Eu queria ser tradutora literária só para poder traduzir a palavra maravilhosa “awe” por “oh”.
“Awe”, em inglês, é maravilhamento e terror. Se algo é horrível, diz-se “awful”, ou “cheio de horror”. Mas, se você disser, “I was in a state of awe”, quer dizer que você ficou em estado de maravilha.
“Awe”, por sua vez, é a tradução mais-que-perfeita de “thauma”, ou espanto, em grego.
Acho perfeita porque “awe” é um monossílabo que soa a uma interjeição. Aquela do emoji de boca aberta, como quando dizemos “juraaaa? Não acreditoooo!”, uma expressão que pode tanto se referir a algo genial como a algo desastroso. Gosto também dessa grafia: “a-w-e”, cuja combinação de letras em nada promete a pronúncia, criando um tipo de monstrinho gráfico com sonoridade de anjo: “Oh”. Também gosto, no português, da forma como grafamos esse “oh”, com o “h”. Poderia ser “Ó” (como em Freguesia do Ó), mas não. O “h” dá a sensação de respiração contínua, de uma voz que se projeta no espaço e que expressa a intensidade do espanto: óóóóó, como uma nota do piano ressoando.
E agora me ocorreu que, como “thauma” também quer dizer “admiração” ou “visão", a palavra “ó", grafada assim, pode ser uma ótima tradução para “thauma". “Ó lá", ou ainda “ói lá".
Tanto Platão quanto Aristóteles definiram o “thauma” como sendo a origem necessária, sine qua non, da filosofia e da ciência (que, aliás, na Grécia, eram muito próximas, como hoje deixaram de ser). Quem não se espanta, não se thaumatiza, não produz pensamento, conhecimento ou invenções. Simples assim.
Mas o “thauma”, para esses filósofos taumaturgos (criadores de maravilhas), é tanto o deslumbramento quanto o horror. O espanto, na origem, contém esses dois aspectos complementares do maravilhoso. O que não conhecemos nos provoca, quase sempre, esse sentimento duplo. E isso faz parte da viagem.
O espanto, o “awe”, o “thauma” também são a origem da poesia e da literatura. Espantar-se é semelhante a estranhar, já que o que espanta é sempre o desconhecido. Acolher o estranho, essa é a gasolina da escrita literária. Toda a legião estrangeira de pessoas, de lugares, de coisas e de palavras. Espantar-se com o caminhão de gás tocando a quinta de Beethoven, com o motorista do Uber formado em artes cênicas e que leu todo o Ibsen, com o uso da vírgula na obra do Guimarães Rosa, com a letra L bordada e descosturada na toalhinha que era da tua mãe. Mas também espantar-se com as vidas secas de homens secos, com uma fila para comprar uma bolsa da Prada que custa 80 mil reais e com um país que para sempre parece ter o corpo de um homem e a cabeça de um piá.
Maravilha e horror.
Horror e maravilha.
Mas,
um outro fera, o Gunter Anders, num dos melhores livros já escritos sobre a obra do Kafka, disse essa frase (traduzida por Modesto Carone): “o espantoso é que espantoso não espanta mais”.
E isso foi em mil novecentos e quarenta e poucos.
E agora, o que a gente diria?
Provavelmente algo assim:
“Espanto? O que é isso?
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