RSS Amplifier

Nada de Errado Nisso · Dec 19, 2025

Nada de Errado Nisso #37

0
Sign in to vote or save

Gabriel Trigueiro, João Luis · Nada de Errado Nisso

Muitas das mais arraigadas tradições de fim de ano hoje existem mais na nossa memória e nos nossos corações do que no mundo real. Quantos supermercados realmente tocam Simone e não qualquer playlist de música ambiente do Spotify? Quem ainda fica chocado por encontrar panetone pra vender em setembro? A essa altura grande parte das mães apenas separa um potinho de arroz sem passas pra não ter que ouvir reclamação e pronto, isso não é mais uma questão.

E não é só isso. A propaganda de natal da Coca-Cola hoje é feita com IA, desempregando ao menos uma família de ursos polares, enquanto a quase extinção dos amigos ocultos da firma prejudica o comércio no terceiro trimestre, com a queda brutal na venda de vale-compras e outros itens que só saem da prateleira quando alguém é obrigado a presentear uma pessoa sobre quem conhece muito pouco ou quase nada.

Isso é ruim? Não necessariamente. Isso é bom? Vai bastante de cada um. Porque para nós da “Nada de Errado Nisso” a única tradição de natal que realmente importa é a de estar próximo das pessoas queridas, e é isso que estamos fazendo neste momento, ao enviar para você a nossa edição de número 37, a última de 2025, feita com carinho de rabanada de vovó, de Chester de mãe, de cerveja que seu tio trouxe dizendo que era pra família toda mas ele já bebeu metade delas e agora está brigando com seu pai por conta de um terreno deixado pelo seu falecido avô e opa, seu primo pequeno começou a chorar, parece que ele bebeu água do vaso. Família é gostoso demais.

Nesta edição temos Gabriel falando sobre luto e decoro, João analisando a dinâmica da formação de opinião no capitalismo tardio e o papai noel das dicas descendo pela sua chaminé com o saco bem cheio, sem se importar se você mora num prédio, não tem chaminé e está tão quente que a prefeitura do Rio decretou estado de “Calor 2: O inimigo agora é outro” e já existe a previsão de em breve atingirmos o temido “Calor 3: Bangu drift”.

Por fim, fica aqui nosso já tradicional convite para que você entre em um dos nossos planos de assinatura paga, seja para você, seja para um ente querido, seja como parte de um amigo oculto da firma, já que você sabe que o Marquinhos da contabilidade vai passar o natal sozinho e um texto do Gabriel pode sim ser a diferença entre ele terminar a noite com uma sidra na mão e um sorriso no rosto ou correndo sem rumo pelado pela praia de Copacabana. Não que exista, é claro, nada de errado em correr sem rumo pelado pela praia de Copacabana. Como a gente já disse, vai bastante de cada um.

João Luis Jr.

Formar opiniões é um traço absolutamente natural da espécie humana. Vemos coisas, passamos por situações, visitamos lugares, experimentamos substâncias, e imediatamente nosso cérebro começa a formar opiniões. Essa coisa não foi tão legal, essa situação até que foi bacana, esse lugar eu só voltaria sob a mira de uma arma, essa substância até que eu gostei mas sinto que no médio prazo não vai ser bom pra mim.

O nível de convicção e embasamento dessas opiniões acaba variando bastante, é claro. Tem gente que estuda e pesquisa sobre um tema durante décadas para dizer que acha que tal coisa é assim, enquanto algumas pessoas vão ler uma chamada de notícia falsa numa rede social e formar ali convicções que vão durar a vida toda.

Mas um fator que sempre se mostrou essencial para a formação das nossas opiniões é a presença de um grupo, de uma comunidade. Você vive uma experiência, você forma uma opinião, e aí você vai transmitir primeiro essa opinião para um círculo próximo, que pode concordar ou não com ela, que pode agregar ali as experiências que eles próprios já tiveram, permitindo que você reúna a sua opinião novos fatores, diferentes pontos de vista.

Ou seja, se você tivesse ido uma vez ao Bob’s, levado um soco na cara, e concluído que não vale mais a pena ir ao Bob’s porque sempre que você vai te dão um soco na cara, conversar com pessoas próximas que já foram ao Bob’s e não tomaram soco na cara te permitiria entender que se trata de uma experiência um bocado pessoal e não do funcionamento padrão de todos os Bob’s, vivenciado por todas as pessoas.

Só que, com o tempo, aconteceram algumas mudanças um tanto quanto bruscas na maneira como a gente forma e emite as nossas opiniões.

A primeira é uma certa morte e/ou transformação dos nossos grupos e comunidades. Se antes eles eram geográficos, biológicos ou funcionais, ou seja, você interagia com quem estava perto, quem era da família ou quem você convivia por razões práticas, essas estruturas acabaram se tornando mais fracas, tanto para o bem quanto para o mal.

Hoje você não precisa limitar sua interação apenas às pessoas que estão ao seu redor (o que é ótimo) mas se você tomou um soco na cara quando foi ao Bob’s, você pode, ao invés de interagir com as centenas de pessoas ao seu redor que foram ao Bob’s sem tomar soco na cara, encontrar na internet um grupo formado apenas por gente que, antes mesmo de pedir um Double Cheese já havia sido esmurrada sem perdão, reforçando ainda mais a sua convicção pessoal sobre o antro de porradaria que se tornou essa rede de fast food.

E claro, existe a questão do imediatismo e do alcance da opinião. Se antes você tinha um atraso mínimo entre formar um pensamento e emitir esse pensamento pro mundo, além de um alcance bem limitado pras coisas que você pensava – você ia repetir suas opiniões pra sua família, importunar um colega de trabalho, testar a paciência da sua namorada – hoje em dia nós não apenas temos canais imediatos de emissão de opinião como toda uma economia de atenção baseada em recompensar as opiniões mais absurdas porque são exatamente elas que geram mais engajamento e portanto mais lucro.

O cenário então acaba ficando um pouco complexo, sendo possível opinar com o mínimo de reflexão possível, encontrar as mais absurdas câmaras de eco, e só se deparar com o contraditório quando sua opinião já está profundamente cristalizada e disposta num ambiente nada propício pro debate. Onde, obviamente, todo mundo está um bocado reativo, porque não quer assumir um erro em público, e existe uma corporação bilionária cujos lucros aumentam junto com o nível de hostilidade e absurdo do debate.

Isso sem contar, é claro, as situações que envolvem apenas canalhice corporativa (se você contar o editorial do Estadão como uma opinião), “ragebaiting” enquanto estratégia comercial (o Instagram todo dia sugerindo alguma postagem do Threads que é algo como “você acha traição seu namorado adotar uma iguana fêmea?”) ou o famoso combo de falta de bom senso com excesso de alcance (“e neste meu artigo vou explicar por que esse grupo oprimido deveria reclamar menos, já que não gosto de ficar ouvindo reclamação”).

Porque formar opiniões é um processo absolutamente humano, assim como a necessidade de externar essas opiniões também é. Mas existe algo na maneira como opiniões são cultivadas, monetizadas e transformadas em ferramentas pra radicalizar as pessoas que é profundamente antinatural e absolutamente capitalista. E não falo isso apenas porque sou um grande defensor do Bob’s e continuo indo lá mesmo depois de sim, quase ter tomado um soco na cara uma vez. Apenas vale a pena pra mim e todo mundo no grupo “vale a pena tomar um soco na cara pra ir no Bob’s” concorda comigo.

Gabriel Trigueiro

Por motivos mais ou menos óbvios, tenho pensado muito na morte. Muito mais do que gostaria, devo admitir. O negócio é que pensando na morte, você acaba pensando na vida. Numa das primeiras sessões de terapia após o falecimento da minha mãe, a minha analista me disse que a gente, as in “o Ocidente”, costuma pensar nas duas coisas, morte e vida, como pares de opostos. No entanto, quando abandonamos as simplificações e esse tipo de binarismo bobo, fica claro que ambas existem em um regime de complementaridade e até simultaneidade.

Teve uma época em que eu lia muito Nelson Rodrigues, quando a editora Agir entrou numas de relançar sua obra de não-ficção. Nelson tem um troço ambíguo que é o seguinte: ao mesmo tempo em que é o maior esteta da língua portuguesa (é maior que Machado sim, foda-se), também é uma péssima influência literária.

Se Harold Bloom estava certo, e você só consegue criar quando decide freudianamente matar o seu pai, e transcender suas influências etc., Nelson é um patriarca todo-poderoso e quase imatável. Uma vez absorvido, entra na sua corrente sanguínea e daí já é tarde demais. Você pode correr, mas não pode se esconder. Algo análogo ocorre com Dostoiévski. Não é por acaso que Nelson fosse obcecado com o russo.

Tem autores que são muito, como dizer?, autorais. E da mesma forma que um sujeito de nariz ou orelhas grandes vira presa fácil de um cartunista, já que por definição essa é uma arte que amplifica traços preexistentes que nos pareçam desproporcionais ou desarmônicos, um autor com personalidade demais, ou com uma identidade proeminente demais, é facilmente imitado, replicado e diluído.

Daí decorre que é muito fácil, extremamente fácil, haver uma saturação com o estilo do sujeito. Menos por culpa dele, e muito mais por conta da legião de imitadores que retiraram cada gotinha de vitalidade e originalidade daquilo que um dia foi fresco, mas que agora é farsesco, e tá só o pó da rabiola. Originalidade vira pastiche, e aquilo que era autoral se transforma numa farofada derivativa. O que um dia foi um traço distintivo elegante pode virar, num piscar de olhos, cacoete e maneirismo.

Por exemplo, não é que você tenha se cansado do cinema de Tarantino (embora seja justo e razoável se for esse o caso): o mais provável é que a legião de Tarantino Sub-20, isso sim, tenha lhe cansado e irritado e subtraído sua joie de vivre. Quando isso ocorre, a nossa bronca não deveria ser com quem criou o estilo, ou inventou a brincadeira, mas sim com quem a abastardou e lhe retirou a graça, para início de conversa.

Mas voltando aqui rapidão, e fechando essa digressão longuíssima sobre autoralidade e whatnot, esses dias eu tava lembrando como o Nelson lamentava, sucessivamente ao longo de dezenas de crônicas, como a “flor de obsessão” que era, o fim de uma série de protocolos e de regras tácitas no luto do brasileiro. Nelson era conservador, e como todo conservador, era apegado a liturgias, à ritualística e às formas das práticas sociais, culturais etc.

Então, meio faceiro meio a sério, lamentava, eu dizia, em seus textos, o fato de que ninguém velasse mais seus mortos no interior da própria casa da família. E resmungava que a viúva, em sua época, já não ficasse sequer uma semana de preto, em honra à memória do marido falecido. Um assombro, como pode.

***

Algumas coisas são indefensáveis: a manifestação vil e purulenta de Trump, a respeito da morte de Rob Reiner, por exemplo. Pra mim, depois desse episódio, o cabra tinha era que ser impichado, além de tomar uma surra de chinelo Rider 44, no meio da boca. No mínimo.

Mas se comento esse papo do Nelson é porque esses dias lembrei de um texto antigo, bem antigo, publicado em 2011, e lá se vão quase 15 anos, pelo Glenn Greenwald, a respeito da morte de Christopher Hitchens, um dos meus heróis intelectuais. Um herói que errava à vera, é verdade. Às vezes grosseiramente. Mas essa era uma época em que ainda não procurávamos santidade em intelectuais, nem tampouco balizas morais rígidas em artistas e gente do meio. Mas divago.

Christopher Hitchens se tornou conhecido do grande público através de sua persona como ateu militante. Isso é um troço que eu lamento, porque era o seu traço mais chato e intelectualmente opaco. Hitch era um trotskista pouco ortodoxo, tinha uma formação solidamente marxista, mas era leitor e admirador dos pais fundadores norte-americanos. Até hoje se lê com proveito seus livros sobre os dois Thomas: Jefferson e Paine. Além disso, era um crítico literário interessante e engraçado: uma mistura de Gore Vidal com George Orwell.

Mas eu falava sobre o tal texto do Glenn Greenwald, cujo título sugestivo era Christopher Hitchens and the protocol for public figure deaths, publicado originalmente na Salon. O argumento de Greenwald era o de que embora o protocolo, a regra não escrita, seja o de que tenhamos que frear nossas críticas aos mortos, sobretudo aos mortos recentes, isso só é válido quando não se trata de figuras públicas. Não é uma regra que deveria se aplicar, por exemplo, a um político ou a alguém cuja trajetória sempre foi de interesse e impacto coletivo.

Ele lembra, por exemplo, da reação da imprensa norte-americana à morte de Ronald Reagan, em 2004. Já nas primeiras horas em que o velho foi de arrasta, e finalmente abotoou o paletó de madeira, havia todo um ecossistema conservador de comunicação, irrigado com dinheiro do big business, que movimentava suas engrenagens sem pudor, a fim de criar não apenas uma hagiografia do sujeito, mas quase canonizá-lo, à moda de um santo católico. E a reboque disso, criava uma historiografia própria para o movimento, cuja narrativa estava sob o controle de seus ideólogos e intelectuais da corte.

Glenn Greenwald não gostava de Hitchens, e se incomodava sobretudo com seus últimos anos apoiando a Guerra do Iraque, falando um monte de groselha etc., e não teve qualquer constrangimento em criticar seu legado e em sentar-lhe a mão postumamente: um timing conveniente, você poderia argumentar. Mas deixa quieto.

O negócio é que esse é um texto antigo do Glenn, mas que delimita bons contornos para o debate público contemporâneo. Pense, por exemplo, no papelão que Ezra Klein passou, não tem muito tempo, puxando o saco de alguém como Charlie Kirk, ou pelo menos minimizando o fato de que o sujeito fosse um supremacista abjeto.

Embora o próprio Glenn tenha abusado do direito de ser cretino, e de falar e escrever asneiras nos últimos anos, há sabedoria, há muita sabedoria, neste ensaio. E quase nos lembramos da época em que o bicho foi um intelectual interessante e combativo.

Uma das coisas boas de se ter uma memória legal, ou de compreender que tudo, absolutamente tudo, deve ser sempre examinado sob perspectiva histórica meticulosa, é que você não paga o mico, e tampouco perde tempo, com tentativas vãs de reinventar a roda.

No fim das contas, é isso: sou um vitoriano de esquerda. Ou, se preferir, um socialista de monóculo. E la nave va: boas festas e obrigado pela companhia. Em janeiro tem mais.

Compartilhe “Nada de errado nisso”, a gente nunca te pediu nada, quer dizer, a gente te pediu algumas coisas aquela vez e teve aquela outra vez também e teve aquele lance em 2019 mas pelo amor de deus, águas passadas, né

Share

Gabriel Trigueiro

  • Tá ligada em The Gardener’s Son? É um telefilme de 1977, da PBS, roteirizado pelo Cormac McCarthy.

João Luis Jr.

Com a recente perda de Rob Reiner, um dos mais importantes diretores norte-americanos contemporâneos – que muita gente provavelmente conhece como o senhorzinho simpático que dá conselhos empresariais em “The Bear” ou o pai da Jess em “New Girl” - é uma ótima hora pra revisitar algumas de suas principais obras, como “Harry e Sally”, tranquilamente uma das maiores comédias românticas de todos os tempos, ou “Questão de Honra”, absolutamente o maior filme já feito onde Jack Nicholson te pergunta se você quer a verdade e aí grita com você porque você não daria conta da verdade. Mas minha sugestão pessoal, à frente até de “Princess Bride” e “Stand By Me”, é “This is Spinal Tap”, a comédia que basicamente inventa o gênero de falso documentário e talvez uma das únicas coisas envolvendo rock que me causam alegria na vida adulta. Vale assistir.

Outra coisa divertida para esse fim de ano é “Good Fortune”, o filme escrito e dirigido pelo Aziz Ansari e que passou absolutamente abaixo de todos os radares. Uma comédia de espírito um tanto quanto oitentista em que um anjo faz com que um homem muito rico e um muito pobre troquem de lugar para ensinar ao pobre que dinheiro não traz felicidade e no processo acaba descobrindo que dinheiro traz felicidade sim, muito mais fácil ser feliz com dinheiro. Keanu Reeves no papel de anjo da guarda é uma escolha muito inspirada e todo o resto do elenco também funciona muito bem.

Em termos de televisão estou muito animado com “Pluribus”, a nova série do Vince Gilligan sobre um planeta Terra vítima de uma “epidemia de felicidade” e uma mulher (Rhea Seehorn, incrível no papel) imune a isso, o que apenas a deixa mais triste e irritada. Já tivemos granadas, convulsões e muito beijo na boca, tudo bastante promissor. Também assisti a primeira temporada de “Tremembé”, a série sobre presos famosos que vi com certa hesitação porque tenho zero paciência pra true crime, mas rapidamente se mostrou ser muito pouco “true”, operando mais como a resposta para a pergunta “e se todo os personagens da série Melrose tivessem cometido crimes hediondos?”. Existe um debate muito válido sobre ela humanizar ou explorar seus personagens, sobre o quanto de veracidade ela apresenta, mas ninguém pode negar o trabalho que ela está fazendo pela representatividade dos homens que usam calcinha.

Dois perfis de Instagram que me trouxeram alívio e alegria nessa reta final de ano foram as tirinhas do Stephen Collins, principalmente essas com temas natalinos e Mascots Minute Silence, um perfil dedicado a registrar como os mascotes de times ficam durante o minuto de silêncio antes das partidas, reforçando o quão fascinante e absurdo é uma pessoa fantasiada de garça tentando passar o máximo de seriedade possível enquanto todos lamentam a passagem de um torcedor uma pessoa famosa da comunidade. Conteúdo de nicho, eu sei, mas cativa.

No posts

Read the original on nadadeerradonisso.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.