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Nada de Errado Nisso · Jun 26, 2026

Nada de Errado Nisso #42

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João Luis, Gabriel Trigueiro · Nada de Errado Nisso

Tem uma cena em Aladdin, sim, a animação clássica da Disney dos anos 1990, em que o gênio, dublado genialmente (no pun intended) por Robin Williams, faz uma sequência de imitações de celebridades. E daí que no rol das celebridades imitadas estão: Peter Lorre, um ator da Era de Ouro de Hollywood; Ed Sullivan, o apresentador do The Ed Sullivan Show, um dos programas mais famosos da TV norte-americana, mas que foi transmitido entre o final da década de 1940 e o início dos anos 1970; Groucho Marx, o comediante dos anos 1930 e 1940 e William Buckley Jr., o intelectual público responsável pela criação do movimento conservador, no pós-Segunda Guerra Mundial. Agora pense por um momento que todas essas referências foram julgadas apropriadas para um filme infantil da década de noventa.

Hoje é bem possível, na verdade é quase certo, que qualquer menção a eventos ocorridos há uma década já seriam considerados herméticos demais, obscuros demais, e teriam sido prontamente desencorajados pela produção do filme.

O que aconteceu com a cultura, de lá pra cá?

***

Olha, estivemos fora por um tempinho, na nossa pausa para a hidratação, mas cá estamos: bitching, gatekeeping e sei lá mais qual termo em inglês que a internet gosta. Aqui não somos a Cazé TV: não temos dindim do Tigrinho, até porque, né, somos contra esse negócio. Somos contrários à grana e à influência das bets, mas a favor, não se engane, do seu suado dinheiro de assinante, queridos leitores. Então, assim, já sabe: considere uma assinatura paga, né. Mal não faz.

Na edição de hoje João Luis dá ideias de cinebiografias musicais e Gabriel fala sobre um livro de entrevistas de Marcel Duchamp. Rumo ao hexa, jogador caro.

João Luis Jr.

“Me Leva” – O filme seria dividido em três capítulos, cada um com 40 minutos, focado em um momento marcante da carreira do cantor Latino. O primeiro seria em 1998, quando ele foi sequestrado, espancado, mantido em cativeiro sem comer ou beber por 19 horas e aí os caras perceberam que tinham se confundido e sequestrado ele por engano, queriam outra pessoa, vacilo. Pulamos então para 2002, logo após Kelly Key terminar o namoro de quatro anos com Latino, quando ele, demonstrando ter muitos sentimentos e pouco conhecimento sobre criogenia, tenta se trancar num freezer horizontal pra fazer com que o tempo passasse mais rápido. Por fim, saltamos para 2018, quando o macaco Twelves foge da casa de Latino na Barra da Tijuca e é atropelado, infelizmente falecendo. A ideia é usar esses três momentos para apresentar uma visão complexa de todas as camadas que compõe o artista: um romântico, um azarado, um fã de bichinho com roupinha. Tudo isso antes dele virar bolsonarista, claro.

“Ô menino deixa disso quero te conhecer” – Uma cinebiografia de Felipe Dylon centrada no período de oito dias, em 2009, em que o cantor, após fazer dreadlocks, teria sido internado pela própria mãe em uma clínica psiquiátrica da Barra da Tijuca, por razões que foram descritas por Dylon como “falta de potássio e ferro no sangue”. Uma espécie de “Um Estranho no Ninho” da zona oeste carioca, seria um retrato dessa semana perdida na vida do astro teen dos baixos anos 2000, em que ele foi parar em uma clínica para resolver algo que aparentemente um comprimido de Centrum resolveria.

“REC:2004” – Um longa-metragem narrando, com toques de ficção, os eventos do dia da briga entre Chorão e Marcelo Camelo no aeroporto de Recife, em 2004, contado pela perspectiva de um jovem segurança do local. Um dia que começou normal, com a rotina tranquila de um trabalhador local, ganha ares de conflito quando dois dos principais artistas do rock nacional do período acabam trocando socos e nosso protagonista precisa separar a briga. Com foco menos nas motivações de Chorão e Camelo e mais nos impactos da briga na rotina daqueles ao seu redor, a trama ainda tem um complicador extra: nosso personagem principal quer impressionar uma colega fã de Charlie Brown, mesmo gostando muito mais de Los Hermanos.

“Amiga da minha mulher” – Uma dramatização em tempo real do churrasco onde Seu Jorge foi diversas vezes advertido pra não se meter com a amiga da mulher dele. A esposa dele perguntando “qual é? qual é?”. O cunhado dele avisando que se ele der mole, vai “entregar”. A sogra orientando que isso “não está certo e é melhor parar”. Tudo culmina com o momento em que ele confidencia para seu sogro que “se fosse mulher feia tava tudo certo, mulher bonita mexe com meu coração” e é atacado com um espeto de maminha. Não se sabe se esse churrasco realmente aconteceu, mas ninguém pode garantir que não também.

“Fiuk” – Uma cinebiografia em duas partes, contando toda a trajetória de Fiuk, da infância aos dias atuais. O primeiro filme englobaria sua infância, ascensão profissional, com a Banda Hori e sua estreia em Malhação, passando por seus namoros com Sofia Abrahão e Manu Gavassi e sua inesquecível vitória como ator revelação no Troféu Leão Lobo 2010. O primeiro filme terminaria em 2016, quando Fiuk canta “Pai” para seu pai, Fábio Junior, no Domingão do Faustão. A segunda parte cobriria desde sua presença no BBB 21 até o momento atual, quando acabou sendo expulso do próprio filme baseado na modalidade “drift” do automobilismo e tem gravado clipes chorando no banheiro e ficado bastante chateado porque as pessoas estão fazendo piadas com isso.

Gabriel Trigueiro

Lendo dia desses Miguel Esteves Cardoso, esbarrei com uma dica que me pareceu interessante: um comentário sobre Marcel Duchamp: The Afternoon Interviews, uma coletânea de entrevistas feitas por Calvin Tomkins, sujeito que foi crítico de arte da The New Yorker ao longo de décadas, mais precisamente dos anos 1960 aos 1980, mas que faleceu em março de 2026, aos 100 anos de idade.

É um daqueles livros que, como diz o outro, se lê de uma sentada. Duchamp debate com Tomkins as imposições do mercado no mundo da arte, sobretudo os efeitos da grana no processo criativo do artista; também comenta a relação entre arte e ciência e, além disso, se alonga sobre a sua paixão pelo xadrez. Olha, o bicho habla.

As falas do artista, nessas conversas com Tomkins, são repletas de momentos de gênio. Às vezes é a frase de efeito habilidosa, talhada à mão com precisão de alfaiate experiente, o que já não é bobeirinha, nem se vê em todo canto, mas há ainda momentos de sabedoria profunda, que vão além, muito além, da mera destreza verbal.

Há uma hora em que Duchamp define o que chama de “arte retinal”: uma arte preocupada com um apelo meramente estético, visual. O que advogava, ao contrário, era aquilo que Leonardo da Vinci uma vez definiu como cosa mentale: a ideia de que a pintura, o desenho e a arte, de um modo geral, são processos intelectuais.

Voltando à ideia de “arte retinal”, a birra de Duchamp era com os Impressionistas e com o Expressionismo Abstrato. Se estivesse vivo para conhecer, certamente iria se incomodar com alguém como Wes Anderson, e o seu cinema da ascendência da estética sobre qualquer elemento filosófico ou intelectual da obra.

Lembro de Susan Sontag e de sua fala famosa em Contra a interpretação: “No lugar de hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte”. Na época o alvo de sua crítica era a noção estapafúrdia de que para compreender uma obra era necessário a leitura de, sei lá, umas 20 laudas de texto curatorial.

Seu argumento era a favor de uma experiência estética sensorial, em detrimento daquilo que soava como o artificialismo da mediação intelectual entre obra e audiência. A hermenêutica, nesse sentido aí empregado por ela, é tratada quase como a exegese de um texto cristão. Um dispositivo solene e careta a ser evitado, trocando em miúdos.

Não se engane, não é que Duchamp não se importasse com a estética, nem tampouco que Sontag não ligasse para obras experimentais ou “difíceis”. Os argumentos de ambos dizem respeito mais à escala e proporção da coisa, do que a questões de mérito e substância, você compreende?

O enfado com a pintura a óleo e o uso de telas, por exemplo, foi um dos motores para que Duchamp começasse a experimentar com outros formatos e acabasse revolucionando a arte contemporânea.

Aliás, se você achou corajoso quando o Radiohead entrou em estúdio para gravar o Kid A, e, de uma banda com 3 guitarras na formação, tenha se tornado um grupo que misturava elementos de free jazz, krautrock e música eletrônica à moda dos artistas da Warp Records, bem, você tem a obrigação de agradecer, em primeiro lugar, à revolução liderada pelo francês, no início do século passado.

Como Duchamp afirma, em um momento lá da conversa com Tomkins, “A tradição é a prisão na qual vivemos”. Sua trajetória como artista foi dedicada a escapar dessa prisão. Não à toa ele dizia, para quem quisesse ouvir, que havia conscientemente “desaprendido a desenhar”.

Ao longo da entrevista compreendemos que sua sensibilidade, intelectual e artística, funcionava como o desdobramento de uma visão de mundo baseada em graça e ironia. Duchamp era refratário a qualquer coisa que soasse como um princípio fechado em si mesmo, ou como uma ortodoxia, ou, em outras palavras, como uma “lei”. Sempre foi avesso à própria ideia de causalidade. Deus, segundo ele, era uma “ilusão de causalidade”.

Da mesma forma que aprendemos, naquele documentário dirigido pelo Nelson Pereira dos Santos, que Sérgio Buarque de Hollanda, além de ter sido um dos principais intelectuais públicos brasileiros do século 20, também gostava de fumar maconha e de ler gibis da Luluzinha, em Marcel Duchamp: The Afternoon Interviews temos contato com um dos maiores artistas do século passado, claro, mas também com um sujeito fundamentalmente engraçado, idiossincrático, contraditório e genial.

Compartilhe “Nada de errado nisso”, a gente nunca te pediu nada, quer dizer, a gente te pediu algumas coisas aquela vez e teve aquela outra vez também e teve aquele lance em 2019 mas pelo amor de deus, águas passadas, né

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João Luis Jr.

Nunca tinha lido nada do Jordan Crane e, graças a mais uma recomendação da newsletter do Érico Assis, fui emocionalmente atropelado por “Resta Um”, uma HQ sobre afeto, medos e perda dentro da qual existe uma outra trama sobre afeto, medos e perda. Belissimamente ilustrada e profundamente angustiante, “Resta Um” é uma dessas histórias em quadrinhos que realmente usam de maneira criativa as possibilidades que o meio oferece, pra ter um resultado que acredito que não seria possível em nenhuma outra mídia. Em termos artísticos, claro, porque se o resultado for “o João meio que chorou”, aí realmente quase qualquer mídia consegue.

Falando em outras mídias, destaco aqui a série “Bait”, de Riz Ahmed, que parece ser sobre um ator de ascendência paquistanesa tentando ganhar o papel de James Bond mas acaba sendo sobre muitas outras coisas, que vão desde insegurança, se sentir confortável com sua própria etnia e conversar com uma cabeça de porco que tem a voz de um dos atores da franquia cinematográfica X-Men. Obviamente algumas pessoas vão se identificar mais com algumas coisas e menos com outras.

Quando Nicolas Cage disse que seu personagem em “Spider-Noir” seria “70% Humprey Bogart e 30% Pernalonga” obviamente pareceu ser apenas uma dessas coisas que o Nicolas Cage diria sobre um personagem dele. Mas a verdade é que o homem descreveu à perfeição o que é o protagonista dessa adaptação que transporta o mito do Homem-Aranha para uma Nova York durante a Grande Depressão. Temos a lógica das HQs, com criaturas superpoderosas trocando porradinhas na rua, mas tudo isso inserido dentro de um ambiente noir de femmes fatales, chefões do crime e capangas sem nada a perder. E Cage absolutamente perfeito e tendo espaço pra ser tanto Bogart como Pernalonga, dependendo da cena. Parabéns aos envolvidos.

Ainda não cheguei ao fim da temporada mas já estou profundamente cativado pela série “DTF Saint Louis”, muito por conta da grande atuação de David Harbour – além de Jason Bateman e da eterna Linda Cardellini. Mas deixo aqui como alerta esse print da conversa que tive com meu amigo Gabriel Trigueiro

Dois grandes pequenos filmes que vi nesse período foram The Christophers”, do Steven Soderbergh, com Ian McKellen e Michaela Coel, uma história sobre falsificação de obras de arte que é menos um thriller e mais uma análise do poder da arte e das conexões humanas; e “Nirvanna the Band the Show the Movie”, que só posso classificar como um falso documentário de comédia experimental sobre viagem no tempo, mas que num certo grau acaba abordando os mesmos temas.

Por fim indico esse interessante artigo da Northeastern University’s School of Journalism sobre como o capital privado e as grandes corporações estão matando o jornalismo local e com isso matando também a democracia como nós conhecemos e, claro, não estaria cumprindo meu papel de católico inimigo da IA se não sugerisse a todos a leitura da “Magnifica Humanitas” a encíclica do Papa Leão XIV que é menos contra tecnologia e mais contra tecnocracia e a tendência de instrumentalizar a existência humana como ferramenta de geração de lucro e mensurar nosso direito de viver de acordo com nossa capacidade de produzir. Não estou aqui dizendo que a Igreja Católica não tenha cometido inúmeros vacilos - por favor não fale comigo sobre a “Cruzada das Crianças” - mas dessa vez o Papa canetou mesmo.

Gabriel Trigueiro

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