Existe uma cena cada vez mais rara no jornalismo de moda brasileiro: alguém escrever uma crítica dura, direta, nominal, sem transformar o texto em bajulação ou culto ao networking. Quando isso acontece, parece que o sistema inteiro entra em curto-circuito.
Foi exatamente o que aconteceu nos últimos dias depois do artigo de opinião da jornalista Renata Brosina, publicado no dia 3 de maio na Folha de S.Paulo, sobre o Rio Fashion Week. No texto, Brosina afirma que algumas peças apresentadas no evento “foram além da coincidência”, apontando semelhanças entre criações brasileiras e coleções de marcas internacionais, como Isabela Capeto x Chanel e Osklen x Gucci. Ela também menciona o caso envolvendo ALUF e Emmanuelle Junqueira que, segundo o próprio texto, já estaria inclusive em trâmites judiciais. E logo no começo escreve: “Mais uma vez, a originalidade da moda brasileira morreu na praia.”
A frase é dura. Talvez até incômoda. E um pouco exagerada, além de ligeiramente clichê ao relacionar “morrer na praia” ao Rio de Janeiro. Mas a crítica de moda não existe para oferecer carícias e afagos.
E é justamente esse incômodo que parece ter se tornado insuportável.
Porque, independentemente de concordar integralmente ou não com cada comparação feita por Renata, existe algo muito importante no gesto dela: ela escreveu uma crítica. E assumiu todos os riscos que esse ato, quase hercúleo para os parâmetros atuais, exige. Isso, dentro da moda brasileira contemporânea, já parece um ato de desobediência.
Vale lembrar também que Renata Brosina não é exatamente alguém que despreza ou deslegitima automaticamente a moda brasileira, como algumas reações fizeram parecer. Em 2023, durante entrevista para a revista Claudia sobre os caminhos do luxo na moda nacional, a própria jornalista afirmou que “durante um longo período, era difícil identificar essa característica da moda nacional, já que as referências vinham, em sua maioria, de fontes internacionais”.
Mas o mais interessante é que ela também reconhece como a nova geração da moda brasileira vem conseguindo ressignificar as próprias ideias de luxo dentro do país, criando narrativas mais conectadas à realidade cultural brasileira contemporânea.
E talvez isso seja importante de lembrar justamente porque desmonta a ideia simplista de que qualquer crítica feita à moda nacional nasce automaticamente de desprezo pela indústria. Muitas vezes, a crítica surge justamente da expectativa de que ela possa ir além.
A reação ao texto talvez diga menos sobre as peças citadas e mais sobre o ambiente em que a moda brasileira se acostumou a operar. Um ambiente em que o elogio circula com facilidade, mas a discordância vira quase uma ofensa pessoal. Em que cobertura muitas vezes se confunde com relacionamento. Em que o acesso ao backstage, à fila A e ao evento pesa mais do que a liberdade de formular uma opinião.
A crítica de Renata incomodou porque rompeu com a obrigação da cordialidade permanente.
Você pode elogiar, celebrar, transformar coleção em manifesto e publicidade em análise. Mas apontar algo desconfortável de maneira frontal ainda parece proibido, como se qualquer crítica mais dura devesse existir apenas na surdina, em conversas abafadas, longe do olhar público.
E talvez por isso o texto tenha causado tanto barulho.
Não porque seja perfeito, intocável ou imune a questionamentos. Nenhuma crítica deveria ser. Mas porque recoloca no centro da conversa uma função que o jornalismo de moda parece ter abandonado aos poucos: tensionar a indústria que cobre.
Durante muito tempo, a crítica de moda serviu justamente para criar esse desconforto. Não para garantir acesso, convite ou trânsito confortável dentro da indústria. Existia acidez. Existia opinião. Existia risco. E talvez ninguém represente isso tão bem quanto Regina Guerreiro.
Regina escrevia sem medo de desagradar. Havia ironia, inteligência, acidez e, principalmente, independência. Ela parecia entender algo que boa parte do jornalismo de moda contemporâneo esqueceu: gostar de moda não significa protegê-la o tempo inteiro.
Pelo contrário.
Quem leva moda a sério precisa aceitar que ela seja analisada, confrontada e questionada. Se a jornnalista ainda estivesse na ativa, acredito honestamente que boa parte dos operários da moda entraria em coma ao ler duas linhas de suas críticas.
Existe uma fragilidade emocional muito estranha atravessando a moda hoje. A indústria quer o prestígio intelectual da crítica, mas não parece suportar seus efeitos. Quer ser levada a sério enquanto arte, linguagem e cultura, mas entra em colapso quando alguém aponta fragilidades publicamente.
E talvez o problema esteja justamente aí: o jornalismo de moda foi perdendo a musculatura crítica porque ficou dependente demais da proximidade com as marcas. Muitos veículos sobrevivem da publicidade das mesmas empresas que deveriam analisar.
A fronteira entre imprensa e indústria ficou borrada.
E acho importante dizer também que nós, jornalistas (ou quase isso, no meu caso, já que ainda me faltam alguns meses para finalmente receber o diploma), fazemos parte dessa engrenagem da moda brasileira, ainda que ocupemos um lugar frequentemente desconfortável dentro dela. A crítica não existe fora da moda, observando tudo de longe numa suposta posição neutra. Ela nasce de dentro. Das passarelas, dos bastidores, dos convites, dos silêncios, das relações e também das contradições dessa própria indústria.
Os jornalistas funcionam quase como uma lente de aumento sobre aquilo que está sendo produzido. Ajudam a perceber contextos, relações, excessos, permanências, referências e contradições que muitas vezes se perdem no fluxo acelerado das imagens e no consumo instantâneo da moda.
A crítica foi desaparecendo aos poucos porque o acesso virou moeda de troca. E, dentro de uma indústria baseada em pertencimento e validação, ninguém quer correr o risco de perder acesso.
Talvez parte da violência dessa reação também esteja ligada à dificuldade histórica que o Brasil tem de reconhecer valor na própria produção cultural sem recorrer constantemente à legitimação estrangeira. Darcy Ribeiro falava de uma brasilidade construída justamente pela mistura, pela contradição e pela capacidade de criar uma linguagem própria. Ainda assim, seguimos muitas vezes condicionados a olhar para fora antes de validar aquilo que nasce aqui.
Parece que ter uma opinião hoje em dia virou quase como guardar uma joia num cofre. Algo que precisa permanecer protegido a sete chaves para não gerar desconforto, afastamento ou revolta coletiva quando finalmente é exposto publicamente.
Muitas vezes existe um medo silencioso circulando pelos bastidores. Medo de ser visto como “difícil”, “amargo”, “ressentido” ou “problemático” simplesmente por emitir uma opinião que não esteja completamente alinhada ao discurso homogeneizado do momento.
E talvez por isso tanta gente acabe presa às mesmas opiniões. Não necessariamente porque concorda profundamente com elas, mas porque discordar dentro de certos espaços sociais pode custar caro.
Só que uma indústria sem crítica também começa a perder densidade criativa. Tudo vira “genial”, “emocionante”, “potente” e “necessário”. Se tudo é revolucionário, então nada realmente é.
E é por isso que, mesmo quando uma crítica incomoda, ela precisa ao menos poder existir.
A crítica de Renata Brosina pode ser contestada. Pode ser debatida. Pode ser ampliada. Pode ser contrariada por outras leituras, inclusive por quem entende mais profundamente os processos técnicos e artesanais da moda. Mas ela não deveria ser tratada como uma ofensa irreparável a ponto de motivar uma resposta tão formal por parte de quem se ofendeu. Certas coisas talvez pertençam mais ao campo das entrelinhas do que ao da réplica em si.
A maior parte das pessoas não vê o processo interno da criação. O público vê a roupa pronta. Vê a silhueta, o impacto visual, os códigos que aquela peça ativa na memória. E a moda sempre funcionou através dessa associação imagética.
Quando alguém olha uma peça e imediatamente a relaciona a outra referência já conhecida, isso não significa automaticamente desconhecimento técnico ou acusação rasa de plágio. Significa apenas que a moda é uma linguagem visual construída por símbolos, referências e repertórios que o olhar reconhece.
Depois que uma roupa entra na passarela, ela deixa de existir apenas como processo do criador. Ela passa a existir também como imagem pública. E imagens inevitavelmente geram comparação, interpretação e olhar crítico.
Talvez seja isso que o texto de Renata tenha feito: colocado em palavras uma percepção visual que muita gente talvez já tivesse tido, mas preferiu não dizer em voz alta.
E isso importa.
Porque se a crítica só puder existir quando for confortável, elogiosa, elegante demais ou previamente aceita por todos os envolvidos, ela deixa de ser crítica. Vira decoração.
A crítica é necessária. Mas ela também não pode ser banalizada ou transformada apenas em combustível para linchamento digital e torcida organizada de internet. O problema é que hoje qualquer opinião que escapa do consenso confortável rapidamente se transforma em motivo para ataque pessoal ou patrulhamento coletivo.
E sinceramente, acho perigoso alimentar ainda mais essa lógica num país que já atravessa um momento tão frágil de polarização coletiva.
O Brasil já vive cansado emocionalmente de disputas permanentes, de lados irreconciliáveis, de pessoas transformando qualquer divergência em rompimento. Não acho saudável transportar essa mesma dinâmica para todos os campos da arena cultural, inclusive para a moda.
E talvez uma das coisas mais preocupantes hoje seja justamente a ideia de que a opinião dominante automaticamente se torna a opinião correta apenas porque aparece mais, circula mais ou recebe mais validação. Como se toda visão que vai na contramão precisasse necessariamente estar errada, ser mal-intencionada ou merecer silenciamento.
Mas quantidade de concordância nunca foi garantia absoluta de lucidez.
Muitas vezes as opiniões mais importantes surgem justamente da recusa em repetir automaticamente aquilo que já está sendo aceito coletivamente.
E talvez seja justamente isso que a crítica de moda deveria preservar: a possibilidade de existir pensamento fora do consenso.
Por isso, apoiar a existência da crítica de Renata não significa concordar cegamente com cada linha do texto. Significa defender que esse tipo de texto simplesmente possa existir.
A crítica não existe para destruir a moda. Ela existe justamente porque a moda possui relevância suficiente para ser analisada, questionada e confrontada.
Só criticamos profundamente aquilo que entendemos como importante.
Então, no fim, para que a pergunta do título não exista apenas como provocação vazia: quem tem medo da crítica de moda?
Talvez uma indústria que, aos poucos, tenha se acostumado mais com validação do que com reflexão. Uma indústria que aprendeu a conviver muito bem com aplausos, engajamento e aprovação imediata, mas que ainda parece desconfortável diante de qualquer olhar que interrompa esse fluxo automático de consenso.
Porque esse “oba-oba” constante conforta. Mas raramente tensiona ideias o suficiente para gerar pensamento.
P.S.: também escrevo tudo isso me colocando numa posição muito específica: a de uma estudante de jornalismo que teve algumas boas oportunidades de se aproximar desse círculo tão restrito da moda e do jornalismo de moda. Acho que cheguei perto de algumas portas, consegui observar certos bastidores e entender parte das dinâmicas que sustentam essa indústria, mas sinto que ainda não adentrei completamente esse universo. Talvez seja apenas uma questão de tempo, maturidade, experiência e oportunidades.
Por isso, também não escrevo daqui como alguém que acredita possuir um conhecimento vasto ou definitivo sobre a moda brasileira. O que busco é estudar, compreender suas raízes, tensões e dinâmicas a partir de um olhar atento e curioso.
E justamente por isso também abro a roda do diálogo. Não para encerrar discussões ou me colocar como dona de alguma verdade, mas para que possamos pensar juntos sobre os caminhos, os limites, os silêncios e as possibilidades da crítica de moda dentro da indústria brasileira contemporânea.
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