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Jogo da Velha - por Noemi Jaffe · Jul 17, 2026

"Jogo da Velha 58: o Inferno são os outros"

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Noemi Jaffe · Jogo da Velha - por Noemi Jaffe

O Felipe Charbel tem um livro muito bom chamado “Lacunas", em que ele explora a ideia incrível de discorrer sobre os livros que ele ainda não leu. É como se essa coleção inumerável dos livros ainda não lidos fosse, pela enormidade e o mistério, ainda mais importante do que a dos livros lidos. Como se dissesse ainda mais sobre a pessoa que não os leu.

E foi lendo esse livro que me lembrei que uma das minhas lacunas era nunca ter lido A Divina Comédia, do Dante.

Era não, ainda é.

Por uma necessidade – precisava ler O Inferno para o romance que estou escrevendo – fui ler uma versão em prosa do livro, feita com capricho e demora por Antonio Vinci de Moraes e publicado pela L&PM. É sempre a própria fala do poeta, mas sem a precisão e a beleza – indispensáveis – do verso.

De qualquer forma, li e fiquei com impressões ambíguas.

O livro, claro, é maravilhoso. Uma máquina do submundo organizada perfeitamente no espaço de um funil, com os círculos se estreitando cada vez mais. As passagens de um círculo para o outro são tão impressionantes quanto os próprios círculos, descritas em detalhes topográficos minuciosos. O tamanho da imaginação narrativa em cada um dos círculos e seus castigos –sempre correspondentes aos pecados – lembra As Mil e uma Noites pela variedade e vertigem. Algumas passagens metalinguísticas são cômicas e autoreferentes: “Se me viessem rimas ásperas e rudes como convém ao triste buraco sobre o qual apoiam-se todas as demais pedras, espremeria mais plenamente o sumo de meu pensamento” (me lembrou o João Cabral); “as palavras já e agora não são tão parecidas quanto os monstros com os bichos da história", “nem o O nem o I foram escritos tão rápido como aquele homem pegou fogo".

Mas tomei alguns sustos. Por exemplo: nunca podia imaginar Ulisses num dos piores círculos do inferno. O oitavo, o dos “conselheiros fraudulentos". Por causa do Cavalo de Troia. E, além do mais, o Dante vai e muda o destino imutável do herói, afundando o navio de Ulisses logo antes de ele atingir o Purgatório. O Ulisses é condenado por sua desmedida (sua “hubris"). Mas não é meio desmedida do Dante querer mudar o destino do Ulisses?

E também não podia imaginar o próprio Dante, no último círculo, traindo um pecador que lhe pede ajuda. E ele ainda se despede do sofredor dizendo algo como : “foi um prazer ser descortês com você". O Dante que, no começo da jornada pelos círculos do inferno desmaiava direto, tremia de medo etc., quando chega no último já está se achando.

Outra coisa que me incomodou foi o fato de, em todos os círculos, o Dante insistir em saber, seja pelo meio que for, quem é o pecador com quem ele e Virgílio estão conversando. Como se ele estivesse simplesmente encontrando a pessoa no meio da rua e perguntado: e aí, tudo bem? Você encontra o cara ardendo no inferno, com o corpo sendo comido por uma outra pessoa, uma perna aqui e outra ali e pergunta: qual o seu nome, de onde você veio?

E tem a coisa da fama. Fala o teu nome, porque daí, quando eu voltar lá pra cima eu te torno famoso.

Sei.

Afora isso, é claro, eu não li o poema em versos. E isso muda absolutamente tudo, porque ele foi escrito para ser lido dessa maneira e essa construção é determinante para a compreensão do poema. Minhas observações, por isso, não valem nada. Além do mais, interpretações tão anacrônicas como as minhas são absurdas e não fazem sentido.

Continuo com a lacuna.

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