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Jogo da Velha - por Noemi Jaffe · Jul 28, 2026

"Jogo da Velha 59: nem toda omelete é de amoras"

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Noemi Jaffe · Jogo da Velha - por Noemi Jaffe

1.

Na estante de livros, entre duas fotografias minhas com mais ou menos um ano de idade, uma sorrindo com o cabelo espevitado e a outra falando num telefoninho de plástico, pendurei uma fotografia do Walter Benjamin, aparentemente preocupado e evidentemente melancólico. Não sei por que fiz isso, mas olhando, elas me parecem complementares.

Lembro de um texto dele que li logo que descobri sua existência: “Omelete de amoras”.

Um rei pede ao melhor cozinheiro do reino que lhe faça uma omelete de amoras igual à que uma velhinha fez para ele cinquenta anos antes, numa cabana escondida na floresta, quando ele fugia com seu pai de uma guerra perdida. O cozinheiro se desculpa, mas declara:

Senhor, pode chamar imediatamente o carrasco. É claro que eu conheço todos os segredos da preparação de uma omelete de amoras, sei empregar todos os temperos. Conheço as palavras mágicas que devem ser pronunciadas enquanto os ovos são batidos e a melhor técnica para batê-los. Mas isso não me impedirá de ser executado, porque a minha omelete jamais será igual à da velhinha. Ela não terá os condimentos que lhe deixaram, senhor, a impressão inesquecível. Ela não terá o sabor picante do perigo, a emoção da fuga, não será comida com o sentido alerta do perseguido, não terá a doçura inesperada da hospitalidade calorosa e do ansiado repouso, enfim conseguido. Não terá o sabor do futuro estranho e do futuro incerto.

Talvez o Walter Benjamin fosse tão melancólico por ser, justamente, uma criança. E uma criança não pode sobreviver no mundo dos adultos. Talvez eu tenha colocado a foto dele assim triste no meio das minhas só para consolá-lo. Ou talvez tenha sido para consolar a mim.

2.

Um escritor português me contou que, em Portugal, para saber se um parceiro/a sexual gozou, a pergunta deve ser:

“Vieste-te?”

Ou, transliterado, “vieshtt?”

3.

Na semana que vem vou a Paris visitar minha filha e estou feliz que nem pinto no lixo.

4.

Não entendo – ou melhor, não aceito – a diferença entre forma e conteúdo na literatura. O conteudismo é, na minha opinião, uma mania de tradição cristã, ou melhor, católica. Foi o catolicismo que, convenientemente, atribuiu mais valor à alma do que ao corpo, com isso escanteando o corpo pra vala dos infernos. O certo, o bom, o verdadeiro, o amoroso estão na alma, no íntimo, no interior, no imo, no cerne, todas palavras carregadas de positividade. No corpo fica a violência, a luxúria, a gula, a preguiça etc. É claro que tudo isso vem de Platão, mas, na Grécia Antiga, o corpo tinha um significado radicalmente diferente, ligado à força e ao prazer. Que, então, não era maldito como hoje é, inclusive para a esquerda, que transpôs a ideia de alma para a ideia de coletividade. Me parece que vem daí certo valor maior que se atribui ao conteúdo, em detrimento da forma. Acontece que, em literatura, isso não existe. Imaginem se Machado de Assis, em vez de dizer “Marcela amou-me durante onze meses e oito contos de réis”, tivesse dito: “Marcela disfarçou que me amava durante onze meses, mas, na verdade ela só estava interessada no meu dinheiro, consumindo oito conto dos réis ao longo desse tempo”, ou qualquer coisa semelhante. Ou a Clarice Lispector, em vez de dizer “numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária”, dissesse “ser ruivo era sua forma involuntária de revoltar-se contra a maioria de morenos com quem ela convivia”. Para que um escritor seja aquele escritor, aquele que reconhecemos por sua marca original, é preciso que ele tenha uma forma particular e exclusiva.

6.

Na FLIP, cruzei sem querer com a Paulliny Tort, na praça. Conversamos longamente sobre cavalos presos nas paredes e sobre mulheres no século XII.

7.

Também na FLIP, a alegria de conhecer o Élvio Cotrim e conversar sobre tudo e nada.

8.

Ainda na FLIP, orgulho de ver meus alunos brilhando.

9.

Boa novidades em preparo pro ano que vem.

10

Às vezes dá uma raiva, uma raiva que nem sei.

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