“Qualquer prejuízo ao nosso todo-poderoso e soberano Eu constitui, no fundo, um crimen laesae majestatis.”1
— Freud, 1915/2020
Costumamos explicar os conflitos entre pessoas ou grupos a partir do aumento das diferenças entre eles — sejam econômicas, sociais ou culturais —, supondo que quanto maiores essas disparidades, maior a probabilidade de confrontos violentos. No entanto, uma compreensão mais ampla do poder e da violência precisa considerar que disputas especialmente intensas frequentemente ocorrem justamente entre aqueles que são muito semelhantes ou cujas diferenças são verdadeiramente mínimas.
As rivalidades entre irmãos, por exemplo, tendem a ser particularmente ferozes. O exemplo simbólico é o de Caim e Abel, cuja relação dá origem ao uso do termo “fratricida” para designar embates extremos entre grupos próximos, vizinhos e/ou ligados por fortes laços de semelhança.
Anton Blok2 nos traz o seguinte questionamento: Por que seriam justamente as pequenas diferenças aquilo que faz com que as pessoas excluam os outros, os discriminem, os estigmatizem e os submetam a formas extremas de violência?
São, afinal, as diferenças sutis, e não as grandes diferenças entre indivíduos e grupos, que causam conflitos e lutas cruéis.
Freud formulou a noção de narcisismo das pequenas diferenças,

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