Há sujeitos que se constroem para não ter conflito.
Seymour Levov, o Sueco, como todos o chamam, protagonista do romance Pastoral Americana, de Philip Roth, é um desses sujeitos. Belo, atlético, bem-sucedido e gentil. Um homem que parece ter recebido do mundo mais do que qualquer um poderia esperar, organizou sua vida em torno da tarefa de se mostrar digno disso. De não decepcionar. De ser, sempre, o que todos precisavam que ele fosse. Ouço o colapso desse projeto.
Clinicamente, o que interessa não é o colapso em si, mas a estrutura que o tornou inevitável. Porque Seymour não cai apesar de quem ele é. Ele cai por causa de quem ele é.
Para compreender Seymour, é preciso começar pelo lugar que ele ocupa, não apenas na família, mas no imaginário coletivo de sua comunidade.
Desde cedo, ele é o Sueco: o apelido não é apenas afetivo, é uma designação de excelência. Ele encarna, no corpo e no caráter, um ideal: o do judeu americano que venceu, que se integrou, que provou ser possível. Seu pai o adora com uma intensidade que tem menos a ver com o filho real do que com o que esse filho representa: a realização de um sonho geracional, a confirmação de que a promessa americana é verdadeira.
“O corpo, do qual a pessoa não pode se despir por mais que tente, e do qual a pessoa não se liberta senão na morte.”
Em Freud, o ideal do ego é a instância psíquica que condensa as exigências do Outro: da família, da cultura, da tradição; e as instala no interior do sujeito como padrão a ser atingido. Nasce do narcisismo primário: a criança, ao perceber que não é perfeita nem onipotente, projeta à frente de si uma imagem ideal e passa a persegui-la. O amor próprio, a partir daí, depende da distância entre o eu real e esse eu ideal.
Em Seymour, essa distância foi negada. Ele não persegue o ideal: ele é o ideal, ou ao menos se tornou indistinguível dele. O sujeito real, com seus conflitos, suas ambivalências, seus desejos contraditórios, foi, progressivamente, recoberto pela figura do Sueco. E essa sobreposição tem um custo que a análise vai, lentamente, apresentar.
Seymour não é um homem sem problemas. É um homem que não pode ter problemas.
“[...] sempre esperando pelo pior, ele nunca ficava decepcionado por muito tempo.”
Há uma diferença decisiva entre as duas formulações.
O primeiro descreve uma circunstância: alguém a quem a vida foi generosa. O segundo descreve uma estrutura: alguém para quem o conflito se tornou inadmissível, não porque ele não exista, mas porque reconhecê-lo ameaçaria desmontar a identidade inteira.
Escuto um homem que responde à adversidade com benevolência, à raiva com compreensão, à dor com contenção. Seymour não explode. Não acusa. Não reivindica. Diante de cada situação que exigiria um confronto, ele encontra uma forma de absorver, de suavizar, de não deixar que o conflito se instale.
Em Freud, o recalque é o mecanismo pelo qual o ego expulsa da consciência os conteúdos que seriam insuportáveis: os desejos proibidos, os afetos inaceitáveis, as representações que ameaçam a coesão do eu. Mas o recalcado não desaparece: ele retorna, deformado, sob a forma de sintoma. E quanto mais rígido o recalque, mais violento tende a ser o retorno.
Em Seymour, o recalque não incide sobre um desejo específico, mas sobre o conflito como tal. O que é expulso não é este ou aquele conteúdo, mas a possibilidade mesma de que algo em si possa ser contraditório, inadequado, perturbador.
Ancorada em Lacan, posso dizer que Seymour recusa sua própria divisão subjetiva. Ele não quer ser barrado, não quer ser o sujeito que tem uma falta, que deseja sem saber bem o quê, que carrega contradições sem resolução. Quer ser inteiro, consistente, à altura. E é justamente essa recusa que o torna vulnerável: o sujeito que não admite sua fissura não tem como elaborar o que nela se acumula.
O Sueco me fala sobre a escolha de Dawn, Miss New Jersey, católica, de origem irlandesa para sua esposa, e percebo que tal escolha não é acidental. É uma declaração de identidade: o judeu que atravessou fronteiras, que conquistou o que estava além do seu grupo de origem, que provou ser universal o suficiente para pertencer a qualquer mundo.
Há algo mais nessa escolha que merece atenção clínica: Dawn é bela, admirada, e funciona, no imaginário de Seymour, como espelho: uma superfície que reflete de volta a imagem que ele precisa ver. O casal perfeito, a fazenda perfeita, a vida perfeita. O investimento de Seymour no casamento é também um investimento narcísico: amar Dawn é, em parte, amar a confirmação de que ele é quem acredita ser.
Merry, a filha, é o centro do que o Sueco me traz na clínica, sendo o ponto mais denso.
Ela nasce do Sueco (de seu corpo, de sua história, de sua família), mas é, em tudo, o avesso do pai: feia onde ele é belo, raivosa onde ele é sereno, radical onde ele é moderado, destrutiva onde ele é construtivo. Ela gagueja e este é o primeiro sinal de que algo no corpo não cabe na imagem que a família projeta.
Em Freud, os filhos frequentemente encarnam o recalcado dos pais. Não se trata de determinismo mecânico, mas de uma transmissão inconsciente: o que o pai não pôde ser, o filho às vezes é: como se o psiquismo encontrasse, pela via geracional, uma saída para o que não pôde circular de outra forma.
Merry porta o que Seymour não pode ter: a raiva, a rebeldia, o desacordo com o mundo como ele é. Ela diz, com o corpo e com os atos, o que o pai nunca disse e o diz com uma violência proporcional ao silêncio que o precedeu.
“A filha que o transporta para fora da sonhada pastoral americana e para dentro de tudo que representa a sua antítese e o seu inimigo, para a fúria, a violência e o desespero da contrapastoral - para a selvageria nativa americana.”
O horror de Seymour diante do ato da filha não é apenas o horror de um pai. É o horror de um sujeito que se depara, pela primeira vez de forma incontornável, com o que havia recalcado, descobrindo que o recalcado tem rosto, tem nome, e mora na sua própria casa.
Após o desaparecimento de Merry, Seymour não elabora. Procura, espera e mantém, na superfície, a postura do homem que continua funcionando: vai ao trabalho, conversa, parece presente. Mas algo nele para.
Seymour não pode fazer o luto de Merry porque perdê-la significa reconhecer tudo o que ela representa. Significa admitir que há conflito onde ele vê harmonia, raiva onde vê amor, falha onde vê perfeição. O luto de Merry seria também o luto do Sueco e esse é um luto que Seymour não está equipado para fazer.
O que resta é a paralisia: um homem que continua em cena, mas que deixou de habitar sua própria vida. A identidade que o sustenta está rachada e, sem os recursos para reconstruí-la em bases mais verdadeiras, ele permanece na borda da fissura, sem atravessá-la.
Seymour fala sempre como o Sueco. O que fala nele, por baixo, nunca encontra voz.
Seymour Levov apresenta uma estrutura organizada em torno de um ideal do ego extraordinariamente exigente, construído sobre as demandas geracionais do pai, reforçado pelo reconhecimento social e consolidado em uma identidade que não admite contradição interna.
O recalque, em Seymour, não incide sobre um desejo proibido específico, mas sobre o conflito como tal: o que é sistematicamente expulso da consciência é a possibilidade de ser dividido, falho, ambivalente, isto é, de ser, simplesmente, um sujeito. Essa estrutura produziu um homem de aparência extraordinariamente estável, mas de uma fragilidade proporcional à rigidez do que a sustentava.
Merry funcionou como operador do retorno do recalcado, não apenas como filha perturbada, mas como o lugar em que tudo o que não pôde circular no psiquismo do pai encontrou, finalmente, uma forma de existir. Ela é o conflito que Seymour nunca viveu. E é por isso que ele não consegue nem compreendê-la, nem perdê-la: porque compreendê-la seria reconhecer-se nela, e perdê-la seria perder a última prova de que o recalcado existe.
Em Seymour Levov o ideal do ego não é aspiração: é prisão e apresenta uma estrutura neurótica organizada em torno deste ideal. A identidade do Sueco foi construída com tamanha precisão que não deixou espaço para o sujeito real habitá-la. O recalque do conflito manteve a estrutura de pé por décadas, até que Merry, ao explodir, fez o que o psiquismo do pai não podia fazer: trouxe o real à superfície, sem mediação, sem elaboração possível.
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Você conhece o romance Pastoral Americana, de Philip Roth? O que achou do colapso do Sueco? Como psicanalista, concorda com o diagnóstico da neurose como estrutura psíquica do personagem? E está de acordo que a tragédia não chega de fora? Que este momento sempre esteve dentro, e, finalmente encontrou uma saída e a saída teve o rosto da filha?
Se houver um personagem literário que insiste, retorna, inquieta, não se deixa esquecer, você pode indicá-lo por aqui nos comentários (ou mandar um email para: marilda.piccolo@gmail.com) junto com o título do livro, para que venha deitar no meu divã!
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