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Projeto Brief · Aug 13, 2026

Para que servem debates eleitorais na era dos cortes?

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Projeto Brief, Tiago Aguiar · Projeto Brief

“A falência do modelo de debates será uma marca da campanha de 2026”, foi assim que Luís Costa Pinto resumiu na sua coluna no ICL Notícias.

Pode soar um pouco fatalista, mas a fala ocorreu após o último domingo (9), em que três líderes nas pesquisas para governos estaduais faltaram ao encontro de candidatos da Band: Eduardo Paes (PSD), no Rio; Sergio Moro (PL), no Paraná; e Daniel Vilela (MDB), em Goiás. E já é sabido que neste ano, na campanha presidencial, tanto Flávio quanto Lula não têm interesse em frequentar debates.

E não é só falta de interesse das campanhas; a população no geral também vê menos transmissões inteiras. Em São Paulo, por exemplo, o debate entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) teve baixa audiência na Band e perdeu até para o programa do João Kleber em alguns momentos.

Um dos principais motivos da perda de valor percebido nos debates é o próprio formato deles. Marqueteiros e candidatos impõem regras cada vez mais engessadas e ameaçam não comparecer caso haja qualquer mudança no formato. Hoje, as campanhas conseguem escolher onde, como e com quem querem falar. Nesse cenário, entrar num debate – em que é preciso responder a perguntas incômodas e há sempre o risco de perder o controle da cena – virou um negócio bem menos atraente.

E os debates têm uma mudança fundamental na função que cumpriam antes e depois da internet. Até mais ou menos 2014, quem não assistia ao debate talvez nunca fosse impactado pelo que foi dito ou discutido pelos candidatos, a não ser que visse resumos exibidos pelos telejornais ou trechos escolhidos em propagandas eleitorais. Hoje a seleção dos melhores momentos pode ser feita em segundos por uma equipe de campanha. O debate termina no estúdio da TV, mas a vida eleitoral daquela fala está apenas começando.

De olho nisso, o jornalista Leonardo Sakamoto pontuou como os discursos nos debates são cada vez mais voltados para as próprias bolhas, deixando de responder a dúvidas simples e diretas da população. Num passado recente, não participar de encontros criava efeitos negativos relevantes, mas hoje a produção massiva de conteúdo digital acaba compensando a ausência na TV.

Ou seja, tanto a lógica de produção de cortes para falar à própria torcida quanto as regras do formato do debate têm tornado-os pouco interessantes para serem vistos ao vivo.

Analistas da imprensa têm razão ao dizer que fugir do debate é fugir do eleitor. O problema é que o debate, no formato atual, já fugiu de si mesmo e virou uma fábrica de cortes.

Como resumiu nesta semana o comentarista do jornal TVT News, Eduardo Castro: os cortes esclarecem “rigorosamente nada” sobre políticas públicas ou posicionamentos reais dos candidatos. São repetições de pontos de vista. O que não significa que não sejam importantes: uma pesquisa recente do Instituto Informa mostra que 53% dos entrevistados afirmaram que debates e entrevistas ao vivo são os conteúdos com maior potencial para chamar sua atenção ou para fazê-los reconsiderar a escolha de um candidato.

E as redes sociais já são a principal fonte de notícias para 53,5% dos brasileiros. Ou seja: se você quer defender seu candidato sem soar engessado ou artificial, o caminho passa por um equilíbrio entre apostar no embate real como forma de persuasão e distribuir trechos de forma segmentada.

Tem um detalhe importante nessa história: nove em cada dez eleitores que votaram em Lula ou Bolsonaro em 2022 dizem não se arrepender da escolha. Num eleitorado tão cristalizado, gastar energia produzindo conteúdo para arrancar aplauso de quem já está convencido parece um uso meio ruim do nosso tempo. A disputa está justamente em quem ainda pode ser persuadido — e aí o corte que funciona para a torcida nem sempre é o corte que funciona fora dela.

Se a ideia é usar debates e entrevistas para chegar nessas pessoas, vale prestar atenção em algumas coisas:

Se você quer ir além do corte e pensar em como conversar com quem ainda não concorda com você, vale mergulhar na nossa editoria de Persuasão. Por lá, reunimos ferramentas para enquadrar melhor uma mensagem, partir de valores compartilhados, ouvir antes de responder e criar caminhos para que alguém mude de ideia sem sentir que precisa mudar de identidade junto.

A pergunta que interessa não é como resgatar o debate de 1989, é como fazer propostas concretas sobreviverem na gramática que hoje domina o feed e que o campo progressista ainda usa pouco. Se o debate da TV não fura mais bolha, a nossa estratégia tem que furar.

O Pode Espalhar, hub de mobilização digital em defesa do governo Lula, é um bom modelo de como essa linguagem pode ser replicada. Há um tutorial pra “espalhar” conteúdo pronto nas próprias redes, um manual específico de segurança jurídica pra quem se expõe publicamente como voz do campo, e até um passo a passo pra achar o conteúdo ideal para sua rede.

A biblioteca de ferramentas do Im.pulsa (projeto do Instituto Update em parceria com o coletivo #ElasNoPoder) também tem guias práticos e gratuitos sobre como acelerar a produção de conteúdo com IA, ferramentas de escuta social pra entender o que o eleitorado já está falando antes de responder, além de modelos prontos de planejamento estratégico de campanha.

Enquanto se discute como salvar o debate de estúdio, quem já está no feed simplesmente segue furando bolha, com ou sem a gente.

Um abraço,

Tiago Aguiar, do Projeto Brief.

Read the original on projetobrief.substack.com

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