A campanha eleitoral começou oficialmente no último domingo (16). Agora está liberado pedir votos, repetir o número da urna do seu candidato à exaustão e fazer propaganda nas ruas e nas redes.
E para metade do eleitorado, a opinião de familiares e amigos tem grande impacto na decisão do voto. Você pensa em influência imaginando televisão, jornalistas e influenciadores, enquanto, provavelmente, tem mais poder de persuasão do que todos eles no seu círculo social.
Para ajudar você, que já decidiu seu voto, a conquistar novos apoios, vamos recuperar e desenvolver uma série de dicas dadas em um belíssimo post do Jairme Arrependi.
Todas elas são baseadas em um princípio base:
Você deve falar mais sobre em quem vai votar.
Muita candidatura com discurso violento tem seguidores sem pudor na defesa de ideias absurdas, como a de que os beneficiários do Bolsa Família devem perder o direito de votar. Alguns usam até boné com algumas dessas ideias. E essa presença, falando alto, tem mais efeito quando o contraponto é acanhado. Ou como escreveu o Jairme, “a timidez de quem rejeita também ajuda a fabricar a sensação de força de quem grita”. Por isso a primeira regra de ouro é:
Fale mais sobre quem você acredita do que sobre seus adversários.
Ao mesmo tempo, sabemos que, em boa parte dos círculos sociais, falar sobre o próprio voto pode parecer militante, chato ou inconveniente. E essa percepção está associada a uma linguagem engessada de cortes e materiais oficiais das campanhas. Por isso a segunda regra é:
Use suas próprias palavras.
Em determinados ambientes, como no trabalho, falar explicitamente sobre política pode efetivamente te prejudicar. Por isso, esse trabalho pode ser feito via Whatsapp, em refeições e posts para melhores amigos. Nessas interações mais ou menos privadas, em que há a maior confiança possível, é onde há maior chance de persuadir.
Os desdobramentos desta segunda regra envolvem, basicamente, ser delicado e inteligente ao falar, como faria com qualquer outro assunto.
Outro ponto importantíssimo é que a repetição é fundamental para a formação de uma decisão. A conversão de voto raramente ocorre por um único estímulo isolado e a influência opera por acúmulo e familiaridade: a exposição contínua a determinados nomes constrói gradualmente a aceitação.
Por isso, a terceira regra é:
3. Repita o nome do seu candidato.
Claro, que tomando cuidado para não floodar, mas só postar um story de apoio uma vez funciona muito menos do que uma série de menções ao longo dos próximos 45 dias.
E por fim, a regra que dá mais urgência a tudo que falamos acima é:
4. Comece já. A maioria das pessoas ainda não decidiu seu voto.
Se você é leitor ou leitora desta newsletter, tem grandes chances de acompanhar mais política do que outras pessoas do seu círculo.
E ainda que 80% dos eleitores não mudem de voto para presidente, para todos os outros cargos o campo está muito aberto. Como já escrevemos aqui, 36,3% dos eleitores dizem que pretendem escolher seus candidatos ao Legislativo apenas “próximo ao dia da eleição”.Historicamente, nas eleições gerais brasileiras, somente o voto para presidente costuma ter decisão de voto formada meses antes do dia de votação. E, portanto, se você já tem um candidato, dá para conquistar ainda dezenas de votos pra ele ou pra ela.
Por fim, vale um argumento final para entrar no chamado. Todo mundo é a favor de “voto consciente e bem informado”. Falar de cidadania antes de mencionar o nome do seu candidato ajuda a não desagradar ninguém. Ter mais momentos para trocar e falar sobre política, justamente no momento do ano em que isso faz mais diferença, não deveria ser polêmico. Ser educado e respeitoso ao falar de política não pode ser confundido com estar em cima do muro.
Um dos temas destas eleições é, inevitavelmente, a Inteligência Artificial.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou na última semana uma cartilha de boas práticas com recomendações éticas, técnicas de checagem e cuidados para mitigar riscos de desinformação, além de traduzir o que a resolução e o Código Eleitoral proíbem. É super adequado para todo mundo interessado em comunicação política, não apenas para advogados e membros de campanha.
Vale lembrar que no começo do ano nós rodamos uma pesquisa com 2.483 pessoas para entender como reagem diante de um vídeo político (original ou sintético) e em que medida já consideram consultar sistemas automatizados para decidir o próprio voto e que riscos enxergam.
Nela, constatamos que apenas 45,3% dos entrevistados expostos a um deepfake político conseguiram identificar que o conteúdo havia sido gerado por inteligência artificial. E três em cada 4 entrevistados temem a manipulação do processo eleitoral.
Como a coordenadora do Projeto Brief, Carol Luck, disse em entrevista ao SBT, “assim como nas fake news, muitas vezes importa menos se aquele fato é verdadeiro ou não do que se ele corrobora algo em que você acredita previamente”.
A IA não precisa necessariamente convencer uma pessoa de algo completamente novo. Ela pode ser muito poderosa simplesmente ao produzir, em enorme escala, conteúdos plausíveis que confirmam algo em que aquela pessoa já estava inclinada a acreditar.
E enquanto o debate público está muito concentrado no que é forjado ou falso, importa pensar no quanto os próprios eleitores já perguntam às IAs sobre política (segundo a nossa pesquisa, 62,9% consideram consultar IAs para obter informações sobre candidatos nas eleições). Ela passa a selecionar fatos, resumir controvérsias e apresentar uma resposta que, muitas vezes, tem aparência de neutralidade.
O fundamental é manter um distanciamento crítico na interação com ela. Perguntas como “Quem publicou?”, “Existe o vídeo completo?”, “Outros veículos registraram aquela fala?” e “Quando e onde determinado fato supostamente aconteceu?” são fundamentais para a compreensão do que te é devolvido mastigado.
A Lei Maria da Penha é, com frequência, objeto de disputa narrativa devido ao papel fundacional que desempenha no combate à violência de gênero no Brasil.
Nos últimos 20 anos, mais de uma vez, campanhas de difamação coordenadas foram investigadas pelo Ministério Público por descredibilizarem a Lei Maria da Penha.
No passado, já usaram vídeos adulterados para tentar inverter fatos. Em sites de checagem de fatos, o assunto volta de tempos em tempos sob novas máscaras.
Em 2023, uma onda de falsidades aproveitou-se de um “documentário” do grupo Brasil Paralelo. Neste mês, o mote foi as chamadas de uma entrevista do agressor de Maria da Penha à TV Record, que acabou não sendo exibida por decisão judicial.
A disputa de narrativas em torno da Lei Maria da Penha e do combate à violência de gênero não é algo isolado — faz parte de um ecossistema muito maior, estruturado pela própria lógica que move os algoritmos das grandes plataformas: o choque, o ultraje e a controvérsia.
Como bem descreve Max Fisher em A Máquina do Caos, o ecossistema digital criou uma “ditadura da curtida”, na qual conteúdos que incitam o medo ou a indignação são sistematicamente priorizados, distribuídos e recomendados para gerar mais tempo de tela e engajamento. Na prática, as plataformas transformaram o questionamento da violência contra a mulher e a desinformação sobre conquistas históricas em lucro.
Em pleno ano eleitoral, é fundamental entender essa mecânica: não se trata apenas de “opiniões polêmicas”, mas de uma estratégia deliberada de engajamento acelerada por uma arquitetura de informação que não tem qualquer compromisso ético. Denunciar essa instrumentalização e manter a atenção voltada para a forma como as plataformas moldam o debate público é o primeiro passo para não cair na armadilha do choque.
E aqui vale retomar a ideia inicial do texto: vale gastar seu engajamento e seu compartilhamento com as coisas que você realmente quer promover.
Um abraço,
Tiago Aguiar, do Projeto Brief.

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