Fiquei pensando, outro dia, se existem palavras isentas de “eu". Se digo “cachorro", por exemplo, já estou pensando na Samba. Se digo “Rua Augusta", lembro das lojas Modélia e de uma blusa que comprei lá, com a gola chique caída pra frente. O que eu posso dizer que seja livre de mim? Pensei em “tatu". Lá em São Sebastião do Paraíso, o senhor Homero, plantador de café e especialista em cigarras, disse que o veneno contra a praga das cigarras nas folhas do café estava matando os tatus, embaixo da terra. Eu queria tanto ser especialista em cigarras. Melhor do que ser escritora e ter que obedecer às palavras. Queria saber por que as cigarras morrem quando encontram sua parceira. Queria saber se é verdade que elas cantam até morrer, como diz o poema do Bashô, que eu já considerei que poderia ser meu epitáfio: “A cigarra……, cantou-se toda". Mas depois achei que, na verdade, um epitáfio desses seria mais ridículo do que bonito. E afinal, também não terá sido verdade e não tem nada mais ridículo do que mentir num epitáfio. Enfim, a palavra tatu também não dá certo. Ela está cheia de “eu". Já pensou, eu pensei, os tatus morrendo lá embaixo, que horror que deve ter sido isso. Um genocídio de tatus. Agora imaginem isso em escala planetária. Milhões e milhões de tatus mortos sob os nossos pés. A outra palavra em que pensei foi “balaústre". Realmente, eu nem sei bem o que é balaústre. Imagino que seja um lugar da casa, algo que seja basculante, palavra que adoro, mas não sei usar. Acabo de ver que balaústre é uma pequena coluna usada como parapeito de varandas. E são “abaulados", que é bem parecido com “basculante". Eu adoraria escrever sobre um “balaústre abaulado e basculante". Mas para isso eu teria que conhecer arquitetura e engenharia. Ou inventaria uma personagem que coubesse numa varanda guardada por um “balaústre abaulado e basculante". Seria uma espiã francesa entre os alemães e estaria num prédio chique de Berlim, em 1944, já no final da guerra, escutando a conversa dos oficiais através dos vidros dessa varanda. Ou uma carioca, nos anos 50, numa festa da alta sociedade, num prédio em frente à praia de Ipanema, flertando com Tom Jobim numa varanda antiga, dessas que ainda tinham um “balaústre abaulado e basculante". Falando nisso, um bom exercício seria inventar personagens a partir de espaços. Só dando uma ideia. Na verdade, o que eu queria mesmo era uma comunidade franca de escritoras e escritores, que trocassem coisas entre si. Se vocês tiverem boas ideias pra Escrevedeira, por favor, não deixem de fazê-lo. Somos pequeninos e ralamos pra fechar o mês, mas estamos aí. Querendo de verdade melhorar a vida de quem escreve e de quem lê. Em agosto completamos 8 anos e eu nem consigo acreditar. Quantas vezes pensei em desistir, mas a cada ano a gente aposta de novo. E nesse ano, outra vez, estamos apostando, porque esse país, puta merda, não tá fácil. Depois pensei na palavra “noroeste". Tenho muita dificuldade com direções. E mapa, comigo, é a mesma coisa que ler japonês em braille, como diz o Djavan. Daí que, por exemplo, estar em algum lugar e alguém dizer “direção norte", “onde é que nasce o sol?", “siga na direção noroeste", então, é o mesmo que aparecer uma assombração. Fico em desespero. Ou seja, “noroeste” não pode. Será que no hemisfério norte as pessoas sabem essas direções? Será que quando a vozinha do aplicativo diz "siga na direção sudoeste” eles sabem pra onde ir?
Sabiam que lá, no hemisfério assim chamado superior, a água da torneira gira ao contrário?
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