Beleza é um tópico recorrente no MR Jobim. Tenho o hábito de fazer diário desde a infância e de fazer algumas reflexões pessoais em notes no meu computador. Revistando algumas dessas anotações, me deparei com esta reflexão sobre beleza que havia feito em 2022. Acredito que ela segue relevante e atual, com alguns pequenos ajustes que fiz para dividir com vocês nesta semana.
A questão central é que existem um debate recorrente em nosso cotidiano (e em minha mente) sobre a função da beleza para além da estética. É um tema de estudo para mim e que, recentemente, ganhou mais potência com uma visita ao Japão e ao perceber o poder que a beleza tem na cultura japonesa.
Compreendemos que existe um poder que a beleza exerce sobre nós que vai além. O que nos leva para o nosso questionamento. Será possível afirmar que a beleza é um combustível?
Ou melhor, podemos colocar a beleza como elemento capaz de nos motivar a fazer um bom trabalho? Importante dizer que a beleza tem um papel que vai além do efêmero, do fútil ou como uma ideia filosófica a distância. Acredito que ela deveria estar, antes de tudo, naquilo que fazemos todos os dias.
Em The Beauty of Everyday Things, Soetsu Yanagi nos convida a olhar para os objetos comuns com mais atenção. Para ele, há beleza no que é simples, no que é usado, no que foi feito com honestidade e carrega as marcas de sua função e de seu artesão. Uma tigela, uma cadeira, uma peça de cerâmica ou um tecido não precisam gritar para serem belos. Muitas vezes, sua força está justamente no silêncio.
Essa ideia nos interessa porque desloca a beleza do campo do extraordinário para o campo da presença. Beleza não como excesso ou ornamento, mas como resultado da precisão e consequência de uma escolha bem feita.
E, voltando a nossa pergunta, se beleza é capaz de funcionar como combustível, chegamos a resposta que: talvez sim. Acredito que fazemos melhor quando estamos diante daquilo que nos cativa. Quando existe interesse, cuidado e intenção, o trabalho deixa de ser apenas mais uma entrega e passa a ser criação com propósito. É nesse lugar que o belo começa a aparecer: não como uma camada aplicada ao final, mas como algo que nasce no processo.
Esse é um ponto fundamental. Para mim, o design é o processo, assim como a beleza, e não o resultado final. O belo surge quando há espaço mental. Quando existe tempo para escutar os ruídos, atravessar as imperfeições e transformar o que parecia desordem em forma. Mas esse espaço, hoje, é cada vez mais raro.
Vivemos em um mundo guiado pela urgência – sempre pelo on e nunca pelo off. E, produzir algo bom (e belo) se tornou uma atividade secundária. Essa condição da sociedade hipermoderna, na qual não temos tempo para pensar no tempo que temos, aponta o olhar prioritário para a demanda e, por isso, quase tudo se torna urgente. Os resultados disso são trabalhos fugazes, baseados apenas em prazos e não em propósitos, que geram pouco ou nenhum impacto positivo no mundo. São projetos nos quais a perenidade está ausente e, em consequência, podem ser facilmente descartados – como realmente são.
Mas aquilo que é belo costuma resistir.
Não necessariamente porque é perfeito, grandioso ou impecável, mas porque carrega intenção. Porque revela uma relação cuidadosa entre matéria, função, gesto e propósito. Porque foi pensado não apenas para existir, mas para fazer sentido.
Criar com propósito é, inevitavelmente, criar com processo. E criar com processo exige assumir a “não-beleza” daquilo que criamos: o rascunho, o excesso, a dúvida, o erro, aquilo que ainda não encontrou forma. Talvez seja justamente nesse contato com a imperfeição que a beleza comece a se revelar.
Há uma beleza particular nas coisas que não tentam parecer mais do que são. Nos objetos que cumprem bem sua função. Nos projetos que não dependem de ruído para serem percebidos. Nas marcas que sabem o que são e, por isso, não precisam dizer tudo o tempo inteiro.
Talvez a beleza esteja mais próxima do essencial do que do espetacular.
E levar somente o essencial é uma das tarefas mais difíceis de qualquer processo criativo. Exige escolha. Exige renúncia. Exige clareza para entender o que deve permanecer e o que precisa sair. Porque, quando tudo quer aparecer, nada realmente se revela.
Por isso, se existe uma missão em trazer beleza para o mundo, talvez ela não esteja em produzir mais, mas em produzir melhor. Em criar com tempo, intenção e presença. Em entender que a beleza não é apenas aquilo que encanta à primeira vista, mas aquilo que continua fazendo sentido depois.
No fim, talvez buscar beleza no cotidiano seja também aprender a olhar de novo.
Para os objetos que usamos, os espaços que habitamos, os gestos que repetimos e, por fim, para os trabalhos que escolhemos fazer.
Pois onde há propósito, há processo, mas sobretudo, pode haver beleza.
E você? Como busca beleza no seu cotidiano?
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