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Projeto Brief · Aug 7, 2026

A geração que o Missão quer recrutar

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Projeto Brief, Carol Luck · Projeto Brief

Há algum tempo, uma pergunta vem aparecendo com cada vez mais frequência no nosso trabalho: quem está conseguindo conversar com uma geração de jovens que olha para a vida adulta e encontra pouca ou nenhuma perspectiva pela frente?

As pesquisas vêm mostrando uma juventude mais conservadora, enquanto a direita construiu uma vantagem enorme na disputa pela atenção desse público nas redes. No início do ano, quando analisamos a pesquisa Juventudes: um desafio pendente, da Fundação Friedrich Ebert, 38% dos jovens brasileiros se declaravam de direita e 17% de extrema-direita. Apenas 18% se declararam de esquerda. Nikolas Ferreira, aos 30 anos, é hoje a figura política de maior alcance do país, e boa parte das lideranças que melhor aprenderam a circular pelo TikTok, YouTube, Instagram e pelos ecossistemas de cortes, memes e influenciadores vem justamente desse campo.

Só que quando a gente se aproxima um pouco mais, aparece uma geração menos organizada por uma cartilha ideológica do que por uma experiência muito concreta de frustração com o presente: dificuldade de conseguir um trabalho que garanta autonomia, de sair da casa dos pais, de pagar um aluguel, de construir alguma estabilidade e de acreditar que o esforço feito agora vai produzir uma vida melhor mais adiante.

Neste momento, há milhões de pessoas tentando entender por que a vida que lhes prometeram parece cada vez mais distante, enquanto a política oferece poucas respostas capazes de conversar com essa experiência. E esse vazio não fica vazio por muito tempo. Ele é preenchido por quem consegue reconhecer a frustração, organizá-la dentro de uma história e convencer alguém de que existe um culpado – e também um caminho para sair dali.

Foi nesse ponto que o Missão entrou no nosso radar. Em maio deste ano, Renan Santos apareceu com 36,1% das intenções de voto entre eleitores de 16 a 24 anos em um dos cenários da AtlasIntel/Bloomberg, à frente de Lula e Flávio Bolsonaro nesse recorte. Para um candidato ainda pouco conhecido fora das redes e à frente de um partido recém-criado pelo MBL, o resultado nos acendeu um alerta.

O MBL passou mais de uma década aprendendo a disputar atenção na internet e agora tenta transformar essa experiência em uma estrutura política permanente. Tem partido, revista, editora, aplicativo, cursos, produção profissional de lives e podcasts, uma militância estimulada a espalhar cortes pelas redes e uma academia que recruta e forma novos quadros. E quanto mais a gente olhava para essa operação, mais queria entender o que acontecia quando ela saía da tela.

No último sábado, 1º de agosto, fomos ao Komplexo Tempo, em São Paulo, acompanhar ao vivo o primeiro Congresso Nacional do Missão para tentar entender que respostas eles oferecem às frustrações dessa geração, que ideias vêm junto com elas (da segurança pública ao lugar das mulheres dentro desse projeto) e, principalmente, que perguntas tudo isso coloca para quem quer disputar esses jovens por um futuro democrático.

Ainda do lado de fora, debaixo de um sol escaldante, uma fila enorme avançava lentamente pela entrada do galpão e continuava crescendo, com mais de mil pessoas esperadas para o evento. Havia muita gente nova, sobretudo homens (pela nossa observação ao longo do dia, mais de 80% do público era masculino), e a aparência da fila estava bem distante do que alguém poderia imaginar ao pensar em um congresso partidário conservador. Um garoto à nossa frente tinha o corpo coberto por tatuagens de anime; perto dele, uma menina de cabelo azul. Camisetas com as cores do partido, referências de games e códigos de comunidades de internet apareciam por toda parte.

Também se falava sobre o que fazer dentro daquele novo mundo político. Perto da gente, um participante comentava que queria fazer parte do grupo dos evangélicos do Missão; uma menina dizia preferir o dos católicos. A conversa ganharia outro sentido depois de algumas horas ali dentro, quando ficaria claro o quanto a estrutura do movimento foi desenhada para que alguém entre por uma afinidade, encontre uma comunidade e descubra, a partir dela, uma função.

O cuidado com esse pertencimento aparecia em praticamente tudo. O Missão criou uma identidade que mistura símbolos militares, referências históricas, estética de internet e uma quantidade impressionante de produtos capazes de transformar o partido em algo que também se veste, se coleciona e se leva para casa.

Logo na entrada, um dos estandes vendia camisetas, edições do Livro Amarelo e souvenirs. Entre eles estava uma pequena onça de pelúcia, mascote do partido, vestindo uma camiseta escrito “Prendeu, matou”, slogan que Renan Santos transformou em marca de sua proposta para a segurança pública.

Alerta de fofura: no estande de souvenirs, o que mais chamava a atenção era o mascote do partido, vestindo a camiseta com um de seus principais slogans.

A escolha de colocar aquela frase numa pelúcia dizia bastante sobre a forma como certas ideias circulavam ali. “Prendeu, matou” aparecia como bordão, misturado ao restante do universo visual do partido. A brutalidade da expressão perdia parte do estranhamento quando vinha estampada no mascote, da mesma forma que, ao longo do dia, propostas e falas extremamente radicais seriam recebidas em meio a risadas e gritos de apoio da plateia. A violência fazia parte da experiência do evento também como estética e entretenimento.

Uma das primeiras falas do dia foi de Aroldo Medina, tenente-coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Sul e candidato a vice na chapa de Renan. Segurando uma vassoura como símbolo da limpeza que o partido promete fazer no país, anunciou que uma das primeiras ações de um eventual governo seria uma incursão no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro.

A fala antecipava uma ideia que atravessaria o congresso inteiro. O crime organizado aparecia como uma espécie de problema fundador, capaz de justificar mudanças profundas nas leis, no funcionamento das instituições e na própria relação do Estado com parte dos cidadãos. PCC e Comando Vermelho seriam citados durante todo o dia, sempre dentro de uma linguagem de guerra em que a força do projeto político se mede também pela disposição de ultrapassar limites que outros governos teriam respeitado. A principal referência assumida pelo grupo é Nayib Bukele, presidente de El Salvador, cujo modelo de segurança baseado em regime de exceção e prisões em massa é celebrado por integrantes do movimento.

Um pouco mais tarde, Guto Zacarias, deputado estadual de São Paulo pelo Missão, subiu ao palco vestindo uma camiseta com a frase “A favela tem que acabar”. Guto também é autor do projeto que cria em São Paulo o Centro de Confinamento das Facções, o CECOF, inspirado no CECOT de Bukele. O texto prevê celas para até 160 pessoas, camas de ferro sem colchões ou cobertores, ausência de janelas, banheiros sem divisórias e iluminação permanente. Ao defender a proposta, ele já afirmou que determinados criminosos “nunca deveriam existir” e deveriam ser trancafiados ou “eliminados da sociedade”.

Guto Zacarias, deputado estadual de São Paulo pelo Missão, durante fala no congresso do partido.

A ideia de “desfavelização” aparece também entre as propostas centrais de Renan e, no congresso, era apresentada como parte de um Brasil desenvolvido que precisaria deixar as favelas para trás. O problema é que, nessa formulação, desaparecem as pessoas que vivem nesses territórios, suas relações, trabalhos, famílias e demandas. A favela surge sobretudo como evidência de fracasso, domínio de facções e obstáculo a ser removido; por isso, falar em “invadir” ou “acabar” encontra tão pouca resistência dentro da narrativa.

Renan leva essa concepção de segurança ainda mais longe. Seu programa se apoia no chamado Direito Penal do Inimigo, e prevê medidas como prisão perpétua, pena de morte em determinados casos, redução da maioridade penal para 14 anos e um regime de exceção contra o crime organizado. Ele também já afirmou que não cumpriria uma eventual decisão do STF que impedisse a medida.

A proposta para segurança pública de Renan Santos ganhou até um site próprio criado por IA, onde para calcular a pena você precisa informar seus dados para contato. STONKS!

É uma política que encontra força onde existe um medo real e uma longa história de respostas insuficientes. Para quem convive com a expansão das facções e assiste há anos a governos prometerem soluções que pouco alteram o cotidiano, a radicalidade pode ser apresentada como prova de eficácia. Os limites institucionais passam a fazer parte do problema a ser vencido.

No congresso, essa disposição era celebrada. As falas sobre confronto arrancavam algumas das reações mais entusiasmadas do público e, em um dos momentos do dia, um jovem de cerca de 18 anos atrás de mim, berrava “Eu quero sangue, PORRA!”. Dentro de um evento em que a política era constantemente apresentada como batalha para quem aparentemente jogou muito videogame, aquela frase já não parecia completamente fora de lugar.

Um dos personagens principais daquele congresso não era um político, mas o Livro Amarelo. Ele estava nas falas, nos estandes e nas mãos dos participantes, funcionando como prova material de uma ideia repetida ao longo do dia: a de que o Missão teria se preparado para governar de um jeito que nenhum outro partido se preparou.

O livro reúne a leitura do MBL sobre o Brasil e o projeto de país que o grupo pretende construir. No palco, Kim Kataguiri resumiu bem o papel que ele cumpre nessa narrativa ao dizer que os planos apresentados pelos demais candidatos pareciam “cartinhas para o Papai Noel” diante do trabalho feito pelo movimento. O livro funciona, assim, como símbolo da pretensão do grupo de se apresentar como uma elite política e intelectual.

As edições do Livro Amarelo disponíveis para compra no site, com versões de luxo que chegam a milhares de reais. Foto: Reprodução.

Por trás dessa suposta superioridade técnica, o Livro Amarelo apresenta uma agenda de forte ajuste fiscal, com desindexação de benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo e mudanças nos pisos de saúde e educação, além de uma visão grandiosa de desenvolvimento nacional, com ferrovias, industrialização, inteligência artificial, soberania tecnológica e a ambição de transformar o Brasil em potência mundial. Na segurança estão o Direito Penal do Inimigo e a “desfavelização”; na educação, o fim das cotas. E, na política social, o que mais se repetiu foram ataques direcionados ao Bolsa Família.

O programa propõe substituir o benefício por frentes de trabalho para parte de quem recebe e prevê um “mutirão anti-Bolsa Família”. Pessoas em idade economicamente ativa que, nos termos do projeto, “se recusarem a trabalhar” poderiam perder o auxílio em três meses. A formulação parte justamente de uma ideia que ouvimos repetidamente durante o congresso – a de que existe, de um lado, quem trabalha e sustenta o país e, do outro, quem recebe benefícios do Estado.

É uma divisão que conhecemos bem. No nosso último Como Falar Sobre Bolsa Família, mostramos como essa imagem apaga uma realidade básica: quem recebe o benefício também trabalha, muitas vezes em ocupações informais, de renda variável e conciliadas com uma carga enorme de cuidado. Ainda assim, dentro do universo do Missão, a dependência de uma política social aparece sempre como sinal de menor mérito. Em alguns casos, essa lógica vai além. Zack López, colunista da revista Valete, já defendeu que beneficiários do Bolsa Família e de outros programas sociais perdessem o direito de votar; Matheus Batista, vereador de Joinville ligado ao MBL, publicou um vídeo defendendo a mesma restrição.

O ressentimento encontra aí um alvo bastante conveniente. Para quem trabalha, ganha pouco e sente que a própria autonomia ficou cada vez mais distante, o Missão oferece uma explicação moral fácil. A precariedade desse jovem é real; a história contada para explicá-la desloca parte da culpa para quem está ainda mais vulnerável.

Ao mesmo tempo em que oferece uma leitura simplista do fracasso brasileiro, o programa recupera uma dimensão de futuro que anda escassa na política. Para uma geração que cresceu vendo as próprias expectativas encolherem, existe força numa política que volta a dizer que o país pode fazer coisas extraordinárias – mesmo quando o caminho proposto para chegar lá envolve retirar direitos, desmontar políticas sociais e concentrar sacrifícios em grupos sistematicamente marginalizados.

Durante o congresso, também foi anunciada a criação do Instituto Livro Amarelo, fundação partidária que deverá treinar lideranças para defender, propor e executar essas ideias.

Essa escola já tem uma porta de entrada. A Academia MBL, criada em 2021, recruta jovens e oferece uma formação que mistura ideologia, comunicação e prática política. Nos materiais analisados por uma reportagem da Agência Pública, aparecem provas sobre “Petismo”, “Justiça e Militância”, “História da Humanidade” e “Processo Legislativo”, junto de treinamento em oratória, debate, produção de vídeos e campanhas. Depois vêm as “missões”: procurar vereadores, criar conteúdo e tentar transformar as pautas definidas pelo movimento em acontecimentos políticos reais. Quem se destaca, pode ser encaminhado para campanhas, gabinetes, diretórios e até para uma candidatura.

Além da Academia MBL, o aplicativo Valete+ funciona como uma rede social que organiza a militância do partido, reunindo também cursos, artigos, podcasts, lives e conteúdo exclusivo para a comunidade. Foto: Reprodução.

Para aqueles jovens no galpão, existe ainda uma promessa pessoal embutida nessa estrutura. Entrar naquele universo significa poder deixar de ser apenas alguém que acompanha política pela internet e começar a se imaginar como parte do grupo, com tarefas a cumprir, posições a conquistar e uma trajetória possível dentro do movimento.

É uma forma bastante concreta de oferecer propósito. O jovem recebe uma explicação para o país, uma comunidade que compartilha essa explicação e um caminho para se tornar relevante dentro dela.

Ao longo do congresso, Flávio Bolsonaro aparecia como um dos alvos mais frequentes do palco, revelando com bastante clareza onde o Missão enxerga sua principal disputa dentro desta eleição. Lula continua funcionando como adversário óbvio para aquela base, mas é o bolsonarismo que ocupa o espaço político que Renan precisa conquistar para crescer.

O rompimento vem de antes: o MBL apoiou Jair Bolsonaro em 2018, afastou-se do governo no ano seguinte e defendeu voto nulo no segundo turno de 2022. Agora, pela primeira vez com uma legenda e uma candidatura presidencial próprias, o rompimento deixa de ser apenas uma posição crítica e passa a organizar uma tentativa concreta de sucessão dentro da direita.

O que o Missão procura fazer é convencer uma nova geração de eleitores de que o bolsonarismo envelheceu junto com a promessa antissistema que o levou ao poder. Boa parte do repertório que mobilizou essa direita continua presente (o antipetismo, a política entendida como confronto, a busca permanente por inimigos e a ideia de que as instituições impedem as transformações realmente necessárias), mas a direção do partido trabalha para separar esse repertório das lideranças que o encarnaram até aqui. A disputa é por quem vai herdar a energia política produzida na última década.

Isso também ajudava a entender uma diferença interessante entre o palco e a plateia. Os ataques à esquerda ainda provocavam algumas das reações mais intensas do público, como um reflexo já consolidado de anos de formação política pelo antipetismo, enquanto as críticas ao bolsonarismo exigiam um trabalho mais consciente de convencimento.

A predominância masculina que tinha chamado nossa atenção ainda na fila ficou mais difícil de tratar como acaso conforme o congresso avançava. Amanda Vettorazzo foi a única mulher a fazer uma fala durante todo o dia e, quando finalmente a vereadora recebeu o microfone, abriu lembrando que tinha pouco espaço: “Me deram cinco minutos só”. Pouco antes, nove candidatos do Missão a governos estaduais discursaram, e fizeram juntos um juramento em que se apresentavam como “nove homens prontos para a luta”, soldados de um “exército de milhões”.

Os 9 candidatos ao governo em diferentes estados do Brasil pelo Missão se apresentam como “soldados”.

A linguagem ajudava a desenhar o tipo de protagonismo oferecido àquele público. Política aparecia o tempo inteiro como guerra, missão, enfrentamento e demonstração de força; lideranças eram apresentadas como combatentes e, mais tarde, Renan receberia até uma espada no palco. Para uma plateia formada em sua enorme maioria por homens jovens, havia uma imagem bastante clara de quem deveria ocupar o centro daquela transformação e das qualidades associadas a esse papel.

O lugar reservado às mulheres dentro desse universo também aparecia em cenas menores. Antes mesmo do início oficial do congresso, durante a transmissão ao vivo, integrantes do movimento chamaram Amanda repetidamente de “mulher mais linda do MBL”, e os comentários da live se direcionaram majoritariamente à sua aparência enquanto ela conduzia a apresentação.

Há episódios anteriores em que essa cultura aparece de maneira ainda menos ambígua. Em um vídeo gravado em 2018, Renan Santos conduz um jogral entre amigos antes de uma ida a um bar em São Paulo e anuncia que, caso o grupo não conseguisse entrar, uma amiga sofreria como “sanção” ser estuprada. A frase é repetida em coro e recebida com aplausos. Quando o vídeo voltou a circular, anos depois, Renan e a amiga disseram que estavam bêbados e que havia sido uma “brincadeira infeliz”.

Em 2022, durante a invasão russa à Ucrânia, Arthur do Val, o Mamãe Falei, viajou ao país acompanhado de Renan e enviou a amigos do MBL os áudios que acabariam levando à cassação de seu mandato. Arthur dizia que as mulheres ucranianas eram “fáceis” porque eram pobres e comparava uma fila de refugiadas à “melhor balada do Brasil”. Nos mesmos áudios, contou que Renan fazia uma viagem anual pela Europa apelidada de “Tour de Blonde”, dedicada a “pegar loiras”, e que teria recebido dele técnicas para abordar mulheres fora dos circuitos turísticos. Renan negou posteriormente que fizesse esse tipo de viagem. Arthur reconheceu a autenticidade dos áudios e teve o mandato cassado por unanimidade na Assembleia Legislativa; ainda assim, continua tendo protagonismo no movimento e participando de seus eventos.

Colocados ao lado do congresso de 2026, esses episódios deixam de parecer apenas histórias antigas e passam a levantar uma pergunta sobre o tipo de masculinidade que encontra espaço nesse projeto.

Em novembro de 2025, o MBL levou ao seu festival Curtis Yarvin, um dos principais nomes do chamado “Iluminismo das Trevas”, corrente da nova direita americana que rejeita abertamente a democracia liberal. Mais extrema ainda é a aproximação com um perfil conhecido como The Phallic Man, identificado como neonazista e responsável por publicações de exaltação a Hitler e conteúdo abertamente racista. Em 2025, ele publicou numa newsletter um longo texto elogiando Renan e o projeto do Missão. Renan nega conhecê-lo pessoalmente ou ter qualquer relação formal com o perfil, mas contou depois que o artigo fez “os gringos pirarem”, abriu portas para contatos com nomes da “novíssima direita norte-americana” e chamou o texto de “muito bom”, dizendo que seu autor “em muitos pontos acerta”.

Quando uma estrutura tão eficiente de pertencimento e formação convive com a naturalização da violência, com uma masculinidade organizada em torno de força e dominação e com ideias que relativizam direitos políticos e a própria democracia, a pergunta deixa de ser apenas quem o Missão está conseguindo atrair. Passa a importar também quem esses jovens estão sendo ensinados a se tornar.

Renan foi o último a subir ao palco e falou menos como candidato apresentando propostas do que como alguém tentando dar sentido à experiência de quem estava diante dele. Disse que os pais daqueles jovens tiveram “sonhos e ambições maiores” e que, hoje, conseguir um emprego e pagar a própria conta de luz já parece suficiente para transformar alguém em herói.

Renan transforma essa frustração em convocação. Fala de uma “geração do sacrifício” e promete que aquelas pessoas poderão um dia contar aos netos que fizeram parte da geração que transformou o Brasil. A falta de perspectiva ganha, assim, um sentido dentro de uma história maior. Aqueles jovens não teriam apenas herdado um país quebrado, mas recebido a tarefa de reconstruí-lo.

Há uma ambição nisso que aparece pouco no restante da disputa eleitoral. Grande parte das candidaturas fala em proteger conquistas, corrigir problemas e impedir retrocessos. São respostas necessárias, mas que raramente conseguem produzir uma imagem de país capaz de despertar desejo. Renan fala em grandeza, transformação e legado; oferece a possibilidade de imaginar uma vida que ainda não existe e de acreditar que vale a pena lutar para construí-la.

Essa dimensão do discurso importa porque política também é feita de encanto. Pessoas se mobilizam quando conseguem se enxergar dentro de alguma coisa maior, quando percebem que existe um destino possível para além da administração das urgências do presente. O Missão entendeu isso e preenche esse horizonte com uma visão profundamente problemática de país, atravessada por autoritarismo, exclusão e uma definição bastante estreita de quem merece fazer parte desse futuro. Ainda assim, existe ali uma aposta clara de transformação.

É nesse ponto que a experiência daquele congresso deixa uma pergunta especialmente incômoda para o campo progressista. Que futuro estamos oferecendo aos jovens para além da promessa de impedir que as coisas piorem? Que resposta temos para quem não consegue imaginar uma vida melhor do que a dos próprios pais e para quem procura na política algum lugar onde sua energia, sua raiva e sua vontade de fazer parte de alguma coisa possam encontrar direção?

Parar no diagnóstico de que os jovens estão mais à direita é aceitar como inevitável uma disputa que está acontecendo agora. O que vimos no congresso aponta alguns caminhos que vale levar a sério:

  • Por que minha vida parece pior que a dos meus pais?
    Precisamos falar sobre autonomia de forma concreta: renda, tempo, moradia, estabilidade e capacidade de planejar a própria vida.

  • Qual é o meu papel nisso?
    Participação precisa significar mais do que apoio ou voto. É preciso criar caminhos para jovens participarem, criarem, decidirem e liderarem.

  • Que futuro vale algum esforço?
    Falta ambição. Desenvolvimento, tecnologia, infraestrutura, ciência, cultura e transformação econômica também precisam compor uma imagem de país capaz de despertar desejo.

  • O que significa ter uma vida digna?
    Trabalho importa, mas a conversa precisa incluir bom salário, descanso, segurança e liberdade para construir diferentes tipos de vida.

  • Onde os homens jovens cabem em um projeto democrático?
    Esse espaço está sendo ocupado por discursos de força, disciplina e inimigos. Precisamos construir outras referências de coragem, responsabilidade, amizade, propósito e contribuição coletiva.

  • Por que participar da política deveria ser interessante?
    Política também é encontro, prazer, sociabilidade e descoberta. Pertencer a um projeto de transformação precisa ser uma experiência que as pessoas desejem viver.

A tarefa que temos pela frente é grande demais para ser reduzida a encontrar uma linguagem mais eficiente para as próximas eleições. Existe uma geração tentando descobrir que vida poderá construir e que papel terá no país que vem pela frente. Precisamos voltar a disputar sua imaginação, sua energia e sua vontade de participar – e construir um futuro que seja desejável o bastante para que se queira lutar por ele.

Esse futuro não pode ficar disponível apenas para quem transforma frustração em ressentimento e ressentimento em autoritarismo. Se existe uma disputa pelo país que esses jovens vão herdar, existe também uma disputa pelo país que eles serão capazes de imaginar. E essa é uma tarefa que a gente não pode abandonar.

Um abraço,
Carol Luck,
do Projeto Brief.

Read the original on projetobrief.substack.com

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