Existe sempre algo de presunçoso e carente na necessidade agressiva de ser lembrado pelos outros. A pessoa que fica tapando o olho de alguém e perguntando “sabe quem é?”, o cidadão que te ligava no telefone fixo e ficava “não tá reconhecendo minha voz?”, esses piques de ficar comentando “e nem convida” em foto de galera ao invés de você mesmo ir lá e convidar o pessoal. Aqui a gente tenta não ser defensivo, aqui a gente tá em contato com os nossos sentimentos, aqui estamos sempre dispostos a dar o primeiro passo.
Então realmente, somos nós, a Nada de Errado Nisso está de volta após um hiato de quase três meses e sim, sentimos falta de vocês e claro, precisamos combinar alguma coisa, colocar a conversa em dia, soubemos que mudou de casa e está de namorado novo, me conta tudo, amiga, e essa pele, tá luminosa, hein? Alegria te ver assim! Você sempre mereceu mais e todo mundo sabia.
Por aqui estamos de volta aos poucos após alguns momentos complicados pra gente e outros momentos complicados pra nossa sociedade e pro Rio de Janeiro, e por uma gama de razões teremos uma periodicidade menor, com edições mensais até o começo do ano que vem, quando esperamos retomar o esquema quinzenal que sempre tivemos. Porque sim, nós sabemos que as mudanças são parte da vida, mas também sabemos a importância de não perder os traços que fizeram a gente começar essa relação em primeiro lugar. Estamos aqui, estamos abertos, estamos ouvindo.
Nesta edição Gabriel oferece o texto mais bonito que a nossa newsletter já teve, sobre a mãe dele, e João fala sobre SPC (o grupo de pagode, não o Serviço de Proteção ao Crédito). Também estão de volta as dicas, que ficaram represadas durante dois meses, então se prepare pra uma enxurrada de dicas. Vai ser muita dica, não espere pouca dica e depois não reclame que a gente não avisou.
Finalizando, fica aqui o nosso agradecimento a todos os assinantes que não largaram nossa mão nesse período de hiato e um convite a todos que não assinam ainda a aproveitarem essa deixa para realizarem uma assinatura paga, pois garantimos que vai ser legal, vai ser bacana. Como diria o sub-nick de uma colega minha de colégio que claramente estava dando indireta para um outro colega meu de colégio: “faça acontecer, que eu faço valer a pena”. Não sei se deu certo pra ela, faz bastante tempo e naquela época o nosso foco era mais ler gibi do que vida pessoal.
João Luis Jr.
Primeira faixa do quinto álbum de estúdio do grupo “Só Pra Contrariar”, também batizado de “Só pra Contrariar”, a canção “Interfone” é de composição de Altay Veloso e foi o segundo single do disco, lançado em 1999 e certificado como “diamante” por ter vendido mais de um milhão de cópias. Sim, um milhão de cópias de uma mídia física. Eram outros tempos, só quem viveu sabe, complicado até te explicar.
Mas o que torna “Interfone” uma canção muito representativa do movimento do pagode noventista é, além do seu sucesso, a sua superposição de camadas, sendo uma canção que pode ser lida pela narrativa romântica superficial, pela sua capacidade de resumir sua época e até mesmo pela mais sutil representação das políticas raciais brasileiras, que você pode também encontrar na sua letra.
A camada inicial, obviamente, fala sobre um casal em conflito, cada um em sua casa, remoendo uma briga que ocorreu em virtude da teimosia de ambas as partes. A solução, segundo o eu-lírico, é que eles durmam juntos, deixando assim de lado qualquer desentendimento. Porém entre esse projeto e sua realização se encontra um antagonista: o porteiro, que é novo no trabalho e, respeitando os protocolos de segurança do prédio, não quer permitir que o eu-lírico apenas entre no edifício, sendo necessária a confirmação da moradora para que ele possa subir.
Já na camada seguinte, nós temos a canção como cápsula do tempo, referente a um período muito específico da sociedade brasileira, o ano de 1998, quando o disco foi produzido.
O protagonista, após reler revistas antigas, sinalizando um período de preponderância da mídia física, menciona a última entrevista da noite no “Programa Jô Soares Onze e Meia”, talk show apresentado no SBT por Jô Soares até 1999, citando então o programa “Perfil”, apresentado por Otávio Mesquita, na época também do SBT, até chegar ao “Flash” de Amaury Junior, na TV Bandeirantes, famoso pelo uso intenso e quase alucinatório da canção “Keep It Coming Love”, do conjunto KC and the Sunshine Band. Por fim ele chega até o fim do “Intercine”, uma antiga faixa de cinema da TV Globo, onde o telespectador podia votar em qual seria o próximo filme exibido.
Uma construção interessante porque não apenas sinaliza o tédio e a carência do personagem, que acompanhou até a madrugada a programação televisiva, passando pelos diversos canais - começa pelo SBT, segue para a Bandeirantes, vai até a TV Globo - como constrói um retrato deste período, citando seus principais programas da madrugada e mostrando o cenário desesperador de uma época sem a acessibilidade da internet de alta velocidade ou a proliferação dos canais fechados, onde a televisão aberta representava todas as opções disponíveis numa madrugada solitária.
Por fim, de maneira mais sutil, é possível também imaginar que exista um elemento racial na canção, composta por um homem negro e interpretada por outro, sobre um cidadão que quer entrar no prédio para ver sua amada e precisa lidar com a suspeita e desconfiança de um porteiro.
Seja pelo contexto temporal (um período de ascensão financeira para muitos grupos periféricos) o histórico pessoal do intérprete (em 1998 Alexandre Pires namorava a também cantora Simony, uma mulher branca), ou pelo quão comum é, para uma pessoa preta, lidar com desconfiança e suspeita de porteiros, seguranças e policiais nos mais diversos ambientes. Fosse o eu-lírico branco, não teria ele possivelmente entrado com mais facilidade no prédio? Fica aí a questão. Talvez tenha sido ao falar sobre isso com George W. Bush que Alexandre Pires chorou. Não tem como garantir nem que sim e nem que não.
[Esse texto seria a segunda edição de uma newsletter sobre pagode, intitulada “As Marcas de Batom no Casaco de Vison”, que comecei a escrever mas desisti pois tive medo que nossa sociedade estivesse a apenas 100 ou 200 newsletters do colapso total]
Gabriel Trigueiro
Recomendar “vulnerabilidade” é igual a recomendar “skincare”, ou uma “rotina de wellness”: revela mais sobre quem aconselha e pouco, ou quase nada, sobre quem escuta. Todavia, lá vou eu.
Sou um homem adulto negro, ou lightskin, como diriam os americanos. Sou vaidoso, carente e melodramático. E parte do que sou deriva do fato de que fui criado como um garoto branco pela minha mãe, mas como um garoto negro pelo meu pai.
James Baldwin e Lima Barreto só me caíram no colo depois, bem depois, de Jane Austen e Evelyn Waugh. A essa altura, o estrago já havia sido feito. Se minha mãe jamais economizou afeto, meu pai me criou num regime de aspereza emocional e rigor espartano.
Se o tempo todo ela me indicava que o céu era o limite, como suponho que em geral seja a criação de uma criança branca de classe média, meu pai sabia, apenas sabia, que uma educação baseada no binômio indulgência e liberdade, no Brasil, pelo menos no Brasil, pode ser fatal, se você não for branco.
Essa sensibilidade cindida, essa “consciência dupla”, se você preferir, é o meu calcanhar de Aquiles, mas também o meu superpoder. Demorou até que eu entendesse essa porra, entretanto. Mas essa é uma daquelas coisas que uma vez que você enxerga, não consegue mais desver. Cada um tem a estrada de Damasco que merece.
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Em 2024 minha mãe foi diagnosticada com uma doença autoimune chamada neuropatia periférica. E daí que esse é um negócio que pode se manifestar de diversas formas.
A variação que ela teve afetava sua mobilidade: membros superiores e inferiores. Então, mais ou menos da noite pro dia, a pessoa mais ativa, altiva e inquieta de Vila Isabel se viu numa cadeira de rodas.
Como disse antes, isso foi ano passado. O neurologista aparentemente havia acertado o tratamento, à base de corticóide: um troço agressivo, com um monte de consequências não-intencionais, de médio e longo prazo.
A neuropatia periférica, pelo menos no caso da minha mãe, funcionava da seguinte forma: alternava entre fases de crise e remissão, num loop macabro e aborrecido.
Para qualquer ansioso, essa oscilação entre melhora e piora é tão ruim ou pior do que a própria deterioração da saúde. O resumo é que, com menos de um mês de tratamento, minha mãe voltou a andar. “Crise e remissão”, se lembra?
Em julho deste ano, todavia, ela perdeu novamente a sensibilidade nas pernas e nas mãos. A diferença, dessa vez, é que a remissão teimou em não vir. Doía assisti-la acamada, mas ao mesmo tempo tão cheia de vida. Mesmo baqueada e emocionalmente exaurida, ainda era a Valerinha de sempre: uma Iris Apfel tijucana, de fralda geriátrica e batom vermelho.
Em agosto ela morreu, de complicações advindas da doença, por um lado, mas também dos efeitos da administração de corticóide, ao longo de todos esses meses. Segundo o atestado de óbito, a causa mortis foi uma mistura de “tromboembolismo pulmonar interligado, choque cardiogênico e insuficiência respiratória aguda”. Fancy words.
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Desde que ela se foi, tenho pensado num monte de coisas. Tem esse gibi, I Kill Giants, de Joe Kelly e J.M. Ken Niimura, sobre uma menina obcecada por Dungeon & Dragons, que subitamente tem que lidar com problemas maiores do que ela consegue dar conta. É uma história com um dos finais mais bonitos e tristes que já vi.
Também lembrei daquela cena em Era uma vez em Tóquio, um almoço ou jantar, sei lá, a primeira refeição em família, após a morte da mãe.
Yasujirō Ozu filma daquele jeito seco dele, sem solavancos ou melodrama. A ausência é um troço poderoso que jamais pode ser disfarçado. Antes de saber como era perder a mãe, Ozu já havia me ensinado.
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Nos últimos meses eu e ela havíamos criado um ritual: assistíamos, cada um em sua casa, Vale Tudo. Jamais chamávamos a novela pelo nome, mas apenas de “Heleninha”. Tipo assim, “Assistiu Heleninha ontem, filho?”.
Minha mãe adorava a atuação da Paolla Oliveira — uma atriz com mais recursos dramáticos do que em geral se supõe. Ela tinha aquela qualidade de, sei lá, James Gandolfini em Sopranos: transmitia, na mesma cena, num mesmo diálogo, vulnerabilidade e força. Não é pra qualquer um.
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O caso é que fui uma criança gordinha, com bronquite crônica e absolutamente ligada à mãe. Quase um Robert E. Howard suburbano. De modo que, a cada vez que ela saía de casa, eu ficava em prantos, com a certeza de que a havia perdido para sempre.
Medo da morte e do abandono, duas coisas que iriam martelar a minha cabeça ao longo das décadas. Agora que ela morreu, esse medo finalmente acabou, ou pelo menos foi sucedido por outros. Nunca é fácil.
Foi Chesterton quem falou que “Contos de fada não dizem às crianças que dragões existem. Crianças já sabem que dragões existem. Contos de fada dizem às crianças que dragões podem ser derrotados.”
Bom, eu sigo daqui, mãezinha: lutando contra gigantes e dragões e com muita saudade de você.
Compartilhe “Nada de errado nisso”, a gente nunca te pediu nada, quer dizer, a gente te pediu algumas coisas aquela vez e teve aquela outra vez também e teve aquele lance em 2019 mas pelo amor de deus, águas passadas, né
Gabriel Trigueiro
Jason Diamond escreveu sobre a estreia da revista Popeye na América.
A Pitchfork meteu uma daquelas resenhas grandonas de domingo, sobre o Getz/Gilberto.
Isso aqui bateu fundo no meu cuore.
Apenas John Updike e John Cheever no The Dick Cavett Show.
Toma um pouco de História Antiga, bem no meio da sua fuça.
Este disco.
Este debate do Ta-Nehisi Coates com o Ezra Klein me deu uma agonia da porra, mas estou contente de ter assistido até o final.
Zadie Smith escreveu um baita ensaio sobre a arte de escrever ensaios.
Ler Rachel Syme sobre a Era de Ouro de Hollywood é meu Top 10 atividades favoritas.
Testando os conhecimentos musicais de David Byrne.
Gosto de acompanhar as coisas que esse broder do Toro y Moi faz e fala.
Estás ligada no conceito de “poptimism”? Pois então.
Estou guardando o que há de bom em mim para lhe dar quando você chegar
João Luis Jr.
Acredito já ter mencionado aqui que a “Vira Página”, a newsletter do Érico Assis, é uma das minhas favoritas na internet, tendo apenas um único defeito, que é o de me apresentar quadrinhos numa velocidade extremamente superior à que eu poderia expandir as dimensões do meu apartamento e da minha renda mensal pra acomodar todos os quadrinhos que ela me deixa com vontade de comprar. Um exemplo disso foi “Algumas de suas verdades ainda moram em mim”, do Alexandre S. Lourenço, que eu descobri através da Vira Página e se tornou, com grande facilidade, um dos meus quadrinhos favoritos de todos os tempos, não só pelas experimentações e beleza da arte, mas pela temática que me pegou profundamente (deus sabe que eu não deveria ler coisas sobre relação tumultuada com pai). Você pode ler a entrevista do Érico com o Alexandre aqui e recomendo demais que você compre a HQ, ainda que talvez vá chorar, mas aí provavelmente é mais culpa do seu pai, vale conversar na terapia.
Eu havia abandonado a franquia “Aliens”, mental e emocionalmente, no exato momento do filme “Prometheus” em que um xenobiólogo, um homem especializado em lidar com criaturas desconhecidas de planetas desconhecidos, vê uma cobra alienígena e decide colocar o dedo na boca dela, coisa que eu, que não sou um biólogo terrestre, sei que não deveria fazer com uma cobra terrestre. Porém a chegada no universo de “Alien” de Noah Hawley, o homem responsável por duas de minhas séries favoritas, “Fargo” e “Legion”, me fez dar uma nova chance, começando por “Alien: Romulus”, que nem tem nada a ver com o Hawley, mas é um excelente filme e chegando até “Alien: Earth” a nova série que está disponível no Disney+ e traz de novo pra essa universo temas como ganância corporativa, inteligência artificial e até mesmo o que torna um ser humano realmente humano. Ainda estou no meio da temporada, mas até agora zero dedos colocados em boca de cobra. Promissor.
Um dos filmes mais visualmente bonitos que vi nos últimos tempos, “O Jóquei” é o candidato oficial da Argentina pro Oscar desse ano e conta com uma atuação incrível de Nahuel Pérez Biscayart como um jóquei depressivo e alcoólatra que decide desaparecer logo antes de uma corrida muito importante. Cinegrafia absurda do Timo Salminen e uma direção excepcional do Luis Ortega, com algumas das melhores cenas de dança que assisti nos últimos tempos. Maluquice bacana, maluquice gostosa, raro achar um bom filme de corrida de cavalo hoje em dia.
Com um certo atraso ficam aqui duas últimas recomendações: a primeira é “Weapons”, o novo do Zach Cregger que é um excelente e tenso filme de terror até se tornar uma das comédias mais absurdas da temporada e tende a ser ou uma experiência muito divertida (como foi meu caso) ou profundamente irritante (como foi o de muita gente na sala de cinema); e “The Chair Company”, a série do Tim Robinson, de “I Think You Should Leave” que entrou na HBO e também caminha de maneira brilhante na linha tênue entre suspense, humor e puro constrangimento. Está valendo muito a pena sim.
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