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Nada de Errado Nisso · Aug 22, 2025

Nada de Errado Nisso #35

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Gabriel Trigueiro, João Luis · Nada de Errado Nisso

Tem esse desenho do Pernalonga, (“desenho” não, curta de animação se você for pedante como eu) que é incrível: The Wabbit Who Came to Supper, que é de 1942, e foi dirigido pelo Friz Freleng — um gênio do nível de gente como Chuck Jones, Tex Avery etc. O plot é o seguinte: Pernalonga está sendo caçado pelo Hortelino Troca-Letra, até que chega um telegrama de um tio do Hortelino, o Tio Louie, dizendo ao sobrinho que ele, o tio, está prestes a bater as botas, e que o Hortelino é seu único herdeiro. Daí consta no testamento do tio que o sobrinho herdará 3 milhões de dólares, tão logo o velho abotoe o paletó de madeira. Mas há, claro, uma condicionante: o herdeiro perde o direito à herança se for comprovado que ele machucou algum animal. E, atenção às letras miúdas, sobretudo se o animal for um coelho. Sabendo dessa ressalva o Pernalonga aproveita para infernizar a vida do seu antagonista e começa a exigir mimos variados, a chantageá-lo abertamente e passa a se comportar como um nababo, na própria casa do Hortelino. Esse é um episódio especial, porque nele há absolutamente tudo aquilo que aprendemos a amar num episódio clássico do Pernalonga. Pernalonga vestido de mulher? Check! Pernalonga quebrando a quarta parede e fazendo piadas metalinguísticas sobre Hollywood? Check. Pernalonga full trickster, quase um exu fã de cenoura? Check demais, meu irmãozinho. Como não temos um Tio Louie e não somos herdeiros, considere um dos nossos planos de assinaturas pagos. Na edição de hoje Gabriel brinca de Ruy Castro e João Luis escreve sobre utopias e golpes virtuais. Além disso, temos as nossas dicas, sem as quais você não é nem louco(a) de começar o fim de semana, não é mesmo?

Gabriel Trigueiro

Em primeiro lugar, um esclarecimento. Mesmo sob o risco de que talvez eu esteja me tornando um pouco um Ruy Castro de mim mesmo, capturado pelo combo tóxico de nostalgia romântica e umbiguismo cultural, a verdade é que ando pensando muito em lugares do Rio de Janeiro que já não existem mais, mas que não obstante estão impregnados na minha memória e que, de certa forma, fazem parte de quem eu sou. E, cá pra nós, repare como fui cuidadoso com os seus olhos e não escrevi afetiva, na sequência da palavra “memória”. De nada.

Mas voltando rapidão à resenha inicial, o negócio aqui é que eu e um amigo nos referíamos, já há muitos anos, aos nossos lugares favoritos de comer, carinhosamente como “os nossos restaurantes de velho” — ainda, claro, que me irrite um bocado esse cacoete de carioca que louva precariedade, e o fetiche que muitos têm com “autenticidade”, seja lá o que isso signifique.

A mim pouco importa se o bar X da Zona Sul copiou o bar Y da Zona Norte. A pergunta precisa ser formulada de outra forma: A carne assada é boa? O atendimento funciona? E se utilizo o verbo “funciona” é porque, como carioca, jamais teria a ousadia e a pretensão de criar qualquer expectativa com o atendimento de onde quer que seja. Então, assim, se ele funcionar, já fico feliz. A gente fica com esse verbo, com cara de eufemismo: abstrato, amplo e vago, que daí ninguém sofre no meio do caminho.

Bom, mas deixa de papo furado: passemos à lista dos restaurantes.

Quero começar pela saudosa Gordon. A Gordon surgiu em 1968 em Copacabana, e foi criada pelo carioca com nome de gringo Gordon Simmonds, e durou até o final da década de 1980, momento no qual todas as suas 7 unidades, do Leblon a Madureira, fecharam. Era um lugar onde se comia, pelo menos na minha memória de garoto, o melhor hambúrguer da cidade. Os nomes dos sanduíches eram ótimos: Diabólico, Angélico, Toreador etc. Havia alguns truques: a alface jamais era picada, na confecção da maionese era utilizado óleo de canola, enfim. A Gordon de Copacabana, que ficava na altura da Siqueira Campos, era a que os meus pais frequentavam e que a juventude das redondezas ia para paquerar, fofocar e ver as modas. Como sou de 1982, acabou que não consegui frequentá-la por muito tempo. Mas sempre que lembro da Gordon, lembro do amor dos meus pais, do hambúrguer gostoso e da maresia do Posto 3 no meu rosto.

Outro lugar incrível de Copacabana era A Polonesa, um restaurante tradicional de, bem, comida polonesa. Desde 1948 ele ficava ali na Hilário de Gouveia 116, perto do Pavão Azul, mas foi obrigado a fechar as portas durante a pandemia. Ao longo de sua história recebeu gente ilustre, de Lech Wałęsa a João Paulo II, mas também uns vira-latas fajutos como eu e meus amigos. O destaque eram a barszcz (sopa de beterraba); o goulash (ensopadinho de carne e vegetais, regado a páprica), o estrogonofe e o suflet czekoladowy (o tradicional e amado suflê de chocolate, que demorava à vera pra ficar pronto, mas que valia cada segundo da espera).

Por último, mas não menos etc., havia o Bar Cosmopolita, na Lapa, ao lado do antigo forró do Asa Branca, que também já não existe mais. O Cosmopolita disputava com o Café Lamas, outro favorito desta casa, a criação de um dos pratos mais icônicos da nossa gastronomia, o filé à Oswaldo Aranha. Era um restaurante onde comia-se bem, como em poucos lugares da cidade. O gabarito costumava ser pedir o próprio filé à Oswaldo Aranha, claro: um filé alto e no ponto certo, acompanhado de batatas portuguesas sequinhas e crocantes, guarnecidas de arroz (branco ou de brócolis), feijão cremoso e farofinha (às vezes crocante, às vezes molhadinha, não era um restaurante que trabalhasse com regularidade, veja bem). Às vezes me pego suspirando com saudades da sua chopeira de bronze e até dos furinhos assimétricos nas toalhas brancas de linho, sempre elegantes e mal cuidadas.

Falei desses 3 restaurantes por um somatório de motivos, mas sobretudo porque a nossa memória coletiva, cada vez mais, é péssima. A intenção não é lamentar o fim de uma era de ouro da gastronomia carioca, longe disso. Até porque sou um otimista incorrigível: a Casa Paladino segue, firme e forte, com mais de um século nas costas, e lugares novos e interessantes surgem a cada dia. Veja, por exemplo, o Capiau, no Beco das Sardinhas, bem na frente da Igreja de Santa Rita, com seu fogão à lenha e cozinha caipira. Olha o Chanchada, em Botafogo, com seu torresmo de barriga incomparável, e o Velho Adonis, em Benfica, que meio que criou, e se não criou pelo menos popularizou, a combinação de polvo e bacon nos bares e restaurantes da cidade e até do país.

Enquanto houver sede, fome e pulsão de vida, sempre haverá bares, restaurantes e lugares interessantes, nessa cidade que é uma mistura lusitana e francófila nos trópicos, mas também, no fundo e inegociavelmente, uma porção da África Centro-Ocidental perdida na América Latina. Saúde.

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João Luis Jr.

Vivemos num período em que quase não restam mais utopias. A maior democracia liberal se tornou uma mistura de fascismo, plutocracia e reality show e a maior potência comunista também é o segundo país com mais bilionários na face da Terra. Pisamos na Lua mas não encontramos nada e aí paramos de ir, esperávamos que a tecnologia facilitasse nossa vida mas ela está roubando empregos e falando pornografia pra adolescentes em chats, George Jetson, pela cronologia do desenho, já teria hoje três anos de idade e seguimos sem carros voadores nas ruas.

O que antes eram sonhos de novos mundos ou mundos melhores foram reduzidos a uma vaga esperança de que esse mundo atual consiga sobreviver, e ela mesma parece cada dia mais escassa quando até os militantes mais radicais adotam um discurso de que talvez seja tarde demais, as calotas polares foram pro caralho, o aquecimento global venceu, a palavra de ordem pra muita gente é “vamos todos morrer mesmo”. Você chega na pracinha e nos folhetos das testemunhas de Jeová, aqueles onde gente branca, preta, asiática e indígena convive com coala, tucano e dinossauro, a onça começa a parecer menos pacífica, tá quase mordendo uma criança.

E em poucos lugares essa morte da fantasia, essa derrota dos sonhos, esse voo rasante da desesperança, vem se mostrando mais claro do que no mundo dos golpes online, onde o que já foi um reino ficcional repleto de fortunas bilionárias, príncipes desconhecidos e operações financeiras de grandeza indescritível se viu reduzido a propostas de emprego home office, links que roubam senha de Whatsapp e promoções onde você faz o Pix e não recebe o produto.

Afinal, tente lembrar como eram os golpes, não apenas no começo da internet, mas até mesmo num período mais antigo, de nossos pais e avós. Eram pessoas tentando vender para forasteiros o bondinho do Pão de Açúcar, eram falsos bilhetes premiados da loteria, era o famoso príncipe nigeriano, essa nobre e monárquica figura que precisava da sua ajuda para liberar uma fortuna que provavelmente te permitiria nunca mais trabalhar um dia sequer na sua vida.

Pensa o seu sonho mais louco envolver TRABALHAR

Agora pense nos golpes de hoje em dia. Ainda que eles operem basicamente na mesma lógica, que é procurar alguém desinformado ou distraído e fazer parecer que essa pessoa está diante de uma oportunidade incrível, o nível de fantasia, imaginação ou mesmo de recompensa oferecido, caiu de maneira brusca.

Como comparar a experiência de acreditar que comprou um ponto turístico do Rio de Janeiro com apenas gastar dinheiro com jpg de macaco? Como comparar um falso bilhete premiado com uma promoção de tênis cuja loja nunca entrega? Em que momento o email do príncipe nigeriano que mencionava bilhões de dólares em conta virou um SMS com uma proposta de emprego de seis mil reais por mês no TikTok?

O quão triste a nossa sociedade precisa ser pra que a proposta “boa demais para ser verdade” não seja mais uma fortuna exótica a ser resgatada diante de um pequeno adiantamento que consiste de todas as suas economias mas sim um trabalho de meio período fazendo dancinha numa rede social? Quando foi que nossas fantasias e ilusões deixaram de envolver nunca mais trabalhar e passaram a envolver trabalhar menos horas por um salário vagamente digno?

Porque antes de qualquer coisa se tornar real, é preciso que ela seja ao menos imaginada. E numa época em que o peso da realidade parece nos tornar cada vez menos capazes de imaginar coisas realmente grandes – como uma sociedade diferente, não mais um app que é “como o duolingo, mas para tipos de batata” – o fato de que até a narrativa dos nossos golpes e picaretagens está ficando um pouco mais triste e tosca, não parece exatamente um grande sinal.

João Luis Jr.

Daí que ganhei um período grátis de AppleTV, um dos poucos streamings que ainda não assino porque tive que me impor algum limite em termos de assinatura de streaming e admito que não sabia por onde começar. Muita gente me recomendou “Slow Horses”, “Fundação” é baseada numa das séries de livros que mais amo na vida e tem coisas como “Pachinko” e “For All Mankind” que já estão na minha lista faz tempo (“Ted Lasso”, “Severance” e “Shrinking” eu já assisti por vias menos legalizadas). E diante de tantas opções interessantes é óbvio que não escolhi nenhuma delas e agora estou na metade da primeira temporada de “Murderbot”, uma comédia sci-fi sobre um robô de segurança que consegue quebrar a própria programação, decide usar esse recém-adquirido novo arbítrio pra ficar assistindo séries, mas tem seu entretenimento interrompido pelas pessoas que ele precisa proteger pra que não descubram que ele alterou a própria programação. Não sei o que levou o Alexander Skarsgård a decidir fazer essa série – o fato da foto dele no IMDB ser sem calças por dar alguma pista – mas estou muito feliz com o resultado.

Na minha jornada pelos reality shows de relacionamento, vim parar agora no Oriente com o incrível “Casamento à Indiana”, da Netflix, que acompanha a casamenteira Sima Taparia em sua rotina de encontrar esposas e maridos para jovens indianos que estão exaustos de procurar por conta própria (boa parte das mulheres) ou são tão bundões que não querem decidir nem quem é o próprio parceiro (boa parte dos homens). O programa oferece uma mistura fascinante de tradição e modernidade, em que no mesmo episódio é consultado um leitor de rostos, que diz se o casal vai dar certo baseado no formato da cara deles e uma mulher deixa de lado as opções da casamenteira porque conheceu um cidadão no Bumble, oferecendo imenso entretenimento e uma ampla variedade de personagens, que vão desde a advogada implicante até o herdeiro bonitão que diz usar na vida pessoal as coisas que aprendeu cuidando de galinhas na empresa da família (???!!!). Se você gosta de acompanhar encontros desconfortáveis, interações sem química alguma e mães dando ultimatos tipo “se você não escolher uma esposa em dois meses eu vou escolher pra você”, este é sim um programa imperdível.

E encerramos a rodada com dois artigos: um essa bizarra reportagem sobre os missionários que estão ilegalmente espalhando rádios tocando passagens bíblicas pra tentar catequizar os povos isolados da Amazônia, no que parece ser uma versão ainda mais absurda das testemunhas de Jeová batendo na sua porta de manhã; e o outro é essa experiência que um professor de inglês fez com a sua turma sobre o uso de IA nas aulas e que, ao contrário das coisas que costumo compartilhar aqui, é bem pouco alarmista e bem mais reflexiva sobre como a inteligência artificial pode alterar a maneira como a gente escreve ou até mesmo a importância que a gente dá pro ato de escrever.

Gabriel Trigueiro

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