Ao que parece, as redes sociais — antes percebidas como espaços amplamente democráticos — vêm se tornando ambientes cada vez mais complexos, que extrapolam a função de entreter. Da popularização das fake news ao avanço de conteúdos produzidos por IA, essas plataformas tensionam a própria noção de informação e evidenciam, na prática, os limites entre opinião e autoridade, ao privilegiar conteúdos impulsionados por visibilidade e métricas.
Nesse contexto, ocupar o lugar de “saber” deixou de depender, necessariamente, de estudo, investigação ou experiência acumulada. A performance do especialista — bem articulada, segura e constante — muitas vezes substitui o próprio conhecimento num algoritmo ditado pela velocidade e excesso.
Também sabemos que esse fenômeno vai muito além da internet. Não é de hoje que posições sociais endossam discursos que nem sempre são comprometidos com o saber, mas ganham importância devido a forma e ao meio que são veiculados. Isso é, de forma resumida, o que Foucault chamou de “Regimes de Verdade” em A Ordem do Discurso.
No entanto, a saturação de discursos superficiais somada ao excesso de informação começa a produzir um certo cansaço coletivo. É nesse contexto que mapeamos emergir um novo desejo cultural: a revalorização da profundidade, do pensamento crítico e de narrativas que se constroem com mais consistência.
Há um movimento de busca por sentido, por conexões que organizem o mundo de forma mais complexa e menos imediata.
Esse deslocamento também reorganiza a forma como distinguimos quem fala. Aos poucos, voltamos a diferenciar quem apenas opina de quem sustenta ideias com referências, experiência e contexto. Não se trata de rejeitar o digital ou a democratização da fala, mas de refinar os critérios de legitimidade dentro dele. Nesse cenário, criadores de nicho — professores, pesquisadores, profissionais e especialistas — começam a ganhar mais espaço ao compartilhar conhecimento com profundidade, ainda que para públicos mais específicos.
O sociólogo Pierre Bourdieu já havia descrito como o conhecimento, a educação e o repertório funcionam como formas de distinção social através do termo capital cultural. Durante muito tempo, esse capital esteve fortemente associado a instituições formais, como faculdades e espaços legitimados de ensino. E de certa forma, ainda está.
Mas hoje, percebemos como as gerações mais jovens vem propondo uma mudança de mentalidade em relação ao acesso ao conhecimento e sua difusão. Se antes o saber se concentrava em universidades, diplomas e especializações, hoje ele também se expande para as telas, redes sociais, podcasts, trends e outras experiências mais amplas que se relacionam com a aprendizagem.
73% da Gen Z afirmam valorizar o aprendizado ao longo da vida, e 75% acreditam que é possível adquirir educação e conhecimento fora das estruturas tradicionais, segundo estudos de comportamento geracional analisados pela WGSN.
Portanto, demonstrar repertório cultural e capacidade de reflexão passam a funcionar como um novo marcador de pertencimento social. Não se trata apenas de acumular informação, mas de unir experiência ao conhecimento e circular por diferentes territórios simbólicos com propriedade — arte, política, cultura, saúde, etc. Aqui, o valor não está só no que se sabe, mas na forma como esse saber se articula as ideias, mesclando acesso, vivência e conhecimento. Esse imaginário aspiracional se comporta como uma nova face do luxo pois se torna uma maneira intangível de perceber o mundo e ter experiências verdadeiramente exclusivas, algo que já discutimos anteriormente nos novos códigos de luxo.
No fim, a inteligência vai deixando de ser apenas uma qualidade individual e passa a operar também como um posicionamento cultural. Algo que se constrói, se demonstra e se reconhece socialmente.
Apesar de ser um comportamento que pode se expressar como marcador social, nosso desejo é que a busca pelo conhecimento e a audiência de vozes engajadas continue se expandindo, atravessando gerações e influenciando as tomadas de decisão. Se a inteligência for mesmo o novo sexy, é esse movimento que buscamos apoiar valorizando a profundidade, o repertório e tudo aquilo que leva tempo para ser construído.
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