A gente sabe que a vida é complexa, que tudo possui nuances, que a realidade tem mais tons de cinza do que aqueles catálogos suvinil com oito páginas de azul que vão desde azul-marinho até azul-cafuné-da-vovó-mas-não-a-mãe-da-sua-mãe-de-quem-você-é-mais-próximo-e-sim-a-mãe-do-seu-pai-que-você-não-vê-tem-15-anos-sendo-assim-uma-relação-bem-mais-complicada-porque-entre-vocês-dois-existe-essa-ausência-que-nem-é-sobre-vocês-mas-sim-sobre-outra-pesoa. São muitos tons, você percebe.
Então sempre vai ter alguém que vai dizer que “não é tão simples assim”. Um fera pra falar que “é isso que eles querem”. Que essa prisão foi “planejada pela família Bolsonaro”. Que o Alexandre de Moraes está “fazendo o jogo deles”, que isso vai só “manter mobilizada a base”, que era “melhor ter esperado” pra decretar uma prisão que não fosse nada domiciliar.
E ainda que essa seja uma linha de pensamento um pouco perigosa, já que cria um Bolsonaro praticamente invencível – tudo que fazem contra ele “é parte do plano” do homem, qualquer atitude da justiça só serve pra “inflamar a base”, se ele tropeçar e morrer vai ter gente falando que agora ele ficou mais perigoso porque vai assombrar a urna eletrônica – não deixa de ser compreensível que o brasileiro, que já passou por poucas e boas, fique mesmo um pouco desconfiado quando surge aquela notícia um pouco mais positiva.
Mas também não se pode negar ao trabalhador o direito de comemorar certas coisas. É comemorar a vitória do seu time mesmo se ela acontecer na 19ª rodada de um torneio que só acaba em dezembro, é ficar feliz com a selfie que recebeu da gatinha mesmo se não puder estar com ela essa semana, é se alegrar com a prisão de um filho da puta mesmo se ela for domiciliar. Nuances são muitas, sutilezas são inúmeras, mas de vez em quando é gostosinho apenas se permitir um momento.
E nós, da Nada de Errado Nisso, te convidamos a se permitir conosco alguns momentos nesta sexta-feira. Temos um excelente artigo do Gabriel sobre o livro “Monsters: A Fan's Dilemma” - artigo esse que é parte do livro novo do Gabriel - enquanto João debate a complexa questão do famigerado “pobre de direita”. Também temos as tradicionais dicas da semana e aquele convite para que você, nosso leitor, que graças à corrente das fotos sem tornozeleira conseguiu economizar o valor mensal que gastaria comprando foto de pé no Onlyfans, invista em uma assinatura premium da nossa newsletter. Como a gente disse, é um momento para se permitir sim.
João Luis Jr.
E mais uma vez foi discutida a taxação das grandes fortunas. Um lance que estava previsto na constituição, mas a galera tratou como opcional, uma prática que já existe em diversos países e no Brasil é visto como tecnologia alienígena, um debate que deveria ter 212,6 milhões de pessoas de um lado e 55 do outro, mas na opinião pública se apresenta um bocado mais equilibrado do que isso.
Nesse cenário surge aquela figura complexa do debate político brasileiro que é o chamado “pobre de direita”, termo comum dado ao cidadão que, mesmo sendo de classe proletária e teoricamente bem mais beneficiado por políticas e ações identificadas com o espectro de esquerda, se manifesta a favor de políticas e ações identificadas com o espectro de direita, ainda que isso cause a ele prejuízos práticos e perceptíveis.
Uma posição que parece contraintuitiva, que confunde muita gente e que é respondida por boa parte da militância de esquerda com variados tons de deboche e ironia, colocando esse “pobre de direita” como um dos fatores que impedem que as verdadeiras mudanças sociais aconteçam.
O problema é que essa abordagem, por mais tentadora que possa parecer e por mais que seja natural se sentir um pouco “Caetano no Roda Viva” ao ouvir alguém que se beneficiaria de uma carteira assinada reclamar da CLT, não vem funcionando e muito provavelmente não vai funcionar tão cedo.
Primeiro porque é muito complicado mudar a opinião de uma pessoa se você já começa a discussão falando que ela é incapaz e a opinião dela é burra. Existe autocrítica, existe estar aberto ao contraditório, existe escuta ativa, mas quase todo interlocutor, quando diante de uma frase que se inicia com algo como “porra, mas tem que ser muito idiota pra pensar isso mesmo” acaba se tornando um pouco defensivo, no mínimo.
E depois porque ridicularizar o “pobre de direita”, por mais divertido e fácil que possa ser, não gera muitos avanços na questão de entender porque aquele “pobre” está se identificando com a “direita”. O que leva uma pessoa a se comprometer com os ideais de um grupo que, na teoria, parece estar trabalhando contra a qualidade de vida dela, em termos sociais e econômicos? Que benefícios essa pessoa de classe média espera obter defendendo bilionários? Por que alguém que trabalha 10 horas por dia pra suprir necessidades básicas não fica indignada por Roberto Justus poder pagar uma bolsa de 12 mil reais pra filha pequena?
Porque se o objetivo é realmente convencer essas pessoas de alguma coisa e não apenas se sentir especial porque sabe que a taxação das grandes fortunas não vai mexer no HB20 de ninguém, provavelmente o ângulo a ser abordado é outro. Por mais que o “pobre de direita” possa ter posições que a gente discorda ou até mesmo não entende, a opinião dele tem a mesma validade, o voto dele tem o mesmo peso.
Então por mais sedutor que o meme possa ser, por mais fácil que a piada acabe se tornando, infelizmente vai acabar sendo necessário fazer o trabalho bem mais complicado que é o de entender como pessoas que querem provavelmente as mesmas coisas que todos nós, acabam buscando isso por um ângulo que pra gente não faz sentido. E por mais que ridicularizar possa sim funcionar como elemento educativo em certas situações, nesse caso não tá parecendo um ótimo primeiro passo não.
Gabriel Trigueiro
Há dois anos escrevi para a Folha uma resenha de que gosto muito, sobre Monsters: A Fan's Dilemma, o livro de Claire Dederer, que ganhou uma bela edição brasileira pela Amarcord, agora em junho de 2025. Como o livro anda sendo bastante falado, e essa resenha é um dos textos que integram a minha antologia Cinéfilo nem é gente, lançada no início de maio deste ano, peço licença ao leitor e à leitora pelo cabotinismo, e o reproduzo aqui.
Mas se o reproduzo, isso se justifica porque 1) gosto de acreditar que o meu lobby para resenhá-lo, há coisa de dois anos, redundou, ainda que por vias tortas, na publicação da edição brasileira, então esse é um texto que tem, vá lá, alguma importância histórica no debate público brasileiro e 2) porque a discussão sobre arte e moralidade é um bagulho meio que atemporal, né, e essa é uma obra que, com o perdão do clichê, me parece incontornável. É importante que mais gente a leia.
"É possível separar a obra do artista?" "É antiético consumir a arte produzida por pessoas com comportamento reprovável?"
Gabriel Trigueiro
Essas são velhas perguntas que assombram muitos fãs em todo o mundo. Quem lê de relance o título "Monsters: a Fan’s Dilemma" pode ter a impressão de que essas também sejam as grandes questões que conduzem o livro recém-lançado da americana Claire Dederer.
Logo nas primeiras páginas, contudo, é possível notar que a obra, desenvolvimento de uma ideia inicialmente apresentada em ensaio publicado em 2017 na Paris Review, escava muito mais fundo nessa psicologia do fã.
Trata-se de uma busca pessoal sobre como lidar com a interseção de critérios morais e estéticos na apreciação de uma obra. Ou, dito de outra forma, a autora tenta responder como encarar a arte que amamos feita por homens e mulheres responsáveis por coisas horríveis e moralmente reprováveis ao longo de suas vidas.
Dederer é jornalista, escreve críticas literárias para o New York Times e dá aulas de escrita na Universidade de Washington. Já havia publicado dois livros: "Poser: My Life in Twenty-three Yoga Poses" (2010) e "Love and Trouble: a Midlife Reckoning" (2017).
"Monsters", ainda sem previsão de sair no Brasil, foi lançado com algum estardalhaço. No Washington Post, o livro foi chamado de "vital e emocionante". Na New Yorker, foi classificado como "um trabalho de profunda reflexão e autoanálise que honra a impossibilidade da missão do livro".
Não se trata de um livro sobre artistas cancelados, mas uma biografia do público desses artistas. Ou seja, nós. A definição de monstro dada por Dederer é "alguém cujo comportamento pessoal atrapalha a nossa capacidade de compreender sua obra a partir de seus próprios termos".
A autora apresenta seu argumento na primeira pessoa, com uma reflexão existencial a princípio muito particular, que ganhou contornos coletivos à medida que vimos emergir o movimento MeToo.
Como conciliar sua formação e educação política como feminista com a admiração pela obra de artistas como Roman Polanski, condenado nos Estados Unidos pelo estupro de uma criança de 13 anos na década de 1970? Como apreciar o legado artístico e a capacidade de criar beleza de alguém capaz de uma monstruosidade indefensável como essa?
Como a escritora diz em um dado momento: "Meu feminismo é elástico o suficiente para consumir o trabalho deles, mas não para ter empatia com eles".
Dederer defende que muito daquilo que temos a pretensão de que sejam "considerações éticas", na verdade, são "sentimentos morais". Ela argumenta que esses sentimentos morais não podem ser retirados artificialmente da equação. A apreciação de uma obra ocorre no encontro da biografia do artista com a da audiência.
A autora se opõe ao pessoal da "nova crítica", o movimento que, em meados do século 20, advogava que a crítica deveria ser feita exclusivamente a partir de uma régua formalista e circunscrita meramente a critérios estéticos.
Dederer identifica a origem filosófica desse argumento na ideia protestante de "sola scriptura", que defende que a Bíblia seja tratada como a fonte única de toda a doutrina e prática cristã. Sua posição, entretanto, é a de que "a experiência estética está sempre amarrada à nostalgia e à memória, ou seja, à nossa experiência subjetiva".
Em "Monsters", a autora pontua que as obras de arte não são impermeáveis ao contexto histórico no qual são criadas e recepcionadas ao longo do tempo —tampouco a variados elementos biográficos, do artista e mesmo da audiência.
Em um dado momento, um amigo de Dederer —um intelectual branco, de meia idade e de classe alta, ele próprio quase um personagem de Woody Allen— argumenta com condescendência que a autora deveria julgar "Manhattan", filme de 1979 de Allen, não pelo que ela sabe a respeito da vida do autor (o casamento com a enteada Soon-Yi Previn etc.), mas tão somente pelos critérios intrínsecos ao filme.
No entanto, quando ela o questiona acerca de quais seriam esses tais critérios, a resposta de seu amigo é alguma platitude vaga como "elegância e equilíbrio".
Aliás, questionar a construção narrativa de um relacionamento de um homem de 42 anos, o personagem de Allen, e uma menina de 17 anos —seu par romântico, Mariel Hemingway—, não é também julgar o filme a partir de um critério estético?
"Monsters" explora o conceito sociológico de "relações parassociais", ou seja, aquelas em que desenvolvemos relações emocionais reais com os artistas cujas obras amamos. É mais do que simplesmente admirar ou amar a obra de alguém, mas acreditar que uma imersão radical na biografia do artista garante alguma relação de intimidade mútua com ele ou ela.
É quase um truísmo recordar que a internet e as redes sociais aumentaram, potencializaram e, pior ainda, transformaram esse fenômeno estranho em commodity valiosa.
Todo o debate a respeito do confronto entre considerações éticas e estéticas por parte do público não pode perder de vista, a autora lembra, o contexto material macro no qual estamos inseridos.
O capitalismo tardio nos transformou em "consumidores" e nossas identidades cada vez mais são constituídas a partir de nosso padrão de gosto e consumo. Nossa relação com artistas é atrelada intimamente a biografias que são alçadas ao status fantasioso e distorcido de guias morais. Uma vez que essa fantasia colapsa, perdemos uma parte da nossa própria identidade no processo.
Nesse sentido, o "fandom" é a expressão máxima da mercantilização contemporânea da arte e de como lidamos com a criação artística como sociedade. Não à toa, Dederer lembra oportunamente Walter Benjamin: "Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie".
A escritora argumenta que a pergunta "o que fazer com a arte de homens monstruosos?" é respondida invariavelmente de modo liberal: "boicotando o artista".
O boicote como resposta é uma fantasia tipicamente liberal, na qual removendo-se o dinheiro e a atenção do problema, ele magicamente deixaria de existir.
A ironia do capitalismo tardio é passar o ônus moral do consumo dessa arte ao indivíduo, que jamais é tratado como um sujeito complexo, dono de subjetividade e sensibilidade próprias, mas meramente como um consumidor que precisa performar publicamente indignação moral. "Você é aquilo que você consome. Você é, afinal de contas, o seu fandom", a autora aponta.
A indústria cultural toma uma série de decisões despidas de quaisquer considerações éticas, explora os artistas, trata a criação artística como commodity e, no fim, cobra que você se sinta moralmente culpado ou pessoalmente responsável quando dá uma dançadinha no momento em que toca Michael Jackson na sua caixa de som. Algo parece estar errado, não?
A verdade é que não há uma grande teoria geral, de aplicação de uma métrica universal e absoluta, com a qual se possa encontrar um equilíbrio perfeito entre moralidade e apreciação estética.
A mesma pessoa que ama Woody Allen pode ser aquela que não consegue ficar diante de uma pintura de Picasso sem sentir náuseas. Todos somos hipócritas e, em maior ou menor grau, monstros. Essa é, gostemos ou não, uma das medidas da nossa humanidade.
"Monsters" é um exercício elegante, divertido e erudito de crítica cultural. Acima de tudo, é um livro escrito com uma voz e sensibilidade muito originais.
Assim que o lemos, é difícil não concordar com o comentário sobre a autora feito por Nick Hornby: "Agora a minha vontade é a de que ela escreva sobre absolutamente todos os assuntos que me interessam, para que eu possa pensar sobre todos eles de novas maneiras".
Compartilhe “Nada de errado nisso” e nos ajude a atingir alguém que não tava prestando atenção na hora e agora “pow”, atingido
Gabriel Trigueiro
Anna Kodé, do New York Times, fala sobre a cenografia e a arquitetura de Vila Sésamo, a partir de Morte e Vida de Grandes Cidades, da Jane Jacobs.
Ezra Klein recebeu no seu podcast Yoram Hazoni, um dos ideólogos responsáveis pelo revival do nacionalismo no movimento conservador norte-americano. Leitura de cabeceira do JD Vance, aliás.
Por que os rappers americanos gostam tanto dessa mostarda?
Sobre a atualidade do pensamento de David Foster Wallace.
Assisti recentemente a BR 716, de Domingos de Oliveira. Eu não poderia defini-lo melhor do que a minha mulher, que é sempre genial, 24/7: “Whit Stillman em Copacabana”.
Também assistimos a Oh, Canadá, o mais recente do Paul Schrader, um dos favoritos desta casa.
Bora discutir crítica a sério? Na moralzinha?
Lista dos 150 melhores discos da década de 1990, de acordo com a Pitchfork.
Meu livro Cinéfilo nem é gente foi resenhado pelo grande JP Cuenca. Que honra.
Eu e o Luiz Mauricio Azevedo (um baita crítico literário) conversamos com a Roberta Martinelli (na minha humilde etc., a melhor jornalista cultural que nós temos) sobre Homem Invisível, de Ralph Ellison. Amigos disseram que eu tenho “voz boa para podcast”. Confere lá.
João Luis Jr.
Poucas ideias são mais absurdas e presunçosas do que um cidadão escrever e dirigir a própria cinebiografia e o único jeito de deixar isso mais bizarro é se ela não apenas for um grande filme como se apresentar menos chapa branca do que grande parte das cinebiografias que costumamos ver. E isso é “All That Jazz”, o clássico de 1979 onde Bob Fosse conta a vida de Bob Fosse com detalhes que apenas Bob Fosse saberia, mostrando como Bob Fosse era uma pessoa terrível e aí, quando todo mundo diz “Bob Fosse, que absurdo você fazer um filme sobre o Bob Fosse”, ele, Bob Fosse, nega que o filme seja sobre Bob Fosse. Mas obviamente era sobre Bob Fosse, um cidadão incrivelmente arrombado mas absurdamente genial, capaz de fazer um grande filme sobre Bob Fosse. É sobre vida, morte, dança, processo criativo, pais ausentes e mais umas 20 coisas que não processei totalmente ainda.
Mesmo sendo uma pessoa um tanto quanto cansada e ansiosa, sempre me incomodou uma certa estética da derrota e do comportamento antissocial que aparece nas redes sociais, em que as pessoas parecem se orgulhar de não sair de casa, não ter amigos, passar o dia todo no celular. E acho que esses dois textos apresentam bem a questão de como as pessoas hoje saem menos, interagem menos, e como isso obviamente não está fazendo bem pra elas.
Também muito interessante esse artigo sobre a era da pós-legibilidade na internet, em que conteúdo não é mais produzido pra ser entendido ou processado, mas sim apenas sentido, uma espécie de morte do significado, patrocinada pela Inteligência Artificial.
Inteligência artificial que é um dos temas do podcast “Flesh and Code”, que comecei a ouvir na semana passada, sobre relacionamentos entre pessoas e IA, que vai desde o homem que tinha uma esposa real e outra virtual até o rapaz que foi incentivado por uma inteligência artificial a tentar assassinar a Rainha da Inglaterra. Me fez ao mesmo tempo entender o que leva alguém a criar conexões reais com uma IA e também ter um terrível medo de qualquer pessoa que fica conversando com bot como se fosse gente. Ah, e já ouviram falar em “tecnofeudalismo”? Muito animadora a perspectiva da tecnologia acabar com o capitalismo e colocar em curso algo ainda pior.
Também tem esse artigo da “The Atlantic” sobre toda a polêmica envolvendo a propaganda de jeans com a Sidney Sweeney, que pode ser um trocadilho, pode ser eugenia, pode ser um pouco de cada, mas acima de tudo é um grande exemplo da grande loucura que virou qualquer tipo de debate na internet, em que a discussão está morta e temos apenas pessoas gritando e tentando fazer uns trocados em cima do túmulo.
Por fim, topei com esse texto aqui do Fábio Ochôa sobre a relação entre Stan Lee e Jack Kirby, dois dos maiores criadores da história das HQ’s, e admito que dei uma choradinha no final.
No posts

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.