Henry Ford fundou sua montadora de carros aos 40 anos. Ana Maria Braga começou a comandar seu primeiro programa com 43. Saramago publicou seu primeiro romance de sucesso quando tinha 60. Jesus Cristo tem 2026 anos e ainda mora com o pai.
São várias as histórias de pessoas que encontraram o sucesso numa idade considerada um pouco mais avançada e servem para nos lembrar de que realmente nunca é tarde demais, seja para fundar uma empresa, escrever um romance ou apresentar variedades ao lado de um papagaio de pelúcia enquanto uma cantora pop conta que foi traída por um homem que ficou famoso na internet ao contar que morava com os pais e ganhava dinheiro investindo em criptomoedas.
Mas nós da “Nada de Errado Nisso”, que neste mês completa sua edição de número 40, estamos aqui pra lembrar que, se você quiser, pode ser tarde demais sim.
Quer mudar radicalmente sua vida em busca dos mais loucos sonhos? Tamos junto contigo. Não quer mudar sua vida em nível algum e seu sonho é manter tudo do jeitinho que tá? Vai que vai, meu guerreirinho. Quer experimentar todas as experiências na mais alta velocidade se tornando uma nômade digital poliamorosa espiã internacional? Te desejamos toda a sorte do mundo, anjo. Acredita que depois dos 35 não tem mais condição emocional nem de pedir delivery num local desconhecido pois está a uma refeição mal temperada de entrar em colapso? A gente te entende demais também, é um sentimento válido, amiga
E é com esse espírito que chegamos até a sua caixa de e-mail, nos posicionando como a única newsletter que oferece reforço positivo mas também reforço negativo aos seus leitores, porque tem hora que é disso que a gente precisa. Saia da sua zona de conforto, ou fique nela se for melhor. Corra atrás de seus sonhos, ou não, se seu sonho for não correr atrás de nada nunca mais. Largue tudo se você for de largar ou, se você não for, espere alguém largar e aí pegue o dele e carregue junto com o seu, vai que é vantagem.
Hoje Gabriel fala sobre BBB, Nouvelle Vague e hip hop, tudo no mesmo texto, porque ele é desses, enquanto João tenta categorizar alguns dos mais comuns níveis de antipatia e hostilidade nas relações humanas. Além disso temos também as nossas queridas dicas que, assim como um segurança da cantora pop Chappel Roan, entrarão na sua casa empurrando criança, derrubando coisa, fazendo idoso chorar e importunando qualquer pessoa ligada a jogadores de futebol ou ao ator Jude Law.
Por fim, renovamos aqui nosso convite pra que você, que obtém com nossa simpática newsletter momentos de alegria, diversão ou até mesmo de júbilo e regozijo, considere a possibilidade de realizar uma assinatura paga, se colocando na mesma categoria de mecenato que a família Médici, a Igreja Católica e todo mundo que coloca dinheiro no chapéu dos meninos que dançam break no metrô. Eles merecem, muita gente se tentar fazer aquilo não levanta mais.
Gabriel Trigueiro
Antes de ser negro, sou um intelectual. Aliás, me definir como negro é uma das consequências de ser um intelectual. Não gostou, me pega.
Na conversa que tivemos, de muitas coisas brilhantes que ela disse, teve uma que me marcou especialmente: “Tornei-me negra no meu quarto. Ser negra por introspecção é destino de órfã”.
Agora deixa eu dar um pequeno cavalo-de-pau retórico. Me acompanha.
Às vezes variam as interpretações sobre o marco zero da Nouvelle Vague, mas, com mais frequência do que menos, cinéfilos e historiadores do cinema consideram como o pontapé inicial do movimento o texto “Uma certa tendência do cinema francês”, escrito por François Truffaut e publicado em 1954 na Cahiers du Cinéma.
Nesse ensaio, o cineasta, na época um jovem crítico, atacou o status quo da produção audiovisual francesa. Às vezes tenho vontade de fazer algo semelhante, mas com o debate racial brasileiro.
Salvo exceções, uma aqui e outra acolá, é uma conversa de gente doida, que lembra a definição do Frank Zappa sobre a crítica de rock de sua época: “Rock journalism is people who can’t write interviewing people who can’t talk for people who can’t read”.
O hip-hop, quer dizer, o rap, e especificamente o rap brasileiro, tem uma obsessão infantil com autenticidade. É uma mistura de cacoete intelectual com fetiche estético. É um bagulho que sugere mais ou menos o seguinte: você só pode cantar/rimar sobre aquilo que viveu. Quer dizer, você é condenado a ser cronista daquilo que vive ou que, no máximo, observa a uma distância segura.
Na ortodoxia do rap, a sua capacidade imaginativa é mutilada e você é circunscrito a um presentismo eterno. É um gênero que se pauta por uma autocensura criativa, na qual o subtexto é uma variação de: street cred > licença poética.
Arte é fabulação, é fingimento. Arte, repare bem, é um negócio que tem a ver com muitas coisas, exceto com a verdade.
Às vezes a cultura é um termômetro confiável de alguma coisa que irá ocorrer somente lá na frente. Outras vezes, é o contrário: ela é consequência e sintoma de alguma coisa que a antecede. É o caso dessa obsessão maluca por autenticidade.
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Poucas coisas são mais chatas e mal interpretadas do que a ideia de “lugar de fala” e “de representatividade”. Aqui pouco importa o significado original dessas formulações, muito menos a intenção virtuosa do troço. O que importa, claro, é, e perdão o pleonasmo, a realidade fática das coisas.
Na atual edição do BBB, Babu Santana optou por uma estratégia peculiar de ataque à Ana Paula Renault: decidiu apontar que, embora defendesse pautas de esquerda, ela jamais havia estado “numa fila do SUS”. Ele, ao contrário, era “o gueto organizado”. Tá legal então.
Segundo esse raciocínio, pouco importa o mérito do argumento do seu antagonista: a validade da premissa, o encadeamento lógico até a conclusão etc. O que é relevante é saber qual foi a vivência do sujeito. Porque, no fim, é isso o que vai definir se ele tá certo ou errado. Não queremos mais debater com ninguém, queremos desmascarar hipócritas e demonstrar que o ídolo tem pés de barro. Em 2026 somos todos calvinistas.
E, nessa toada, o Iluminismo foi encontrado com três tiros na testa: numa Fiat Elba, na Av. Brasil, na altura de Guadalupe.
Então, assim, se o rigor científico e a precisão semântica de qualquer categoria vai para a proverbial casa do caralho, sempre que é cooptada por gente doida com avatar de anime, é isso que nos deveria interessar, e não um debate abstrato e teórico feito por meia dúzia de bunda mole.
A galera decidiu que alteridade é um negócio secundário. E que o paradigma iluminista é uma coisa boba, passível de ser jogado para um escanteio empoeirado. Deu no que deu, bicho: arte ruim, ciência idem.
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Susan Sontag uma vez perguntou à Indira Gandhi se, naquele momento histórico, com uma mulher ocupando a principal liderança do governo da Índia, por acaso havia ocorrido uma guinada progressista no país, com relação às questões de gênero, coisa e tal. “Claro que não. Eu sou exceção, não a regra”, escutou como resposta.
Há anos a esquerda abraçou a ideia, questionável e um ‘cadinho ingênua, de que a luta política é travada numa esfera primariamente simbólica. O corolário dessa besteira é o seguinte: minimizar a política real, atenta às condições materiais dos agentes, e focar em “representatividade”, “lugar de fala”, e sei lá mais qual papo furado algum influencer iletrado tem esperneado: com dedinho em riste, tom solene e babinha no canto da boca.
Da mesma forma que o jazz precisou passar por uma revolução (estética, mas também política) como o bebop, para que pudesse superar o swing (música para dançar e agradar branco), e se tornar enfim uma arte de vanguarda, afrocentrada e formalmente complexa, o hip-hop tem que passar por uma revolução análoga. Já deu dessa adolescência tardia, né.
É como os Slum Village diziam, há mais de 20 anos: “Fuck this rap shit, I listen to classical”.
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Reacionários católicos e demais tradicionalistas têm um ponto válido (ué, não pode?) quando rejeitam o Concílio Vaticano Segundo e defendem a volta da missa tridentina etc. De acordo com essa galera, a igreja não precisa de muitos fiéis, ela precisa de bons fiéis.
Agora em 13 de março, Kim Gordon lançou “Play Me”, seu novo álbum. É louco quando você pensa que os beats mais insanos de trap, produzidos nos últimos anos, talvez estejam no disco de uma senhora branca de 72 anos.
Aquela cena no wave, nascida na Nova Iorque dos anos 1970, continua viva e interessante, quase meio século depois.
Na moral, como é que pode essa porra?
João Luis Jr.
Birra: O nível mais básico de antipatia e inimizade, a birra é aquela situação em que você levemente desgosta de uma pessoa sem que ela tenha feito nada específico contra você. Não é uma oposição ideológica, não houve nenhum tipo de atrito ou discussão, apenas tem algo naquela pessoa que não bateu legal. Pode ser uma frase que ela disse, as coisas de que ela gosta, o jeito como ela ri, alguma coisa pequena e que, racionalmente, não justifica absolutamente nenhum tipo de indisposição da sua parte, mas a indisposição está ali.
Como grande parte das pessoas não consegue aceitar que apenas tem birra de alguém e prefere buscar alguma justificativa pra “racionalizar” o processo – “meu sexto sentido não falha”, “meu gato não gostou dela”, “não confio nesse signo” – é um dos níveis de inimizade menos reconhecidos. Não confundir com racismo, sexismo, intolerância religiosa ou preconceitos em geral, por favor.
Birra virtual: Uma variação digital da birra, consiste em antipatizar não com a manifestação real de uma pessoa, com quem você talvez até simpatize, mas sim com a persona virtual que ela apresenta, também num nível em que você não consegue exatamente justificar. Não é o cara que compartilha Nikolas Ferreira, mas sim a pessoa que criou um perfil separado pro cachorro onde faz postagens como se fosse o cachorro. Não é postagem de conteúdo de ódio, é a pessoa que está te enervando por ter apenas um tema (corrida, bebida, namoro, futebol, uma banda). Você não vai dar unfollow na pessoa, não vai responder reclamando, mas quando os stories dela aparecem você respira mais fundo, quando ela surge no feed você passa a ter argumentos ideológicos contra o uso de redes sociais.
Antipatia velada: Um estado mais avançado do desgosto, a antipatia velada é aquele contexto em que você tem um problema com uma pessoa, consegue explicar claramente a razão desse problema, mas não é um problema tão grande assim e você não faz questão de externar. É o colega de trabalho que atrasa a sua vida mas você finge simpatia, é o namorado da sua amiga que você acha meio babaquinha mas ela ama e por isso você não vai chegar criticando. Um estágio de antipatia que normalmente envolve muito subterfúgio e relativas doses de falsidade, quase sempre está a um incidente ou atrito de avançar para a próxima etapa.
Antipatia aberta: O momento em que o verniz de civilidade começa a cair e fica perceptível que você não vai muito com a cara de alguém, ainda que você não esteja ativamente em conflito com essa pessoa. Surgem pequenas ações passivo-agressivas mas ainda justificáveis, como esquecer de convidar a pessoa, realizar comentários ácidos quando ela não está e parecer mais propenso a comparecer em eventos quando ela não comparece. É aquele estágio em que você já não finge mais simpatia pelo colega de trabalho e quando sua amiga fala que brigou com o namorado você diz algo como “tem coisas nessa vida que apenas não são pra acontecer”.
Inimizade velada: O nível mais profundamente conspiratório do processo de antipatia, em que você está realmente atuando contra uma pessoa e isso está claro pra todo mundo mas jamais será declarado para o alvo da antipatia. É uma etapa de sabotagens, ataques pelas costas e possíveis indiretas, tudo ainda dentro de alguma vaga negabilidade, que é muito mais fruto de artimanhas (“eu não tenho nada contra ele, ele que além de babaca é paranoico”) do que relacionada a qualquer respeito pela outra pessoa. Um dos cenários de inimizade mais propensos para a formação de novas amizades, já que poucas coisas unem mais dois seres humanos do que um elevado nível de antipatia por outra pessoa.
Inimizade aberta: Super-Homem e Lex Luthor. Brizola e Roberto Marinho. Bicho azul de Avatar e o inimigo do bicho azul de Avatar, seja ele quem for, complicado lembrar desse filme. A situação de inimizade aberta envolve dois elementos que não se gostam, tem plena clareza de que não se gostam e estão atuando de maneira convicta um contra o outro. Não estamos falando de antipatia, não estamos falando de indiretinha ou fofoquinha de corredor. Estamos falando de hostilidade clara e aberta, pessoas que estão ativamente atuando contra o bem-estar da outra, gente que rasgou a toalha de mesa da civilidade com a faca de pão do puro ódio.
Tem uma cena em Homem-Aranha 3 em que Eddie Brock, o fotógrafo que viria a se tornar o vilão Venom, entra em uma igreja e reza pela morte de Peter Parker, a identidade secreta do Homem-Aranha. Você pode não entender a referência, mas se você não entende também o sentimento, então você não pode dizer que realmente tem inimigos nessa vida.
João Luis Jr.
Acredito que de todos os filmes envolvidos na disputa pelo Oscar desse ano, um dos menos falados foi “Blue Moon”, do Richard Linklater, que levou Ethan Hawke à sua primeira indicação ao Oscar de melhor ator – ele já havia sido indicado das vezes como ator coadjuvante e mais duas por roteiros da série “Antes do Amanhecer”. E ainda que obviamente não seja uma narrativa de premiação tão engajadora quanto Timothee Chalamet dizendo que é contra ballet, ópera, realejo e carreta furacão, a atuação de Hawke como Lorenz Hartz, um compositor da Broadway que sofre para lidar com o sucesso do novo musical de seu antigo parceiro profissional (entre outras inúmeras situações que acontecem todas na mesma noite) foi sim digna de indicações, prêmios, e não ficou pra trás de nenhum dos outros indicados. Excelente filme pra quem gosta de musicais, confusões dentro de bares ou apenas do conforto de ver que mesmo gente muito talentosa pode ser invejosa pra caramba.
Talvez o maior injustiçado dessa temporada de premiações, “No Other Choice”, do cineasta coreano Park Chan-wook foi tranquilamente um dos grandes filmes do ano, com a incrível trama do empregado de uma empresa de papel que, diante da dificuldade de encontrar um novo emprego, desenvolve um plano para matar todos os concorrentes mais qualificados que ele para a vaga. Porém, sendo ele um especialista na área de papel e não um assassino profissional, o plano enfrenta diversos obstáculos, alguns cômicos, outros trágicos, todos capazes de gerar cinema de imensa qualidade. Não sei dizer quem eu tiraria da categoria de melhor filme, mas com certeza esse aqui merecia estar lá.
Mantendo meu profundo engajamento com a categoria “minissérie de misterinho pra você assistir de casal e os dois ficarem tentando adivinhar quem é o assassino”, recomendo “His and Hers”, da Netflix. A premissa de um homicídio numa cidade pequena onde não apenas o detetive responsável pelo caso e a jornalista que está fazendo a cobertura são casados como ambos tem uma relação próxima com a vítima, começa instigante e rapidamente vai se tornando cada vez mais rocambolesca, chegando a um final que parece absurdo até você perceber que aquele não é realmente o final, ainda tem mais absurdo pela frente. Muito entretenimento, muita bagunça, Jon Bernthal perfeito como um policial muito burro e Tessa Thompson incrível como uma jornalista bem menos burra mas não necessariamente esperta também.
Por fim, acompanhei com fascínio e um leve pânico a série “Emergência Radioativa”, que dramatiza, com relativo nível de liberdade, o terrível episódio do envenenamento por césio que ocorreu em Goiás no fim dos anos 80. Muito drama humano, incontáveis pessoas tratando material radioativo como se fosse areia e vários sotaques que não me parecem exatamente goianos tornam impossível parar de assistir mas também essencial consultar fontes externas sobre o que é verdade e o que é liberdade criativa – uma criança realmente comeu um ovo cozido irradiado, tinha certeza que isso era mentira. Acima de qualquer coisa vale por frases como “UM ÔNIBUS RADIOATIVO ESTÁ À SOLTA EM GOIÂNIA” entre outras construções que eu sinceramente esperava passar a vida inteira sem ter contato.
Gabriel Trigueiro
Uma conversa do pessoal da Criterion com Alex Ross Perry, sobre VHS.
Jaime Brooks corrigiu umas besteiras ditas recentemente por Billy Corgan.
Sobre a importância de Orson Welles, Alfred Hitchcock e Douglas Sirk para a existência da Pop Art.
Nick Cave sobre o que realmente interessa.
O ecossistema literário está agonizando. Somos dinossauros à espera do meteoro. Ui.
A turma tem falado sobre esse livro aqui: Novel Competition: American Fiction and the Cultural Economy, 1965–1999. Parece bem legal.
Baita ensaio/resenha da Pitchfork, sobre um dos meus discos favoritos.
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