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Nada de Errado Nisso · Jan 30, 2026

Nada de Errado Nisso #38

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Gabriel Trigueiro, João Luis · Nada de Errado Nisso

É mais ou menos como aquele meme em que o Capitão Haddock está reclamando da semana e o Tintim fala que ainda é quarta-feira, só que estamos falando do ano e ainda nem terminou janeiro direito.

No noticiário os Estados Unidos querem começar a terceira guerra mundial, a imigração tá tentando extraditar até cidadão americano, a Venezuela tomou um golpe de estado e isso resultou em aumento de venda de agasalho da Nike, o prêmio Nobel da Paz virou uma atividade do programa “Passa ou Repassa”.

Nas ruas está nascendo o calor 4.0, com breves intervalos para surgir a chuva 3.0 e o vento 2.0, institutos de pesquisa suspeitos tentam fazer parecer que Ratinho Junior é um candidato sério a presidência – talvez com Xaropinho Neto como vice gritando “raaaaapaaazzz” – e no grupo da sua família apareceu um vídeo onde Lula e Bolsonaro se beijam de língua e você está precisando explicar que é IA. Seu tio não quer acreditar.

E é nesses momentos de tensão emocional e estiramento da realidade, quando o trabalhador começa a pensar coisas como “vale a pena viver num mundo em que alguém votaria em Ronaldo Caiado pra presente?” e tem pessoas no ponto de ônibus discutindo o valor estratégico da OTAN, que se faz ainda mais necessário esse grande bálsamo, essa linda panaceia, esse Torsilax pros músculos da alma chamado “carnaval”.

Porque, em dados momentos históricos, se alienar deixa de ser uma opção e se torna quase um imperativo moral. É preciso por alguns dias ignorar o desenrolar dos fatos históricos. É necessária uma semaninha sem acompanhar o noticiário. É terapêutico só lembrar de geopolítica se for pra olhar nos olhos de alguém e dizer “no trumpismo do amor você já anexou a Groenlândia do meu coração, quer ir pra minha casa fazer uma ocupação pra lá de estratégica?”.

E é nesse espírito já pré-carnavalesco que a edição de janeiro da “Nada de Errado Nisso” chega até suas mãos, esteja você esperando pacientemente por um feriado tranquilo ou já coberto de glitter tomando aquela Skol Beats sabor “Skol Beats” que você jamais seria capaz de ingerir em qualquer outra época do ano. Essa é pra você.

Temos Gabriel falando sobre a necessidade da esquerda de pegar um pouco mais pesado (no debate e por que não, na porrada) e João abordando essa curiosa nostalgia com 2016, além das nossas tradicionais dicas, que você pode consumir nos intervalos dos blocos ou guardar para aquele possível detox de final de fevereiro, porque aqui a gente trabalha pra você poder relaxar.

Por fim, fica aqui o nosso já tradicional convite pra você viver sim a experiência ímpar de se tornar um dos nossos queridos assinantes premium ou comprar um exemplar do primeiro livro do nosso querido Gabriel. Gostou tanto de um texto do Gabes que quer financiar uma bebida pra ele? Viu uma foto do João e acredita que ele precisa de shorts maiores? É com a sua contribuição que todas essas situações, e várias outras, podem ser resolvidas.

Gabriel Trigueiro

Tem aquela história de que, não lembro agora se na Marcha sobre Washington ou sob outra circunstância, Norman Mailer caminhava com a galera da Nova Esquerda, no meio de algum protesto, e se perguntava se, acaso a porrada estancasse, alguém teria o preparo físico e a disposição de ajudá-lo na trocação com a polícia.

É evidente que não haveria ninguém, é claro. Ou você acha que o Noam Chomsky moleque aguentava muito na série de braço?

Volta e meia viraliza aquela foto do Pasolini socando um fascista, em frente a um cinema na Quattro Fontane, no início dos anos 1960. A imagem é muito bonita, tem tanto movimento, tanta vida e energia cinética, quanto uma bailarina de Degas.

Antes que George Orwell se tornasse o autor de Politics and the English Language, ele havia escutado de sua editora que sua habilidade na escrita era o equivalente ao de “uma vaca com um mosquete”. Não só ele melhorou um ‘cadinho, de lá pra cá, como se tornou mais do que um intelectual, um homem de ação: foi lutar na Guerra Civil Espanhola.

O que quero ilustrar aqui é que houve uma época, há papo de umas quatro décadas ou até menos, que havia uma tradição intelectual de esquerda de gente que se preocupava com ideias de um jeito tão sério, tão à vera, que estava disposta a se arriscar fisicamente, se o que estivesse em jogo fossem valores democráticos e humanitários.

É claro que você pode desqualificar tudo isso que eu tou falando como mera macho bullshit, e eu sei que você tem alguma razão em pensar assim, mas fica aqui comigo que eu vou tentar ilustrar melhor o meu ponto.

Quando Irving Kristol, um dos conservadores norte-americanos mais célebres do século passado, morreu, em 2009, lembro de um obituário pontuando o fato de que ele entrava nos debates “como quem entrava numa briga de rua”.

Essa foi uma frase que me marcou quando li, porque observava ecos desse negócio na internet brasileira, sobretudo nos debates em que se metia um sujeito em particular. O nome dele? Glad you asked, magrão. Olavo de Carvalho.

Olavo tinha uma onda de tratar qualquer interlocutor como um sofista que deveria ser desmascarado, mais do que refutado. Havia um aspecto teatral de humilhação intelectual pública, real ou presumida, que foi muito importante na arregimentação do fandom olavete.

O bagulho tinha menos a ver com heurística, e muito mais com medição de pau. É por isso, e não por outro motivo, que a base demográfica desse movimento sempre foi desproporcionalmente jovem e masculina.

Meu amigo João Paulo Cuenca volta e meia observa o absurdo que é a direita brasileira ter, na expressão dele, “o monopólio da ofensa”. Olavo fez escola e hoje o que se passa por debate público no Brasil poderia ocorrer dentro dos limites de um octógono. Não é tanto heurística, repito, é muito mais mata-leão e armlock.

É claro que não foi ele quem inaugurou esse modelo de debate como MMA. Se você reparar bem, já era o que Agripino Grieco fazia, nas primeiras décadas do século passado, ao chamar Coelho Neto de “o nada em dezenas de tomos”.

Mas o que eu quero afirmar aqui é o seguinte: foi Olavo de Carvalho o responsável por dar uma roupagem contemporânea a esse tipo de insulto, elevado a método de debate.

Se você reparar legal, se você reparar direitinho, o que ele fez foi beber numa tradição brasileira de polemismo que é anterior inclusive a Grieco. Dá para pensar pelo menos nos ataques de Sílvio Romero a Machado de Assis.

À essa tradição, somou uma sanha calvinista típica dos norte-americanos — gente como H.L. Mencken, que apesar de ateu argumentava como um calvinista, e, décadas depois, William Buckley Jr. e a turma da Nova Direita, do pós-Segunda Guerra. Galera de religiões variadas, mas que no fim pensava, falava e soava como um bando de calvinistas indignados.

Desde que o fascismo retornou com força, ele encontrou a esquerda, ou as forças progressistas como um todo, se você preferir o eufemismo, sem os anticorpos adequados para lidar com a virulência retórica da direita. Como tradição intelectual e movimento político estamos envelhecidos, acomodados e, para usar um neologismo aqui que me parece adequado: emburguesados.

A esquerda tem que largar de mão, e pra ontem, os bons modos, a etiqueta e o protocolo. O apego excessivo à liturgia, a essa altura do campeonato, não nos serve de muita coisa. A direita populista que emergiu na última década é um fenômeno niilista, contracultural e, por analogia, goste você ou não, punk.

Fogo se combate com fogo e não com oboé e fagote numa orquestra empoeirada.

Compartilhe “Nada de errado nisso”, a gente nunca te pediu nada, quer dizer, a gente te pediu algumas coisas aquela vez e teve aquela outra vez também e teve aquele lance em 2019 mas pelo amor de deus, águas passadas, né

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João Luis Jr.

Uma coisa meio óbvia sobre a nostalgia é o fato de que ela é bem menos sobre uma época e bem mais sobre o sujeito. Seu avô não sente falta dos anos 60, ele sente falta de ter vinte anos; seu tio não tem lembranças positivas da ditadura militar, ele se sente ameaçado pelo mundo de hoje; as músicas não eram melhores antigamente, você é que sente falta de como era a vida antes de ter passado por dois divórcios e um diagnóstico meio sério de gordura no fígado.

A nostalgia é então um processo profundamente humano, em que você avalia um período não pelo que ele foi, mas pelas associações emocionais que você criou com ele, de maneira quase sempre um tanto quanto idealizada. E que por isso acaba tendo um aspecto bastante geracional, com os chamados “ciclos de 20 anos”, em que a cada duas décadas as coisas voltam à moda, seja porque uma geração descobriu as coisas da geração anterior, seja porque outra geração bateu na crise da meia idade e começou a idealizar o que fazia aos 20 anos.

Por isso essa recente nostalgia de 2016 é ao mesmo tempo absolutamente normal, porque as pessoas realmente tem a tendência a idealizar o passado, mas um tanto quanto peculiar, porque elas costumam demorar um pouquinho mais pra fazer isso. Mas duas razões podem explicar porque essa nostalgia de dez anos atrás acabou chegando dez anos adiantada.

Uma é o poder das redes sociais como ferramentas de curadoria e armazenamento das nossas memórias. Se antes a memória, de maneira física, existia em grande parte em álbuns de fotografia, que posteriormente se tornaram arquivos dispersos em HDs e pen drives, com as redes sociais elas não apenas existem de maneira online como realizam um esforço concentrado e frequente para atirar lembranças em você. “Quer ver onde você estava um ano atrás?”. “Quer ver seus stories de 2020?”. “Quer ver suas fotos de 2016?”.

E essas memórias virtuais, como tudo que aparece numa rede social, é obviamente fruto de uma curadoria que você mesmo fez quando elas foram postadas. E por mais que existam sim pessoas inocentes o bastante pra acreditar em espontaneidade e sinceridade em rede social ou assustadoras o bastante pra tirar uma foto chorando e postar, numa média o que se vê é um grande compilado de momentos felizes, de instantes de alegria, dos pequenos e grande sucessos de cada um. Mesmo se você, como eu, se arrepende de 99,8% das suas ações no triênio 2016/17/18, a tendência é que o seu feed do Instagram faça sim a época parecer até bem legal.

Mas outro fator que não pode ser subestimado diante do surto de nostalgia por um passado tão recente é o fato de que, bem, existe sim uma forte sensação de que o mundo vem se complicando num ritmo cada vez mais acelerado.

Vivemos numa época em que uma pandemia já emenda em cinco conflitos armados, tudo isso diante da ascensão do fascismo em nível global e domingo a noite no Fantástico os caras estão mostrando como a OTAN se prepara pra uma possível 3ª Guerra Mundial e a sensação é que não se prepara tão bem assim não, tende a ficar bem complicada a situação.

Então num mundo onde, em termos geopolíticos, a sensação é que aconteceu tanta coisa na quinta-feira que você já chegou na sexta idealizando o mundo mais simples em que vivia na quarta, é compreensível que as pessoas já estejam sentindo saudades de 2016, mesmo sendo o ano em que Donald Trump foi eleito presidente pela primeira vez, a Guerra na Síria estava moendo e o Brasil teve um surto de Zika vírus.

Então talvez, mais do que se assustar com o ritmo acelerado que o processo nostálgico vem tomando, talvez o melhor seja a gente já se preparar pra que essa nostalgia comece a vir cada vez mais rápido e ali pela altura de julho as pessoas já estejam dizendo coisas como “2024 é que foi bom, né?”, “lembra daquela cadeirada do Datena no Pablo Marçal? Tempos de uma política mais simples” ou “Divertidamente 2, aquilo que era cinema, não se fazem mais filmes de verdade como aquele”. Pode acontecer, saiba.

João Luis Jr.

Ainda que boa parte das pessoas que efetivamente votam no Oscar não tenham esse nível de comprometimento, sigo focado em assistir o máximo possível de filmes indicados e nesta última semana vi mais três. “Valor sentimental” é uma clássica história de pai que saiu pra comprar um maço de cigarros e nunca mais voltou, porém o maço de cigarros é uma carreira como diretor de cinema, e o pai não apenas volta como traz um roteiro com ele. Belo filme e um elenco tão bom que praticamente todo mundo que tem alguma fala foi indicado ao Oscar.

Também assisti o iraniano “Foi apenas um acidente”, um incrível exercício em equilíbrio tonal, já que consegue te fazer sorrir num filme sobre vítimas de tortura em um regime totalitário. Tem uma qualidade mais teatral, que poderia incomodar em outras situações mas que nessa cabe bem pra jornada dos ex-presos políticos que estão tentando confirmar se o homem que eles raptaram é mesmo seu antigo torturador ou apenas uma pessoa aleatória que também tem uma perna mecânica.

Ainda na lista dos “oscarizaveis”, também conferi o excelente “Marty Supreme”, tranquilamente o melhor filme sobre tênis de mesa onde um homem tem seu corpo lambido por vários outros, uma pessoa leva raquetadas na bunda e um personagem declara ser um vampiro e isso não apenas não tem nada a ver com nenhuma subtrama anterior como não tem influência em nenhum evento subsequente. Timothee Chalamet decidiu iria transformar tênis de mesa num esporte de safado vagabundo e é inegável que sim, ele conseguiu.

Já um filme que por mim merecia prêmios e não recebeu é “Smashing Machine”, do Benny Safdie, com uma das melhores atuações do “The Rock” desde aquela cena em Southland Tales em que ele diz “I’m a pimp. And pimps don’t commit suicide”. A cinebiografia do ex-lutador de MMA Mark Kerr é menos relevante pelas lutas em si e mais pela jornada de um homem cujo final feliz é não vencer quando se espera que ele vença e ficar com uma pessoa que claramente faz mal pra ele e pra quem ele faz mal também.

No campo da promoção pessoal, publiquei essa semana na “Mogo não socializa”, a minha newsletter sobre HQ’s, um artigo sobre o Capitão América e como a narrativa do personagem reflete as contradições do país que ele representa, tema que também rendeu um belo artigo do Gustavo Vícola na “Soc Tum Pow”.

Falando em artigos, três que eu li recentemente e gostei muito são esse aqui sobre como a produção de conteúdo e a vida regida pelo algoritmo se tornaram uma espécie de ideologia moderna; esse aqui do Érico Assis, na “Virapágina”, sobre táticas lúdico-midiáticas de protesto; e por fim esse aqui, uma análise bem esperançosa de como talvez o hábito da leitura ainda não tenha ido totalmente pro saco, por mais que em dados momentos possa parecer que sim, o Tiktok e o ChatGPT venceram e ninguém mais consegue ler ou pesquisar por conta própria.

Gabriel Trigueiro

  • Hilton Als foi no Fashion Neurosis.

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