras narradoras exiladas num limbo entre ficção e não-ficção, Carola Saavedra e Susan Sontag. Ao fim, voltando ao tema desta news, se trata de uma busca pela amizade como único afeto possível nesses tempos tão fragmentados.
Não deve ser coincidência o fato de a autora de O Ano do Cometa (Fósforo) ser filha da renomada astróloga Barbara Abramo. Uma das protagonistas do primeiro romance da paulistana Maria Brant - em parte aliás desenvolvido em outras oficinas de escrita, de Noemi Jaffe e Joca Reiners Terron - é Rosa, prima de Íris e Violeta, muito interessada na visita do cometa Halley em 1986.
Rosa quer muito ver o Halley. Ela assistiu a um Globo Repórter sobre o cometa, recortou tudo o que foi saindo no jornal e colou num caderno de capa amarela. Pediu umas mil vezes aos pais para irem ao sítio da Mazé, porque em São Paulo o céu não fica escuro de verdade, mas seu pai vai estar em Brasília a semana toda, sua mãe não dirige na estrada e ainda está atrasada com a tradução do livro. “Você vê da próxima vez que ele passar.” Rosa vai ter oitenta e nove anos da próxima vez que ele passar, vai saber se ela vai conseguir subir uma montanha, deitar num gramado e olhar para o céu quando tiver oitenta e nove anos, e “daqui a setenta e seis anos” é um tempo que Rosa não consegue imaginar.
Lembro bem a decepção que foi não conseguir captar nem o rabo do cometa... Um engodo, e a palavra “Halley” virou sinônimo de decepção. Íris, Rosa e Violeta, pré-adolescentes, também estão abaladas por essa sensação de quase - em especial por conta da queda do tio Peu, um surfista heroico, figura lírica solar, que em determinado momento desiste de tudo e abraça a queda. A cultura, os personagens e o comportamento de 1986, ano também dos desastres da Challenger e de Chernobyl, formam o pano de fundo desta sensível narrativa memorialista sobre a perda da inocência e sobre como uma família aparentemente estruturada cai na real.
Primeiro livro da artista visual argentino-brasileira Eva Uviedo pela Companhia das Letrinhas, A Mala Vermelha é narrada por uma menina de nove anos que tem um cantinho onde se sente bem: sua casa. Sua coleção de revistas, a bike que ganhou no Natal, seu melhor amigo, o Senhor Lobo, sua rotina, almoços, tardes tranquilas, sua família, sua vida em curso. Até que…
Algo muda tudo. A paz que existe na casa deixa de existir no país, e algumas escolhas difíceis precisam ser feitas. Este livro nasce do que foi vivido, do que foi interrompido, do que ficou para trás. É uma ficção baseada em fatos, pensada a partir do ponto de vista da criança que eu fui. Vim para o Brasil com meus pais para sair de um cenário de repressão e perseguição política durante a ditadura na Argentina. Meu pai, Juan Uviedo, era diretor de teatro, transgressor, subversivo. Minha mãe, atriz e cantora, trabalhava com ele e já tinha um histórico militante na Guatemala, seu país de origem. Ou seja, escapamos por pouco. E viemos para cá, uma terra que nos acolheu de uma forma tão plena que não quisemos voltar mais. Então o livro fala de exílio, deslocamento e perda; mas também de imaginação, sobrevivência e invenção de uma nova vida. [Eva Uviedo]
Neste domingo 29 de março acontece o lançamento do livro, na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena, SP, das 15h às 18h. Bora?
Esta é a 50a edição das Invenções de Morel. A primeira, “7 é conta de mentiroso; 8 é o infinito de pé.”, saiu em 25 de maio de 2023, falava de imortalidade na era das máquinas espirituais, comentava livros de Marília Garcia e Gabriela Biló, passeava por matérias publicadas na versão física da revista Morel e lembrava os 10 anos das manifestações de Junho.
E as imagens que ilustram esta news são do artista visual Otto-Kun, filho de Eduardo Kerges (diretor de arte da Morel) e também integrante do estúdio de criação de que participo, a La Tosca. Esta é uma newsletter família ;)
Gracias pela leitura!
Abraços,
Ronaldo Bressane

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