//\\//\\//\\//\\//
Antes mesmo de nascer, um filho já ocupa um lugar no psiquismo dos pais. Ele surge primeiro como ideia, como possibilidade. Winnicott nos ajuda a pensar que um bebê começa quando a ideia de sua existência é concebida. Há um tempo anterior ao nascimento em que esse bebê já habita o pensamento dos pais, suas fantasias, expectativas e lembranças que carregam de sua própria infância.
Ao escrever sobre sua experiência de paternidade, Alejandro Zambra relata um dos primeiros encontros que teve com sua parceira — que também escreve sobre a experiência da maternidade em outro momento. Nesse encontro, Zambra descreve uma conversa em que ambos compartilham os nomes que teriam recebido caso tivessem nascido com outro sexo. O autor conta que, se tivesse nascido mulher, seu nome teria sido Jennifer Zambra. Jazmina revela que, se tivesse nascido homem, se chamaria Silvestre, nome que depois se tornaria o nome do filho dos dois.
A partir daí, ele pensa sobre Silvestre: “Gosto tanto de pensar que você já nos rondava naquele encontro quase às cegas. [...] candidatando-se à vida desde o primeiro flerte”. Gosto desse trecho porque ele nos dá pistas do quanto o filho — que posteriormente se torna parte da escrita dos dois — já habitava algum lugar no plano das ideias.
Me peguei pensando sobre isso também nas últimas semanas da minha gestação, época em que estava à espera do meu primeiro filho e seu quarto já estava pronto, o aguardando havia algum tempo. Foi um momento de aguardar sua vinda ao mundo, e eu visitava seu quarto o tempo todo. O quarto de um bebê carrega muitos significados. O tempo de espera por um bebê desejado, o investimento libidinal que os pais fazem nessa imagem — ainda pouco palpável — desse ser que chega em breve. Como será o quarto? Colorido, com cores neutras? As cores preferidas da mãe, do pai? O que os pais imaginam que esse bebê — que futuramente se tornará uma criança — fará do quarto? Um espaço fértil de um mundo de brincadeiras, imagino.
Nesse sentido, planejar um quarto é também começar a construir um lugar psíquico para esse bebê. O berço, as cores… tudo pode falar dessa espera, que nunca é neutra, mas sempre atravessada pela história dos pais, pelo modo como cada um foi também imaginado, pensado — ou não.
Um filho, muitas vezes, chega também como promessa de reparação. Sem que os pais percebam claramente, ele pode carregar expectativas ligadas às suas próprias feridas, aos seus sonhos interrompidos, às marcas de suas relações primeiras. O bebê pode ser imaginado como aquele que trará continuidade, sentido. Ele pode ocupar, antes mesmo de nascer, um lugar muito delicado daquele que vem responder a algo dessa história anterior. Se, por um lado, há uma transmissão anterior a esse filho que chega, por outro, ele não é apenas herdeiro de uma transmissão familiar. Há algo que o próprio bebê inaugura com sua presença, seu corpinho ainda tão pequeno, seu tempo muito próprio e suas necessidades. A partir disso, ele também conta algo aos pais, os modifica e os apresenta a uma nova posição: a de serem pais daquele bebê singular.
Julio Ramón Ribeyro, uma grande inspiração de Zambra, escreve: a chegada de uma criança a um lar é como a irrupção dos bárbaros no antigo Império Romano. Meu filho destruiu, em vinte meses de vida, todos os símbolos exteriores e pomposos da nossa cultura doméstica: a estatueta de porcelana que herdei de meu pai, reproduções de esculturas famosas, cinzeiros raros furtados com tanta astúcia em restaurantes, taças de cristal trazidas da Polônia, livros com lindas gravuras, o toca-discos portátil etc. O menino se sente diante desses objetos, cuja utilidade desconhece, como o bárbaro diante dos produtos enigmáticos de uma civilização que não é a sua. E como, apesar de sua ignorância e seu despotismo, ele representa a força, a sobrevivência, ou seja, o porvir, ele os destrói. Destrói os símbolos de uma cultura que para ele já está caduca, porque sabe que poderá substituí-los, já que ele encarna, potencialmente, uma nova cultura.
Pensemos, então, em um bebê que chega e que, antes disso, é pensado - ainda que não planejado — como uma nova cultura. Um filho não apenas ocupa um lugar já existente, mas desloca os lugares anteriores. Ele chega inscrito em uma história, mas não se limita a repeti-la e sua existência convoca os pais a reorganizarem o tempo, o corpo e a linguagem.
//\//\//\
Uma tapeçaria infamiliar: entre memórias e instantes
“retirar um poema
do meio
de um sonho”
— Sara de Melo
Acordei ainda mergulhada na atmosfera do sonho. Essa noite, estive na minha casa de infância. Ouvi um convite na voz onírica: vem! Fui levada a uma casa fora da casa. Ali, estavam dispostos inúmeros objetos. Sabia que alguns eram meus — apesar de agora não os reconhecer de memória. Outros, vieram de outra pessoa.
No sonho, me coloquei diante desse inventário íntimo e curioso. Com olhos atentos, comecei a garimpar. Me lembro que na pilha de objetos — meus, mas de outro tempo, havia uma tapeçaria colorida. Rosa e amarela. Me encantei com aquilo que era desconhecido, mas ainda assim, meu. Peguei. Também encontrei outros objetos infamiliares e os recolhi. Queria levá-los comigo. Como é curioso esse movimento, penso agora, de garimpar os próprios objetos. Escolher, naquilo que já foi seu, o que deseja levar. Encontrar novos rumos e novos modos de olhar os fios tecidos. De tudo, é uma tapeçaria que me chama no sonho. Quando acordo, é nela que penso. Ela, que enlaça os fios coloridos de modo que tenham um formato próprio. Ela, que me causa um assombro porque o sonho me diz que já foi minha, mas não reconheço. Me presenteia, então, com algo novo — que já me pertencia. Me assombro com o que há de mais paradoxal nisso.
Enquanto escrevo sobre o sonho, penso também no livro que me fez companhia no último final de semana. O título, por si só, já havia me capturado: “Concha s.f. casa à deriva”, mas não sabia até então, que ele me faria companhia de forma tão íntima nas horas azuis da madrugada. Como é bonito pensar em um sonho produzido pelo encontro com um livro. Acho que a tapeçaria rosa e amarela nasce daí. Desse encontro. Na apresentação do livro, Carla Kinzo escreve: “este livro inventa, muitas vezes, várias maneiras de dizer matéria, casa, memória, instante, sempre trocando as palavras de lugar, compondo mobílias. Nele, a casa reaparece como nuvens em movimento; a memória, como peixes migrantes; o tempo é o que craquela na parede e as noctilucas, rebrilhos na escuridão.”
Compor mobílias, memórias e instantes. Talvez esse seja o movimento apresentado em linguagem onírica. Convite proposto também pela análise. Ainda não contei desse sonho ali, mas o farei em breve. Já vislumbro como será difícil transmitir o encontro, a tapeçaria, o desconhecido íntimo. Será preciso, também, garimpar palavras. Diante das já conhecidas, encontrar novos arranjos. Fazer uma outra coisa com o que já estava ali.
✷
“uma cascata de palavras
nascentes
dentro das nuvens
qual delas escolher
qual delas agora?”
— Sara de Melo
//\//\//\
Estava lendo pela primeira vez “Infância em Berlim”, do Walter Benjamin. Na minha opinião talvez um de seus textos mais pessoais, curiosamente escrito em meio à uma maré de fracassos particulares; e aliás, como quase toda cabeça inquieta, os melhores trabalhos costumam vir justamente desses caixotes.
Vasculhando as esquinas da memória, Benjamin se embrenha entre os fragmentos das ruas de sua infância em Berlim, sugerindo a cada linha que o êxtase pode não pertencer aos grandes eventos ou às narrativas oficiais contadas pela boca ciente, mas sim às grandiosas banalidades que compõe o chão vacilante das lembranças.
Quando descobri estar gestando meu filho tive a estranha sensação de naturalidade, um sentimento que, a posteriori, reconheci que beirava o alheamento. Diante das caras de espanto e deslumbramento que vinham junto ao anúncio da notícia, me ouvia dizendo, chistosa, “Calma gente, engravidar é mais velho que andar pra frente.” como se tentasse me apegar a usualidade do fato para diminuir a magnitude assustadora que advinha dele.
Em análise fui questionada do porquê de estar contrapondo o comum ao extraordinário, uma vez que estes poderiam mais se aliar do que se opor. Como é de praxe em análise, só pude me responder com mais perguntas. Um nascer do sol é menos importante pela mera periodicidade de seu ato? Uma paisagem é menos bonita por compor vários lugares de forma parecida? Uma perda dói menos por já termos perdido outras vezes?
Em seu lindo texto, Benjamin parece convidar o leitor a recuperar algo dessa exata disposição: seria possível olhar novamente para o cotidiano como quem o vê pela primeira vez, permitindo que, por um instante, o banal revele sua dimensão secreta e poética?
Bom, não coincidentemente ele recorre a própria infância para fazer isso. A criança parece mesmo habitar um universo onde os objetos ainda não estão completamente capturados pela utilidade, e nesse sentido, a trivialidade do cotidiano mostra sua capacidade de tornar-se extraordinária diante do olhar infantil não domesticado pelo hábito.
Puxando mais gente para a roda, é interessante como Benjamin e Lacan se esbarram com alguma frequência quando vão falar de memória. Na elaboração Benjaminiana, as lembranças da infância não recuperam o passado tal como ele foi, elas fazem surgir, no presente, aquilo que permaneceu latente nas experiências vivenciadas. Para Lacan também. Em uma análise pouco importa a veracidade factual de dada memória, mas sim o que de extraordinário se costurou à ela para que esta fosse elevada à superfície da língua. Ou seja, o extraordinário não está escondido atrás do cotidiano; está nele.
Desafiando os dicionários, penso que talvez o extraordinário possa sim habitar na ordinariedade da rotina. Usando as lentes da infância, quem sabe possamos enxergar que o encantamento desponta justamente no solo fértil daquilo que é, maravilhosamente, comum.
Termino com as palavras de um outro Valter:

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.