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Jogo da Velha - por Noemi Jaffe · Jun 25, 2026

"Jogo da Velha 56: a nuvem da nuance"

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Noemi Jaffe · Jogo da Velha - por Noemi Jaffe

A nuance, pelo dicionário, é uma variação sutil. Costuma-se usar essa palavra especialmente para distinguir as tonalidades de uma cor. Um azul ligeiramente mais escuro, mais claro, mais luminoso, brilhante, opaco. Azul celeste, azul piscina, azul bebê. A luz incide mais ou menos, o dia está ensolarado ou chuvoso e o azul vira roxo ou marrom. A cor, como se sabe, é uma combinação de física, circunstância e subjetividade. Existe a memória de uma cor, o amor ou o ódio a ela. Parece mesmo mais fácil compreender a nuance do ponto de vista da tonalidade, infinita.

Mas e a nuance da palavra? Quais são as tonalidades de uma palavra, suas variações sutis? Na minha opinião, na nuance está aquilo que distingue a literatura das outras linguagens. Só com ela é possível capturar a genuinidade – do personagem, da cena, das palavras –e só com ela é possível expressar-se literariamente. É a nuance que empresta ao texto sua carga de vida, porque a vida, mesmo que a gente não perceba (a nuance é sutil como uma mancha de esgoto na calçada), a vida acontece mesmo é na nuance.

Pelo que, afinal, a gente se apaixona? Não é nem pela inteligência, nem pelo caráter e nem pela beleza de uma pessoa. Mas é pelo jeito como ela gaguejou na hora de pedir a sobremesa. É aí que mora o busílis da paixão. A pessoa, inclusive, pode ser canalha, mas eu não resisto àquele jeito de ela soltar a fumaça do cigarro. A memória, da mesma forma, é despertada pelos pequenos lances inesperados, uma Madeleine no chá, um cego mascando chicletes.

Pensar seriamente sobre usar “de” ou “do”, sobre colocar artigos antes dos substantivos, se é preciso realmente usar dois ou três adjetivos para alguns substantivos, se é preciso mesmo usar tantos substantivos abstratos. Se a sua personagem tira o pijama por cima ou se se dá ao trabalho de desabotoar e se ela tem a bunda empinada de tanto tentar encolher a barriga. É aí que está a vida da personagem e do texto. É no cacoete e, principalmente, no erro.

A nuance é a palavra deslocada, desloucada e errada. Usada em outro contexto, como Clarice, quando diz “ângulo quente”. E a gente: ãhn? É tipo o mictório do Duchamp ou a desterritorialização do Deleuze. Deslocar a palavra de seu uso habitual. Desloucar os sentidos:

“O avestruz é uma girafa. Só o que tem é que é um passarinho”

Mudar as regências, pesquisar etimologias, preposições, conjunções, estudar a gramática para saber reutilizá-la, propor-se a bagunçar a cabeça do leitor para que ele, como dizia o Rosa, tropece nas palavras e, assim, as desautomatize e passe a prestar atenção nelas. Quem diz e como diz o que se diz ou quem cala e como cala o que se cala.

A literatura é feita de ditos tanto quanto de não ditos. Diria que metade, metade. E o não-dito, aquele que está contido e subentendido no dito, é a nuance. É como se fosse a tonalidade da palavra. Por isso, quem enrola, quem enfeita, quem super estiliza, perde profundidade, porque perde nuance.

Em “A Preparação do Romance”, no volume I, Roland Barthes escreve um capítulo inteiro sobre a Nuance. Nuance, de acordo com ele, vem de nuer, ou sombrear. To shade, em inglês, daí a ideia de tonalidade cromática. Porque o tom varia conforme os efeitos de luz e sombra. A nuance literária é o sombreamento, aquela parte do texto que fica à sombra, espiando o texto literal, espiando o fio dos acontecimentos. Personagens secundários, objetos esquecidos, manias e idiossincrasias, cacoetes linguísticos, lapsos, palavras casuais: ficam todos espionando o texto pelo buraco da fechadura.

De repente, vem uma leitora esperta e espia de volta. Ah lá ela!, ela diz. Aquela palavra. E a palavra olha pra cara dela e pergunta, calma e em voz baixa: “trouxeste a chave?”

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Read the original on noemijaffe.substack.com

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