Quando a gente cria uma personagem ou um narrador, o que a gente quer (na maioria dos casos) é que a leitora os vá conhecendo aos poucos, quase como se conhecesse uma pessoa. Mesmo que seja uma personagem inverossímil, uma lagarta listrada ou um ET. A gente quer que os leitores acreditem e interajam com a pessoa inventada como se ela existisse. Como se, não. Ela efetivamente existe. Ou não existe a imaginação?
Para isso, é preciso – ao menos é a minha opinião e meu gosto – que o “eu” de quem escreve se transforme num outro “eu”, através das palavras. Penso que a ferramenta – instrumento, recurso, alquimia – mais importante para que aconteça essa transformação é a voz. Quando a gente encontra a voz de uma personagem, fodeu. O “eu” não tem mais vez. A tua voz agora é a dela, dele, tua, deles, nossa. O texto caminha meio que sozinho e a gente se torna mais passivo do que ativo diante dele.
No ensaio “Dédalo e o Labirinto”, Tim Ingold fala sobre duas formas de caminhada e de aprendizagem: do tipo labirinto e do tipo dédalo. A aprendizagem do tipo dédalo pensa sobre aonde está indo e vai buscando alternativas lógicas até encontrar a saída, é uma caminhada ativa, que depende do sujeito. Já a do tipo labirinto tem noção de aonde está indo e vai deixando que as alternativas surjam, à medida que se caminha. A gente para, olha, reflete ou não faz nada. Coisas acontecem e você muda o caminho. Uma hora você encontra a saída, meio que por acaso. Essa caminhada é mais passiva e depende mais do objeto do que do sujeito.
Desde que conheci esse texto, passei a aplicar essa ideia também à escrita. Quando sinto que encontrei uma voz, caminho labirinticamente e deixo que a voz me leve para onde “ela” quer ir. A voz passa a nos conduzir e surpreender, extraindo palavras, frases e ideias da nossa cabeça. Coisas que a gente nunca imaginou pensar ou dizer. Se você é inocente, pode se tornar irônica e experimentar ver as coisas de uma forma totalmente nova. Pior, claro. E isso, imperceptivelmente, vai também te transformando, de maneira que o próximo livro já terá uma voz ainda outra, diferente da anterior. Não é à toa que Guimarães Rosa dizia que escrever literatura é uma alquimia, em que o autor faz as palavras passarem por várias fases físico-químicas, como evaporação, congelamento, resfriamento, fusão, choque etc., para chegar a sua versão final: a pedra filosofal, que transforma prata em ouro e garante a imortalidade.
Mas eu falei, falei e não disse nada. Afinal, o que é voz?
A voz é fácil e impossível. É só pensar na voz de uma pessoa. Na sua própria voz. Se você precisasse defini-la, diria o quê, em, digamos, três adjetivos?
– meio rouca
– contralto
– articulada
Eu diria da minha.
Mas o que eu disse com isso? Muito pouco. Como seria uma pessoa com essas características? O que mais é possível falar sobre uma voz?
É impressionante a quantidade de coisas que se pode fazer com ela: afinar, engrossar, acelerar, ralentar, vibrar, aumentar, diminuir, avolumar, torcer, rosnar, grunhir, gozar.....é de não se acabar. Ao longo de uma vida inteira, a voz se altera, o timbre muda. Aliás, timbre. Que palavra linda. O timbre é a nuance da voz e é uma das razões pelas quais uma pessoa se reconhece. Mas é praticamente impossível definir o timbre. Ele tem a ver com personalidade, genética, modulações e não sei mais o quê. E é incrível quando a gente encontra o timbre de uma personagem. Parece que ele acaba definindo todo o resto. Se a pessoa tem maxilar protuberante, peitos pequenos ou grandes, se ela tem incontinência urinária e se tem problemas com a pouca altura. Se é uma pessoa segura de si ou medrosa, se é falsamente segura etc.
Os cacoetes estão na voz. As gagueiras e hesitações. A voz trai a personagem, faz ela dizer mais do que gostaria e vice-versa. A voz treme e a fala sai truncada, a risada da pessoa solta uns cuspezinhos espasmódicos.
A voz vem dos avós, pra fazer frase do tipo vovó viu a uva. Mas vem mesmo. Temos a voz misturada dos nossos pais e mães e o sotaque de um lugar. Pelo sotaque, cada pessoa se torna, ela mesma, um lugar.
Aliás, não entendo por que tanta gente não gosta de falar ao telefone. Ouvir uma voz é como olhar pela janela, lá fora.
Assistam no MUBI aos filmes geniais do diretor Julian Radimaier - é um melhor do que o outro.
Lendo “Lendo Chekhov: uma jornada crítica", da Janet Malcolm. Excelente.
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