“Ivan Ivánovitch tem um caráter um pouco medroso. Ivan Nikíforovitch, pelo contrário, usa calças largas".
Descobri essa frase maravilhosa, que só poderia ser do maravilhoso Gogol, num livrinho não menos maravilhoso chamado “Alfabeto Russo", da argentina Marina Berri, publicado pela Fósforo e traduzido por Mariana Waquil.
“Aлогизмы", ou “alogismo", é como um crítico denominou essas construções frasais que atentam contra a lógica e que são abundantes na literatura russa. Estranhamente, no entanto, num lance mágico que só a literatura consegue capturar, essas frases alógicas ganham um sentido oculto, uma lógica antilógica própria, de tal forma que fica até parecendo mais lógica do que uma frase convencional.
Por exemplo, se fosse:
“Ivan Ivánovitch tem um caráter um pouco medroso. Ivan Nikíforovitch, pelo contrário, é corajoso como um touro."
Uma frase desgraciosamente lógica. E, pensando bem, que graça pode ter a lógica? Se ela é lógica, a única coisa que se pode dizer dela é tautológica: “é uma frase lógica". Porque a lógica, convenhamos, é a lógica, é a lógica, é a lógica.
A lógica não tem graça: não é engraçada, nem graciosa e não recebeu a graça.
Mas, se contraponho “caráter medroso” a “calças largas", contra a lógica, todo um novo horizonte de possibilidades se abre. Por exemplo, pode-se interpretar que a pessoa corajosa usa calças largas, não está preocupada com o que pode lhe acontecer, não pensa em tropeçar. Está à vontade consigo mesma. Ou posso pensar que o medroso é um ser encolhido e o corajoso é generoso. Ou ainda ficar na expectativa de uma possível explicação posterior, o que me deixa em suspenso. Ou, simplesmente, achar que não faz sentido nenhum. Nem sempre, nas histórias, as coisas fazem sentido.
Que sentido tem um caminhão de gás que toca Beethoven?
No prefácio “Aletria e Hermenêutica", do Tutameia, Guimarães Rosa faz uma lista de anedotas sem sentido, enfatizando o sentido transcendente que o não sentido tem. Uma moça carrega um guarda-chuva furado. Mas para que serve? Para quando não chover, oras! No conto “Partida do Audaz Navegante”, (o conto de nome mais bonito do mundo), a menina Brejeirinha se aproxima de uma lagoazinha e aponta: olha o jacaré lá! e o menino responde: mas você já viu jacaré estar lá? E a menina: e você já viu jacaré não estar?
Afinal, qual o sentido da literatura? Que sentido tem nos dobrarmos de rir ou de chorar por uma personagem feita de tinta no papel?
Nenhum.
É por isso que é tão bom.
Coisas legais dos últimos tempos:
O filme “Five easy pieces": Jack Nicholson num congestionamento monstro, tocando piano na carroceria de um caminhão;
O disco novo do Paulo Miklos, “Coisas da Vida". Uma coleção das canções mais inesperadas, esquecidas e maravilhosas, naquela voz que é uma flecha em disparada;
O livro “Os imortais", da Paulliny Tort, que é mesmo tudo isso o que estão dizendo. Os neanderthais vendo os cavalos desenhados na parede da caverna dos homo sapiens é uma cena pra não esquecer. E depois, como dizer, ou como contar, com palavras, um mundo sem palavras? Uma das coisas que mais me espantou foi a precisão e a variedade lexical. Palavras justas para cada processo e fenômeno da natureza, sem nenhum “belezismo” ou malabarismo narrativo. Simples sem deixar de ser complexo e complexo, ainda que com personagens sem subjetividade, já que esses personagens têm uma noção de “eu” muito diferente da nossa. E um final que é um começo. Começo do qual, talvez, estejamos próximos do fim.
Os textos de Jacob Boehme, um sapateiro do século XVII, que recebia recados de Deus. Sem formação alguma, escreveu mais de mil páginas explicando a origem do mal e do bem, questionando a Santíssima Trindade e a tradição milenar cristã da ideia de Deus. Segundo Hegel, ele foi o primeiro filósofo alemão. “O estado perfeito, o supremo bem, é brincar. Ao brincar, a vida se expressa integralmente. A vida de Deus é a brincadeira. Adão caiu quando sua brincadeira se tornou séria”
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