Poucos argumentos são mais poderosos do que a inevitabilidade. É aquele “não adianta tentar porque não vai resolver”, “não adianta mexer porque não vai mudar nada”, “não adianta reclamar porque é desse jeito mesmo”. É usado pra discutir desde escala de trabalho até rejeição ao uso de inteligência artificial e tem como intenção sempre impedir que exista sequer a esperança de fazer diferente. Afinal, se é inevitável, pra que tentar se opor? Nem vale a pena gastar energia com isso.
Mas aqui, na Nada de Errado Nisso, nós não acreditamos no conceito de inevitável, nós rimos do inexorável, nós desconhecemos a grafia correta da palavra impreterível e tivemos que consultar o Google para que ela fosse escrita nessa abertura. Tal qual o personagem Wile E. Coyote, defendemos que nenhum objetivo é inalcançável, que nenhum destino é inevitável, que é absurdo falarem que não dá pra fugir da morte e dos impostos quando Michael Jakson foi visto escondido num terreiro em Fortaleza e vivemos num país com altíssimo índice de sonegação.
E é com essa mensagem de esperança, coragem e de estímulo para que cada um siga na busca do seu Papa-Léguas pessoal, independente de quantas explosões, lesões e queixas aos produtos ACME estiverem envolvidas, que chega até suas mãos mais uma edição da nossa querida newsletter, com um leve atraso, porque esquecemos que a última sexta de abril foi semana passada, e antes de um breve hiato, porque iremos sair de férias, mas voltamos no final de junho. Bip bip.
Neste número temos Gabriel falando sobre catolicismo e política americana e João apresentando alguns projetos pessoais, além das nossas tradicionais dicas e daquele convite pra que você, nosso leitor assíduo, migre para uma assinatura paga e financie as viagens do Gabriel pela Europa e o hábito do João de comprar bonequinhos, que é profundamente malvisto por amigos e familiares. Cada um tem seu lance, vamos tentar ser tolerantes, galera.
Gabriel Trigueiro
Pier Paolo Pasolini tinha alguma razão quando afirmava que era impossível conceber uma revolução popular na Itália que não levasse em consideração, de um jeito sério e real, a população católica da sociedade.
Um dos três vértices responsáveis pela criação do maior partido de esquerda da América Latina, e um dos maiores do mundo democrático, o PT, foi a igreja católica.
Em The Conservative Intellectual Movement in America, um dos grandes lampejos de análise de George Nash foi perceber a importância dos católicos na formação do movimento conservador norte-americano, no pós-Segunda Guerra. Não lhe parecia acidental que esse fosse o contexto histórico, lá em meados dos anos 1940 e início dos anos 1950, no qual os católicos saíam das margens da sociedade e começavam a integrá-la de modo consistente, num processo de assimilação mais estável e constante. Nash dedica umas boas páginas, por exemplo, à esmiuçar a importância da Universidade de Notre Dame, uma instituição particular católica, localizada em Indiana, na irradiação de ideias conservadoras no mainstream intelectual norte-americano.
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A última de Donald Trump foi bater de frente com o Papa. Quer dizer, sei lá se foi a última, até porque a capacidade do bicho de inventar moda (as in de tentar destruir o Ocidente) parece infinita. Seja por parvoíce ou inaptidão, o repertório do sujeito me parece sempre inesgotável. Mas, assim, supondo que esse tenha sido o último absurdo du jour, vamos nos deter um cadinho nele. Até porque, para além da polêmica fácil das chamadas dos portais de notícias, o que aconteceu revela um tanto sobre o reacionarismo contemporâneo.
A primeira coisa a falar sobre trumpismo x católicos é o seguinte: esse é um embate religioso, em algum nível é um troço metafísico, claro, mas também mobiliza um dos principais temas da base do governo atual, a identidade nacional e aquilo que qualifica alguém como um “americano”, de acordo com a definição deles lá.
No início do século passado, Woodrow Wilson chamava com desdém a fração da sociedade que não era WASP de “americanos hifenizados”. Naquela época, por exemplo, “católico” era um atalho retórico para “xingar” alguém de irlandês ou de italiano: duas comunidades de imigrantes que não eram enxergadas como assimiláveis, nem tampouco como compostas por gente branca.
Conversei com meu amigo Rodrigo Levino, no início desse quiproquó todo, e ele lembrou de que nada nesse mundo se inventa do zero, e de como essa ofensiva de Donald Trump e JD Vance contra o Papa é uma versão abastardada, degradada, corrompida, mas de alguma forma intelectualmente análoga, às disputas que ocorriam entre guelfos, a ala papista da política italiana, e gibelinos, a turma pró-autoridade do imperador, lá entre os séculos XII e XIV.
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Pouca gente deve lembrar, mas há coisa de 10 anos, ou talvez um pouco mais, havia no debate público norte-americano um sujeito, com pose e status de rockstar, chamado Milo Yiannopoulos. Milo era figura de proa num segmento da direita norte-americana chamado alt-right, que hoje em dia, assim como ele, não goza de tanto prestígio, mas que foi fundamental na emergência do trumpismo, como corrente intelectual e movimento de massas, em meados de 2016. Mas o que eu queria dizer, é que o que tirou Milo dos holofotes, ou melhor, o que o colocou nos holofotes, para logo em seguida arrancá-lo, foi uma declaração dada, mezzo piada mezzo à vera, aquele registrozinho discursivo habitual de filho da puta, sobre um abuso que ele teria sofrido de um padre, ainda durante a infância.
Na época, analistas argumentaram que Milo havia atingido o tão falado “limite do humor”, e dado de cara com uma parede feita, no mínimo, de concreto armado. Quer dizer, talvez a religião católica fosse um nervo exposto no tecido social norte-americano. Mas a pergunta que fica, todavia, é: por quê?
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Em dezembro de 1960, John F. Kennedy estava em campanha quando fez um discurso para um público de pastores protestantes em Houston, sobre aquilo que chamou de “a suposta questão religiosa”. Na época, a mera ideia de haver um presidente da república católico nos EUA já era motivo de alarde e pavor. Dois meses antes de sua viagem, um pastor batista havia falado num programa de rádio que o catolicismo romano não era somente uma religião, “mas uma tirania política”. Já em Little Rock, no Arkansas, outro pastor havia dito que os EUA não deveriam entregar seu governo “a um presidente católico que poderia ser influenciado pelo Papa e pelo poder da hierarquia católica”.
Da década de 1960 até os dias de hoje, o status dos católicos mudou bruscamente nos EUA. Com muitas idas e vindas e maluquices no caminho, de outsiders se tornaram uma religião mainstream. Às vezes parece que mais do que os liberais, os Democratas, ou até mesmo os Republicanos dissidentes, a única coisa capaz de parar o trumpismo, seria uma nova Noite de São Bartolomeu.
Não que isso seja uma alternativa justa ou razoável, imagina. Longe de mim. Mas como dizia vovó: remédio pra doido, é doido e meio.
João Luis Jr.
Cinco amigos na casa dos vinte e poucos anos convivem com dilemas profissionais e pessoais na cidade do Rio de Janeiro. Raquel, uma atriz iniciante em busca de sua primeira chance na TV; José, um médico recém-formado que questiona sua vocação; Marcela, uma operadora do mercado financeiro que é obcecada por trabalho; Otávio, o irmão mais novo de Marcela recém-chegado da Europa e tentando se recuperar de um coração partido; e Getúlio, o espírito do falecido presidente Getúlio Vargas, projetado para um corpo no futuro após seu suicídio no ano de 1954, que passa o tempo todo num pijama listrando azul e branco, correndo em pânico pela casa e perguntando por Carlos Lacerda. Sempre que passa pela Rua Tonelero ele solta um grito fininho.
Um casal de classe média tenta lidar com as dificuldades de criar seus três filhos num ambiente contemporâneo, sem deixar de lado relacionamento e vida profissional. Conseguirá Márcio ser um pai presente e amoroso mesmo diante da sombra de sua relação com o próprio pai? Como Valéria irá lidar com o fato de que se sente cada vez mais sobrecarregada, tanto nas tarefas domésticas quanto em seu trabalho corporativo? Estará Pedrinho se tornando um adolescente red pill? Está Lorena preparada para viver seu primeiro amor? E por que Enzo, o filho mais novo, é na verdade Renault Twingo 1996 com uma peruca no capô e não uma criança e que barulhos esquisitos são esses que seu motor anda fazendo?
As aventuras e desventuras dos empregados de uma empresa de pequeno porte, tentando lidar com as confusões e ironias do ambiente corporativo. Temos o chefe maluco, o colega puxa-saco, o estagiário procrastinador, o subgerente workalohic, o assassino fantasiado de palhaço, o dinossauro que escapou da extinção 66 milhões de anos atrás e com o passar do tempo desenvolveu cognição muito próxima da humana, a recepcionista romântica, o novo contratado que ainda não conhece o ambiente, o técnico de TI, a forma de vida alienígena baseada em silício que pode ou não se alimentar de carne humana e se comunica apenas através de ruídos guturais que só são compreendidos por um funcionário do RH. Também temos um triângulo amoroso envolvendo a gerente da contabilidade, o segurança do prédio e uma das pernas mecânicas do cantor Roberto Carlos.
Olavo é um jovem negro e tímido do interior que aceita o convite de seus tios (brancos) para concluir os estudos na cidade grande. Como ele irá lidar com as diferenças culturais e de ritmo de vida? Seu primo Evandro vai ser seu maior amigo ou seu primeiro inimigo na nova cidade? Conseguirá ele se declarar para sua nova paixão, a colega de sala Solange? Como conciliar o encanto da nova cidade com as obrigações dos estudos? Por que todas as noites, exatamente às 03:33, o quarto de seus tios emite uma luz esverdeada e eles realizam sacrifícios animais enquanto praticam cânticos em nome do terror antigo chamado Baoht Z’uqqa-Mogg, um grande escorpião voador com cabeça de formiga? É possível realmente ser amigo de um taxista?
Após anos estudando culinária em Paris, Claudio retorna ao Brasil para o funeral de seu pai e decide assumir a churrascaria de sua família. Isso cria uma série de conflitos entre o chef e os empregados do local, não apenas porque o cardápio revolucionário que Cláudio quer implementar mudaria drasticamente a rotina e até o conceito do restaurante, mas principalmente porque a família dele nunca teve um restaurante, ele nunca foi a Paris, e na verdade ele está pelado na Ortobom do Largo do Machado gritando “ESSE NÃO É O PONTO CERTO DO MACARRÃO” para um homem de jaleco que já estava tendo um dia bem ruim e agora começou a chorar. A guarda municipal apenas observa - mas pode se envolver num triângulo amoroso com uma cliente e uma base de cama, no decorrer da série.
Compartilhe “Nada de errado nisso”, a gente nunca te pediu nada, quer dizer, a gente te pediu algumas coisas aquela vez e teve aquela outra vez também e teve aquele lance em 2019 mas pelo amor de deus, águas passadas, né
João Luis Jr.
Fazendo meu já tradicional papel de maior inimigo da IA generativa na região do Catete/Largo do Machado, começo as dicas da semana com dois artigos. Um do Cory Doctorow, jornalista e escritor americano, criador do conceito de merdificação e que explica, de maneira bem didática, porque todo mundo quer que você acredite que IA é o futuro, em quais aspectos ela pode ser e em quais ela obviamente não será. Esse outro, da Rachel Karten, fala sobre como uma parte significativa dos gestores estão usando IA para as atividades que geram alguma satisfação para seus funcionários e deixando para eles os trabalhos chatos que deveriam ser feitos por IA, criando um gostoso clima de desmotivação e pulsão de morte.
Também excelente o artigo do Noah Hawley – de séries como “Fargo” e “Alien Earth” – sobre a experiência dele num evento privado do Jeff Bezos e sobre como a ausência de qualquer sistema de consequências para pessoas super-ricas criou uma casta de seres humanos acima das leis e das convenções sociais, o que é sim tão ruim quanto parece.
Ainda nessa grande vibe de baixo-astral, temos esse artigo sobre a cinebiografia do Michael Jackson e todo o dinheiro e processo de limpeza de imagem envolvidos, que curiosamente me levou a ver de novo esse vídeo onde John Mulaney entrevista Bubbles, o macaco do finado MJ.
Gosto muito do Substack “How To Do Things With Memes” e esse artigo recente sobre brainrot, Jeffrey Epstein e Deleuze, abordando territorialização, desterritorialização e reterritorialização nos memes é uma das coisas mais interessantes que li nos últimos tempos. Assustador? Sim, mas muito interessante.
Outra ótima recomendação quer você seja fã ou não de futebol, é o documentário em 3 partes que a Netflix produziu sobre o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, que consegue ser ao mesmo tempo uma grande ode à paixão pelo esporte, com Ronaldo chorando igualmente ao falar de conquistas na Champions e de partidas do Campeonato Mineiro, e uma imensa aula de picaretagem, ao exibir o empresário do atleta, seu irmão Assis, dando declarações categóricas que são desmentidas já na imagem seguinte. Incrível e cheio de vida.
Por fim, deixo duas recomendações de filmes e uma de série. A primeira é “Devoradores de Estrelas”, o novo filme de ficção científica do Ryan Gosling que talvez ainda esteja nos cinemas e me fez chorar por conta da interação de um professor de ensino fundamental e uma pedra falante, algo que realmente não faço todo dia, mesmo porque o volume de pedras falantes com que tenho contato é bem restrito. Já a segunda é “The Ballad of Wallis Island”, um grande pequeno filme que é uma comédia e tem romance, mas não é uma comédia romântica necessariamente e que é bem sentimental mas consegue não ser meloso. Em suma, excelente e tênue linha pra se andar, mas eles andam muito bem.
Ah, e a série é “Shrinking”, que terminou sua terceira temporada no que poderia tranquilamente ser um final pra série – e era pra ser – fechando os arcos de todos os seus personagens e me deixando com saudades eternas dos dois Dereks, alguns dos melhores personagens já criados. Vai ter um quarta temporada? Sim, pois Ted Lasso é a prova de que a Apple TV não aprendeu a dizer adeus, mas se tivesse terminado agora já seria perfeito sim.
Gabriel Trigueiro
Qualquer coisa com e sobre o Jerry Saltz: sim, sim e sim.
Show da Marina Lima, no Canecão, em 1992.
David Brooks é um vacilão, mas sempre me interesso em lê-lo escrevendo sobre os conservadores.
Bob Odenkirk é um excelente entrevistado.
Dave Chappelle, apesar dos pesares, também.
É bem excelente esta série documental sobre os Raimundos. Na real é uma narrativa de conversão disfarçada de doc de rock, né. Gostei demais e me emocionou um tanto.
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