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Nada de Errado Nisso · Feb 27, 2026

Nada de Errado Nisso #39

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Gabriel Trigueiro, João Luis · Nada de Errado Nisso

Um dos prints mais importantes da internet brasileira é aquele onde o usuário Pedro Henrique, nos comentários de uma notícia do portal Globo.com, afirma que comunistas “não gostam de trabalhar”, sendo alguns minutos depois interpelado pelo usuário Gustavo Scarponi, que pergunta se ele, Pedro Henrique, gosta de trabalhar então. A resposta? “Também não gosto não”.

Uma interação que diz muito sobre a internet, o brasileiro e até mesmo sobre a imagem do comunismo no nosso imaginário, mas que acima de tudo nos lembra que, no geral, ninguém gosta de trabalhar. Então se alguém está usando todas as ferramentas possíveis e imagináveis para trabalhar menos, não se pode negar que é algo profundamente compreensível. Mas e se essa pessoa está usando ferramentas para trabalhar menos enquanto o trabalho dela é um artigo sobre como você precisa trabalhar mais? Bem aí, meus amigos, estamos diante do famoso “Paradoxo de Pedro Henrique” (patente ainda pendente de registro).

Um exemplo disso é o artigo produzido em defesa da escala 6x1 por uma das mais fascinantes vozes do liberalismo de internet no Brasil, a empresária Natalia Beauty, que assumidamente usa IA para produzir seus conteúdos. Nele ela pontua que o brasileiro, que já trabalha mais horas que o japonês, o argentino e o americano, precisa trabalhar mais horas ainda, atingindo talvez o mesmo volume de certos países onde a organização trabalhista está um pouco mais pertinho do feudalismo ou da semiescravidão. Mas isso os outros brasileiros, claro, não ela.

Mas estamos aqui propondo uma análise das contradições entre a promessa de automatização como alívio para o trabalhador e a realidade da automação enquanto aprimoramento das mesmas dinâmicas exploratórias num cenário de maior cobrança por produtividade? Não estamos. Batemos na porta da sua casa para falar do absurdo que é um colunista usar IA para produzir um texto ou mesmo da dinâmica da IA enquanto “solucionadora de demandas” que transforma atividades intelectuais ou de expressão pessoal em meras demandas a serem solucionadas e agora tem gente usando o ChatGPT pra responder mensagem do Tinder? Jamais, aqui ninguém nem usa Tinder, amigo. Aqui o amor já venceu.

Qual o objetivo disso tudo então? Apenas lembrar que já é sexta-feira e, com a graça de deus, daqui a pouco acaba a semana de trabalho. E se você trabalha em escala 6x1 saiba que, ao contrário de Natalia Beauty, nós estamos do seu lado e trouxemos mais uma edição fresquinha da Nada de Errado Nisso, pra você ler enquanto sua chefe não está prestando atenção.

Gabriel fala um pouco sobre a candidatura de Dizzy Gillespie à presidência dos EUA em 1964 e João oferece opiniões contundentes sobre bilionários e IA. Já nas dicas temos Jesse Jackson, monarquia britânica e muito cinema noir, entre outros ilustres convidados.

Gostou? Se animou? Brilhou o olho? Despertamos os seus instintos mais primitivos? Considere então fazer uma assinatura paga da “Nada de Errado Nisso”, uma newsletter sem uso de inteligência artificial, feita de maneira absolutamente orgânica e artesanal, com artigos enrolados a mão por monges beneditinos que só têm acesso a duas horas de internet discada por dia e mesmo assim só conteúdos supervisionados por um adulto.

Como eu imagino todo mundo que conversa com o ChatGpt

João Luis Jr.

Uma consequência meio óbvia de sermos seres humanos é a tendência de abordarmos tudo ao nosso redor por uma perspectiva, vamos dizer assim, profundamente humana, mesmo se essa coisa não for tão humana assim.

Bola de fogo no céu? Não deve ser só uma bola de fogo, deve ser um cara e, se eu trato melhor as pessoas quando elas me dão presentes, eu vou dar presentes pra bola de fogo que é um cara e aí ela vai me ajudar. A planta não cresce? Quando eu me sinto sozinho eu fico mal, então a planta não deve estar crescendo porque se sente mal, daí vou conversar com a planta e ela vai se sentir melhor e vai crescer. Ao invés de dar play no streaming, eu controlo ele por voz? Voz é um traço humano, então agora o play é humano também e eu vou dizer “play, por favor” porque não quero ser grosseiro com o play.

E ainda que essa lógica tenha a mais bizarras e agressivas exceções, já que a mesma pessoa pode humanizar o macaquinho Punch e desumanizar uma criança do país vizinho ou tratar um boneco articulado como se fosse uma pessoa e objetificar uma mulher como se ela fosse uma batata, é possível dizer que é uma reação bastante humana acabar vendo o outro, seja ele quem ou o que for, como uma criatura semelhante a você, ao menos em termos gerais.

O que seria, obviamente positivo, por questões básicas de empatia. Se você entende que seu vizinho é como você, não vai fazer com ele o que não gostaria que fizessem contigo. Se acredita que o bichinho sente dor da mesma forma que nós, não vai praticar maus-tratos com animais. Se você entende que a atendente de telemarketing tem a mesma ingerência sobre as políticas da empresa dela que você tem sobre as da sua, sabe que gritar com ela adianta tanto quanto adiantaria alguém gritar com você.

Único problema com isso é que, é claro, tem criaturas e entidades que não são como a gente. Não sentem como você sente, não operam sob as regras que você opera, não tem em relação a você absolutamente nenhum grau de empatia, não importa o quanto você tenha em relação a eles. Você pode tentar, pode procurar, pode fazer oferendas e sacrifícios, mas não existem ali traços comunais que permitam qualquer humanização.

Um exemplo são os bilionários. Afinal, como qualquer um que acompanhou ao menos por alto o vazamento dos emails do Jeffrey Epstein, as pessoas mais ricas do planeta podem sim ter os mesmos traços biológicos que nós, serem concebidas da mesma maneira, mas obviamente não operam na mesma lógica ou compreendem a realidade do mesmo jeito.

Primeiro porque se as leis são uma construção social que é aplicada de acordo com a sua posição no seu grupo - o mesmo ato pode levar uma pessoa a passar a vida na prisão e outra a ouvir “ai ai ai, hein? Se fizer de novo seu pai vai brigar!” - ficou claro que a partir de um certo nível de riqueza essas leis apenas não existem mais. Quer vender pessoas? Pode vender. Quer fabricar drogas em casa? Manda ver. Quer abusar de crianças? Apenas nos diga quais crianças.

E depois porque, como também ficou patente nessa história, para pessoas acima de um certo nível de riqueza e sem absolutamente nenhum espectro de punição, a ideia de empatia por outro ser humano basicamente não existe. Se pra você um bilionário é um ideal, algo aspiracional, pro bilionário você é, no melhor cenário, mão de obra descartável e, no pior, absolutamente nada. “Nossa, olha como o Jeff Bezos é bem sucedido”, bem, pra ele você é como uma bateria pra ser usada até acabar, se possível sem que você vá ao banheiro no processo. “Caramba, queria ser o Bill Gates”, então, sinto te dizer, mas tudo que o Bill Gates quer de você é o acesso aos menores de idade da sua família.

Então se você tem uma categoria de pessoas que existe absolutamente acima da lei, que não te vê como um ser humano e não respeita nem mesmo o mais sagrado tabu biológico e social que nós temos, que é o do bem estar das crianças, eles são mesmo pessoas? Ou eles são basicamente um corpo opressor “alienígena” que se disfarça sob um verniz de “você também consegue” ou “se estamos aqui é porque merecemos”?

Outro exemplo, obviamente é a IA. O maior golpe de violação de direitos autorais e roubo de propriedade intelectual já realizado, a chamada inteligência artificial generativa é mais uma dessas entidades que se disfarçam sob um verniz de humanidade enquanto atuam no sentido oposto, desumanizando cada vez mais a produção intelectual, artística e até mesmo as interações humanas.

Podemos falar sobre como os ChatGPTS e Geminis da vida vieram para resolver problemas que você antes resolvia sozinho, porém algumas pessoas - que você sabe quem são - precisam ficar ricos construindo datacenter e agora você precisa de ajuda pra resolver. Ou até mesmo sobre como a IA vai reduzir nossas capacidades de pesquisa e criação até que conseguir resolver alguma coisa sem usar IA vai se tornar um sinal distintivo de uma elite que te convenceu que a IA era essencial.

Ou talvez sobre como, num mundo onde as pessoas estão cada vez mais distantes e ansiosas por conexão, essas IAs estão sendo humanizadas a ponto de substituir de maneira um tanto quanto perigosa o que seriam as interações reais. Um quarto dos jovens acreditam que inteligências artificiais poderão substituir parceiros de verdade, começam a pipocar matérias sobre relacionamentos de longo prazo entre pessoas e aplicativos, em algumas terríveis entrevistas com homens que namoram IAs surgem respostas como “faço isso porque mulheres de verdade têm liberdade demais”. Não parece bom e pode ter certeza, é pior do que parece.

Obviamente desumanizar não é a solução. No mundo em que vivemos se faz mais importante do que nunca valorizar os traços que nos fazem humanos. Mas também é importante reconhecer de maneira correta onde esses traços estão e quem realmente os manifesta. Afinal, se o Sam Altman pode vir a público justificar o gasto de energia de uma IA dizendo que ela é mais eficiente do que um ser humano, talvez valha a pena debater se o Sam Altman pode mesmo ser considerado um ser humano depois de dizer algo assim.

Gabriel Trigueiro

Your politics ought to be a groovier thing

So get a good president who’s willing to swing

Talvez eu esteja me repetindo se eu disser que a política norte-americana tem alguma coisa de circense, e que esse é um aspecto que é radicalizado a cada dia que passa. A ideia é de H.L. Mencken, alguém que nos anos 1920 tinha que lidar com a sua própria cota de fundamentalistas cristãos, populistas, e a ação, dispersiva e revolucionária, de novas tecnologias de comunicação.

Os EUA são a confluência, mais ou menos perfeita, de um experimento republicano com um monstrengo midiático.

O republicanismo norte-americano é aquele negócio meio maluco, que foi desembocar no liberalismo deles lá, mas que no final é o bom e velho republicanismo com outro nome, e descontados os particularismos históricos e todo o yadda yadda que tu sabe e já conhece de outros carnavais. E se não sabe, vale consultar Liberal Beginnings: Making a Republic for the Moderns, do Ira Katznelson e Andreas Kalyvas, de 2008. De nada.

O monstrengo midiático, por sua vez, é o que gerou um governo cesarista como o de Franklin D. Roosevelt, mas também o de Donald Trump. Não estou querendo sugerir que exista alguma coisa como uma lei de inevitabilidade histórica, longe de mim, não sou maluco. Mas o caldo cultural é esse. A laranja nunca cai muito longe da laranjeira. Vai por mim.

Voltando à vaca fria, a segunda metade do século 20 gerou alguns momentos políticos inusitados nos EUA. Foi quando alguns intelectuais, de direita (William Buckley Jr.) e esquerda (Norman Mailer), saíram do campo das ideias e passaram à política mais tradicional.

Ambos doidinhos que mencionei se candidataram à prefeitura de Nova York: Buckley em 1965 e Mailer em 1969. Aliás, já que hoje eu tou recomendando leituras, quando você estiver de bobeira, dê uma olhadela em Buckley and Mailer - The Difficult Friendship That Shaped the Sixties, do Kevin M. Schultz. Demorou? Demorou.

O que eu quero falar hoje, no entanto, é sobre o ano de 1964: momento no qual Dizzy Gillespie, o famoso trompetista que revolucionou o jazz, concorreu, não à prefeitura de Nova York, mas à presidência dos EUA, como candidato independente.

Sua plataforma abarcava os direitos civis e demais tópicos sociais da época. Seu coordenador de campanha era ninguém menos do que Ralph J. Gleason, o famoso crítico de jazz, que anos mais tarde se tornaria um dos principais editores e fundadores da Rolling Stone.

Segundo Gillespie, seu gabinete seria composto por gente como: Duke Ellington (Secretário de Estado); Miles Davis (Diretor da CIA); Louis Armstrong (Secretário de Agricultura, uma referência moleca ao fato de que Armstrong cultivava a sua própria maconha); Malcolm X (Procurador Geral) e por aí vai.

Sua plataforma de campanha era: acesso universal à saúde, combate à crise de habitação nos EUA e a retirada das tropas norte-americanas do Vietnã.

Seus apoiadores fundaram, só de onda, só de pilha, a John Birks Society, batizada com os dois primeiros nomes de Gillespie, e um trocadilho, de cair o cu da bunda, com a John Birch Society: a organização de extrema-direita que gravitava próxima à candidatura de Barry Goldwater, conservador filiado ao Partido Republicano.

Dizzy Gillespie gostava de lembrar que a sua campanha não era o que hoje chamaríamos de trollagem, nem tampouco alguma espécie de performance artística. Quer dizer, talvez até houvesse, aqui e acolá, elementos dessas duas coisas, mas seu principal objetivo era o de trazer os holofotes para questões políticas e sociais que considerava relevantes e urgentes.

O humor e a ironia, todavia, sempre estiveram presentes na campanha. Não era raro ouvi-lo afirmar que, se fosse eleito, promoveria um governo de conciliação e até daria embaixadas para governadores segregacionistas, como Ross Barnett (Mississippi) e George Wallace (Alabama). A localização das embaixadas? Congo e Vietnã, respectivamente.

Uma vez, numa entrevista à Down Beat, perguntaram se Dizzy tinha algum medo de que o jazz estivesse renunciando ao humor e à diversão, à medida que se transformava em “música de protesto”. Sua resposta, no mesmo fôlego, foi: “O jazz tem que abraçar toda a variedade de experiências humanas: a raiva, o riso, a diversão e a tristeza.”

Meses após ter começado a campanha, Gillespie desistiu da candidatura, e a corrida presidencial de 1964 terminou, para o bem e para o mal, com a vitória do Democrata Lyndon B. Johnson.

Como uma vez disseram, tão logo você cave além da superfície de qualquer piada ou material cômico, é possível que você encontre como matéria-prima uma combinação de fúria e tristeza. A campanha de Dizzy Gillespie, no entanto, era exceção a essa regra. No fundo de tudo, bem lá no fundo, havia apenas paixão, consciência política e um senso de justiça à toda prova.

***

Há uma frase, em geral atribuída a Jorge Luís Borges, de que eu gosto muito: “É preciso ser um conservador na cultura, para poder ser um anarquista em todo o resto”.

Assim, grandes chances dela ser apócrifa. Mas isso não vem ao caso. Porque 1) ela expressa uma verdade quase metafísica e 2) ela traduz, de forma plausível e coerente, a dicção e a filosofia do sujeito.

É uma frase que explica e sintetiza, por exemplo, a trajetória de alguém como Ney Matogrosso: que na forma e na estética era tratado pelos milicos filistinos como um revolucionário, mas que culturalmente sempre foi um conservador e um formalista. Vide o amor e a reverência por cantoras da Era do Rádio como: Ângela Maria, Dalva de Oliveira e Aracy de Almeida.

Além disso, repare direitinho, repare na moralzinha, a suposta frase de Borges é a melhor tradução do que foi essa campanha maluca de Gillespie. Que antecedeu em algumas décadas, convém lembrar, a ilusão desastrada de vanguarda política do Kanye. Mas esse é um assunto para outra hora.

Enfim, deixa os garoto brincar.

Compartilhe “Nada de errado nisso”, a gente nunca te pediu nada, quer dizer, a gente te pediu algumas coisas aquela vez e teve aquela outra vez também e teve aquele lance em 2019 mas pelo amor de deus, águas passadas, né

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Gabriel Trigueiro

João Luis Jr.

Não sei dizer quando exatamente começou a minha paixão pelo gênero noir ou pelas histórias de detetive, ainda que tenha quase certeza de que tem algo a ver com o fato de que a responsável pela biblioteca do SESC de Juiz de Fora deixava que crianças de 9 anos saíssem de lá com qualquer livro que quisessem, fosse sítio do Pica Pau Amarelo, fosse história de robô do Isaac Asimov, fossem contos do Raymond Chandler cujas capas realmente pareciam legais.

Disso pros filmes do mesmo gênero foi um pulo – ainda que um pulo demorado porque minha mãe não me deixava, aos 12 anos, assistir Supercine - e diante do fato de que o CCBB não é tanto um lugar quanto um estado de espírito, seguem aqui cinco recomendações para você que deseja realizar seu próprio festival de cinema noir em casa, usando apenas serviços de streaming, uma aplicativo de torrent e 50 maços de cigarro para entrar no clima.

Double Indemnity (“Pacto de Sangue” no PT-BR) é um clássico de 1944 dirigido por Billy Wilder onde um corretor de seguros, interpretado por Fred MacMurray é convencido (sem muito esforço) por uma femme fatale, interpretada pela incrível Barbara Stanwick a dar o golpe perfeito em sua seguradora. Porém o crime não é tão perfeito assim, como a gente descobre já na primeira cena, quando o corretor está confessando tudo com uma bala no peito, deixando o mistério de como diabos tudo isso aconteceu.

The Long Goodbye (“O perigoso Adeus”, PT-BR) de 1973 é uma excelente adaptação de Robert Altman para o livro homônimo de Raymond Chandler e apresenta um incrível Philip Marlowe interpretado por Elliot Gould que é basicamente a versão detetive particular do meme do “isnupi todo fudido acabado”. Tentando ajudar um amigo em apuros, Marlowe se vê envolvido numa trama de homicídios, dívidas de jogo, dinheiro desaparecido, mini-gaitas e gatos que só aceitam comer ração de uma marca. É ao mesmo tempo um dos melhores filmes do gênero, uma das melhores paródias do gênero e um dos melhores filmes da sua época, independente do gênero.

Brick (“A ponta de um crime”, sabe deus por que em PT-BR), de 2005, é o primeiro filme escrito e dirigido por Rian Johnson, mais famoso atualmente pela franquia “Knives Out”. Protagonizado por um ultrajovem Joseph Gordon-Levitt, a história basicamente transpõe para o ambiente da “high school” americana uma trama noir, com o esquisito antissocial da sala sendo o detetive, o nerd um informante, o diretor o chefe de polícia e por aí vai. Grandes atuações, roteiro pra lá de fechado, muito pouco recurso mas imensa criatividade. Só a cena em que o protagonista está sendo torturado pelo capanga do chefão porém o chefão ainda mora com a mãe e na cena seguinte ela está servindo lanche pra eles na cozinha, já vale o filme.

The Nice Guys (“Dois Caras Legais”, PT-BR), é o mais divertido que um neo-noir pode ser e foi lançado em 2016, com direção e roteiro do Shane Black. Russel Crowe e Ryan Gosling interpretam, respectivamente, um assassino de aluguel e um detetive particular, envolvidos no mesmo caso, e o filme funciona muito por conta da química e do carisma envolvido dos dois, além do ótimo roteiro. Se o fato disso não ter virado uma franquia é pra mim mais um claro indício de que Deus nos abandonou? Sim, eu diria que é sim.

Under the Silver Lake (“Sob o Lago Prateado”, PT-BR), escrito e dirigido por David Robert Mitchell, é uma espécie de neo-noir surrealista que subverte muitas das regras do gênero ao levar para uma trama de detetive a máxima de que tudo pode ser um sinal se você for maluco o bastante pra ver sinais em tudo. Protagonizado pro Andrew Garfield como um desempregado de 30 anos obcecado pelo desaparecimento de uma vizinha, o filme é uma viagem que envolve fanzines, revistas com dicas de jogo de videogame, uma língua secreta dos moradores de rua e poligamia em abrigos nucleares e chega ao final oferecendo mais perguntas do que respostas, porém fazendo isso de maneira extremamente instigante.

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