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Psicanalisando · Jul 12, 2026

O obsessivo tem uma relação particular com o tempo: ele o suspende

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Psicanalisando, Marilda Piccolo · Psicanalisando

Uma newsletter mensal dedicada à leitura de personagens como se estivessem em análise. Aqui, a literatura é tomada como campo de escuta: sintomas, fantasias, impasses e desejos são lidos à luz da psicanálise, em um exercício assumidamente livre e, por isso mesmo, rigoroso de interpretação. Exerço, como psicanalista que sou, neste espaço criativo, o que, em psicanálise chamamos de psicanálise selvagem. Entre Freud, Lacan e outros psicanalistas, mas também entre narrativas, cenas e restos, cada edição propõe um encontro: não com a verdade do texto, mas com aquilo que nele insiste, repete e escapa.

Como você organiza seus dias? Há, em seu cotidiano, espaço para avançar e recuar? Existem sujeitos que organizam a vida inteira em torno de um ponto fixo.

Marco Carrera, personagem de O Colibri, do romance de Sandro Veronesi, é um desses sujeitos. Ao se apresentar na clínica como O Colibri, já penso em uma hipótese clínica: o colibri é o pássaro que bate as asas mais rápido do que qualquer outro, em um esforço frenético e contínuo, para ficar exatamente no mesmo lugar. O movimento a serviço da imobilidade. A energia a serviço da paralisia.

Relevante contar que Marco Carrera não acreditava na Psicanálise.

“[...] a psicanálise era como o cigarro, não bastava não fazer uso dela, também era preciso proteger-se de quem dela fazia uso. [...] A psicanálise é uma armadilha.”

Marco não é um homem inerte. Ele age, decide, suporta. Mas tudo o que faz parece organizado em torno de uma recusa fundamental: a recusa de avançar, de deixar para trás, de deixar que o tempo faça o que o tempo faz. Há nele um ponto fixo e esse ponto tem algumas figuras: Luisa, a irmã, a filha.

A primeira pergunta clínica diante de Marco não é o que ele sente, mas o que ele evita sentir. Porque a imobilidade, em psicanálise, raramente é passividade. É quase sempre defesa.

Em Freud, a neurose obsessiva se organiza em torno de uma ambivalência que não pode ser resolvida: amor e ódio; desejo e culpa; movimento e paralisia; e que o sujeito tenta administrar pela via do controle, da repetição e do adiamento. O obsessivo não age porque agir implicaria escolher, e escolher implicaria perder. Enquanto tudo permanece suspenso, enquanto o ponto fixo se mantém, a perda pode ser adiada indefinidamente.

Marco não escolhe Luisa, porque Luisa nunca está inteiramente disponível para ser escolhida. É justamente isso que a torna indispensável à sua estrutura: um objeto impossível não pode ser perdido, porque nunca foi inteiramente possuído. A imobilidade de Marco não é fraqueza nem falta de desejo. É a solução que ele encontrou para não se expor ao que o desejo, se movido, poderia custar.

Em Lacan, o sujeito obsessivo se caracteriza por uma relação particular com o desejo do Outro: ele teme, acima de tudo, ser consumido por esse desejo; ser reduzido a objeto; perder-se no encontro. A estratégia obsessiva é manter o desejo vivo, porém à distância. Desejar sem chegar. Aproximar-se sem tocar. Ficar parado enquanto as asas batem.

Marco Carrera é, nesse sentido, um obsessivo de manual, não no sentido clínico redutor, mas no sentido de que sua estrutura revela, com uma clareza quase didática, o que a neurose obsessiva produz quando encontra, na vida, o objeto perfeito para se organizar.

Luisa não é apenas o amor de Marco. Ela é a arquitetura do seu desejo. Desde a infância, ela ocupa um lugar que nenhum outro objeto poderá preencher: não porque seja perfeita, mas porque é impossível. Casada com outro, distante, inacessível na medida exata em que precisa ser para continuar funcionando como organizadora do desejo de Marco.

Se Luisa estivesse disponível, ela deixaria de ser Luisa, deixaria de ser o ponto fixo em torno do qual a vida de Marco se orienta.

“[...] se uma história de amor não termina [...] continuará a perseguir a vida dos protagonistas com sua ausência de coisas não ditas, ações não realizadas, beijos não dados [...]”

Freud me ensinou que o desejo não se dirige ao objeto real, mas ao objeto perdido, àquilo que foi, uma vez, fonte de satisfação e que, desde então, se busca sem jamais reencontrar. O objeto do desejo é sempre, em alguma medida, uma construção: o sujeito investe em um objeto real as qualidades do objeto perdido, e é nesse investimento que o amor se constitui.

Em Marco, esse mecanismo funciona com uma pureza que beira o absoluto. Luisa é o objeto em que ele depositou tudo o que não pode ser dito, tudo o que não pode ser movido, tudo o que precisa permanecer intacto para que o resto da vida faça sentido. Ela não é uma mulher, é uma função psíquica. Enquanto ela existir como impossível, Marco pode continuar parado sem precisar explicar o porquê.

Em Lacan, o objeto a é o objeto causa do desejo, não aquilo que se deseja, mas aquilo que faz desejar, que mantém o desejo em movimento. Luisa funciona, para Marco, como objeto a em estado quase puro: ela não satisfaz, ela causa. E é por isso que Marco não a busca para possuí-la, mas para continuar desejando-a. A posse encerraria o desejo. A impossibilidade o perpetua.

Marco constrói, com muito esforço, uma vida organizada em torno da imobilidade.

Mas a vida não é obsessiva. E as perdas chegam. Marco me relata uma infinidade de lutos, me mostrando, com uma precisão dolorosa, o que acontece quando um sujeito que organizou toda a sua defesa em torno da permanência é confrontado, repetidamente, com a impermanência radical do que ama.

“[...] encontrava-se diante do imprevisto, e havia aprendido que imprevistos devem ser aceitos.”

Em Freud, o luto é o processo pelo qual o sujeito desinveste do objeto perdido e reinveste no mundo. É doloroso, é lento, mas tem uma direção: a aceitação da perda e a retomada da vida. Mas para o obsessivo, o luto coloca em xeque a estrutura inteira: se tudo pode ser perdido, se o ponto fixo não é garantia de nada, então a imobilidade como defesa revela sua insuficiência.

Marco não elabora as perdas, ele as absorve. Continua funcionando, cuidando, sendo o ponto de apoio de todos ao redor. Mas cada perda vai depositando, silenciosamente, o peso do que não foi dito, do que não foi chorado, do que não encontrou elaboração. A imobilidade, que era defesa, vai se tornando também prisão.

Percebo, nesse percurso, algo que a clínica reconhece com precisão: o sujeito obsessivo frequentemente se coloca no lugar de quem cuida, de quem suporta, de quem permanece, afinal, permanecer é sua forma de controle. Enquanto ele está de pé, enquanto ele sustenta o que os outros não conseguem sustentar, não precisa se perguntar o que sente. A função de suporte protege da experiência de ser, ele mesmo, alguém que precisa de suporte.

Há uma dimensão temporal na estrutura de Marco que merece atenção.

O obsessivo tem uma relação particular com o tempo: ele o suspende. Não exatamente nega que o tempo passa, mas age como se o essencial pudesse ser preservado da passagem do tempo, como se o ponto fixo fosse uma garantia contra a transformação.

Marco fala, na análise, de forma não linear: idas e vindas; cartas; e-mails; mensagens; memórias; futuros imaginados… essa estrutura não é apenas estética. É o mapa do tempo obsessivo: um tempo que não avança em linha reta, que retorna sempre ao mesmo ponto, que organiza o presente em função de um passado que não passa e de um futuro que se teme.

Em Lacan, o obsessivo espera. Espera que as condições sejam perfeitas, que o momento certo chegue, que o impossível se torne possível. Essa espera não é passividade, e, sim, uma forma sofisticada de não agir, de manter o desejo vivo sem expô-lo ao risco da realização. Marco espera por Luisa de uma forma que não é exatamente esperança: é a manutenção de uma abertura que nunca precisará ser fechada, porque o que se espera nunca virá na forma esperada.

E é nessa espera, nesse bater de asas frenético para não sair do lugar, que Marco Carrera passa a vida.

Há uma perda em Marco que não se iguala às outras, é o ponto em que a estrutura obsessiva encontra seu limite mais radical. Porque o obsessivo pode, com muito custo, absorver determinadas perdas, mas outras invertem a sequência do tempo, e é justamente dessa inversão que o obsessivo não tem defesa preparada.

Marco não consegue elaborar determinadas perdas de sua vida, pois estas desfazem a lógica que sustentava sua imobilidade: enquanto havia um ponto fixo no passado: Luisa, os objetos amados, a vida que não mudou; havia também um futuro implícito, ainda que não perseguido. A não realização deste futuro implícito deixa Marco diante de algo que a neurose obsessiva teme acima de tudo: o vazio sem função.

Mas a história que Marco conta não fica no vazio. Outras pessoas importantes chegam, sendo, literalmente, o futuro. Então Marco reorganiza, pela primeira vez, algo que se parece com um movimento em direção ao que ainda não existe, não ao que foi, não ao impossível do passado, mas ao que está por vir.

“[...] assim como a tragédia costuma mandar pelos ares o pacto que mantém uma família unida, produzindo nela uma ruína inexorável, essa mesma tragédia pode surtir o efeito contrário se a família já tiver explodido [...]. Era a teoria da pedra lançada na água: se a água estiver calma, a pedra produzirá turbulência, mas, se já estiver agitada, a pedra, ao contrário, produzirá calma.”

Clinicamente, isso é significativo. Freud me ensinou que o investimento libidinal que se retira do objeto perdido precisa encontrar um novo destino e, quando esse reinvestimento acontece, ele sinaliza que o luto, mesmo que incompleto, encontrou alguma direção. Marco não supera. Não se torna outro sujeito. Mas o novo Outro em sua vida oferece algo que nenhum objeto havia oferecido: uma razão para permanecer que não é a recusa de partir, mas o desejo de ver o que chegará.

Com Lacan, escuto esse novo Outro como o ponto em que o Real da perda, que a estrutura obsessiva não conseguiu simbolizar, encontra, pelo menos parcialmente, uma ancoragem. Marco não resolve o luto. Mas oferece ao sujeito um fio.

O fio é significante no romance familiar do neurótico Marco: o fio que Marco segurou com a filha, o fio que agora segura com a neta, como se a continuidade da vida precisasse de uma linha concreta para não se perder inteiramente. O fio é a metáfora mais precisa da posição de Marco: ele não avança, não parte, não se lança. Mas segura. E segurar, para um sujeito cuja estrutura foi sempre a da imobilidade como defesa, é talvez o único movimento possível e, nesse momento, o mais necessário.

Em Marco Carrera, a neurose obsessiva não se apresenta como sintoma ruidoso, mas como estilo de vida: uma forma de estar no mundo que tem a aparência da lealdade, da constância, da profundidade afetiva, e que é, ao mesmo tempo, a defesa mais sofisticada contra o que o desejo, se movido, poderia custar. O colibri bate as asas sem parar. E fica, exatamente, no mesmo lugar.

Ler Marco Carrera como paciente é escutar um sujeito que encontrou, na neurose obsessiva, uma solução tão elegante quanto custosa: organizar a vida em torno de objetos impossíveis, um, em especial, para nunca precisar escolher, nunca precisar perder, nunca precisar avançar.

A imobilidade não é ausência de desejo: é a forma que o desejo encontrou para sobreviver sem se arriscar. Luisa não é apenas o amor de Marco, é a função que mantém a estrutura de pé: enquanto ela existir como impossível, a vida pode continuar suspensa sem que essa suspensão precise ser nomeada como recusa. As perdas sucessivas são o que a defesa não consegue conter, o Real que irrompe e que Marco absorve sem elaborar, acumulando um peso que a imobilidade, sozinha, não é capaz de sustentar.

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Você leu O Colibri, de Sandro Veronesi? O que a imobilidade de Marco Carrera produziu em você? Como psicanalista, concorda com a hipótese da neurose obsessiva como estilo de vida? E o que você pensa sobre a neta como único ponto fixo futuro possível para quem perdeu tudo?

Se houver um personagem literário que insiste, retorna, inquieta, não se deixa esquecer, você pode indicá-lo por aqui nos comentários (ou mandar um email para: marilda.piccolo@gmail.com) junto com o título do livro, para que venha deitar no meu divã!

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Expediente: VERONESI, Sandro. O Colibri. Tradução de Karina Jannini. Belo Horizonte: Autêntica Contemporânea, 2025.

Read the original on nucleopsi.substack.com

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