Ultimamente tenho sentido um cansaço muito específico, difícil até de explicar. Não é só uma mera exaustão física ou mental. É um esgotamento de existir permanentemente conectada. De sentir que minha atenção está sempre sendo disputada por alguma coisa: um vídeo novo, um lançamento de beleza, uma notificação, uma microestética inventada há três dias que já parece ultrapassada hoje.
Eu sinto que minha geração desaprendeu a ficar em silêncio.
Desaprendemos a conviver com o tédio, com a lentidão e até com os próprios pensamentos sem precisar anestesiá-los imediatamente com algum estímulo. E talvez por isso eu esteja desejando tanto tudo aquilo que parece incompatível com a internet contemporânea: o analógico, que quase sempre vem acompanhado da possibilidade de viver as pequenas atividades diárias sem pressa, sem notificações interrompendo o raciocínio e sem a sensação constante de que estou atrasada para alguma coisa.
Tenho feito palavras cruzadas diariamente. Pelo menos trinta minutos por dia. E isso talvez pareça banal, mas virou uma espécie de ritual para mim. Recentemente, comprei um livrinho novo na Amazon com 365 cruzadinhas que vão do nível fácil ao difícil. Foi pura perdição quando desci na portaria para buscá-lo. <3
Eu já estava cansada dos antigos que tinha em casa, daqueles que faziam meu cérebro entrar em combustão tentando preencher lacunas impossíveis. O livro era deveras antigo, total demodê. Não faço ideia de qual década era, mas bastavam algumas páginas para perceber que ele carregava expressões racistas, xenofóbicas, machistas e referências completamente ultrapassadas, quase como uma cápsula involuntária de um Brasil que naturalizava certos discursos sem constrangimento algum.
Então decidi comprar um novo, mais atualizado com o mundo. Publicado em 2024, da editora Ativa Mente. E existe algo curioso nisso tudo: até nas palavras cruzadas senti necessidade de procurar uma experiência mais compatível com o presente, mas sem abrir mão da lentidão. Porque, no fundo, o que me encanta nelas não é apenas o passatempo em si. É o fato de que elas me obrigam a desacelerar. A pensar com calma. A sustentar uma dúvida sem recorrer automaticamente ao Google depois de três segundos.
E, no auge desse meu surto analógico, também adquiri a primeira edição da Sabichonas, um livrinho inteiramente dedicado a atividades relacionadas ao universo pop. A própria descrição no site define perfeitamente a proposta: “Sabichonas é uma revistinha de jogos que nasce do encontro entre duas obsessões assumidas: cultura pop e palavras cruzadas.’’
E talvez seja justamente isso que tenha me encantado tanto. Porque as cruzadas dali não giram em torno de capitais esquecidas ou expressões ultrapassadas de décadas atrás, mas de divas pop, séries, memes, novelas, charts e referências da cultura queer contemporânea. Além das cruzadinhas, a revista ainda traz sudoku, caça-palavras e liga-pontos feitos para pessoas que, segundo eles mesmos, “têm um gostinho pelo exagero”.
Sentar longe do celular, pegar uma caneta e tentar lembrar palavras esquecidas na minha cabeça — ou até descobrir palavras novas no meio do caminho — tem me devolvido uma sensação de concentração que eu não sentia há muito tempo. Existe algo quase terapêutico em precisar recorrer apenas à própria memória, ao raciocínio e ao tempo, sem terceirizar imediatamente qualquer dúvida para o senhor Google, que hoje parece habitar nossa rotina como uma extensão automática do pensamento.
Também tenho mantido duas leituras simultâneas: uma puramente por prazer, ficção mesmo, sem nenhuma obrigação intelectual; e outra para me ajudar a escrever meu TCC. Além disso, mantenho um hábito que talvez soe cada vez mais anacrônico para a minha geração: ler revistas impressas. Algumas compro em banca de jornal e também assino a ELLE Brasil.
Existe algo muito diferente em folhear uma revista física. Sentir o toque do papel, o peso da edição nas mãos e observar os detalhes com calma. No caso da ELLE, isso fica ainda mais evidente porque ela tem um formato maior do que o de uma revista tradicional, quase como um pequeno livro de moda. Gosto de admirar a construção dos editoriais, observar as cores, as fotografias, as tipografias e até os espaços vazios entre uma página e outra. A leitura deixa de ser apenas um consumo rápido de informação e volta a se transformar numa experiência estética mais contemplativa. E percebi que voltar a ler — e, principalmente, recuperar o prazer genuíno pela leitura — passou a exigir de mim algo que as redes sociais destruíram aos poucos: permanência.
Permanecer numa frase. Numa ideia. Num capítulo inteiro sem interromper tudo para desbloquear o celular automaticamente, quase como um reflexo involuntário. Outro dia percebi, sem querer admitir isso para mim mesma, que são poucos os programas de televisão que consigo assistir sem olhar outra tela ao mesmo tempo. Também já não consigo ouvir um áudio inteiro sem acelerar em 2x, como se até a voz das pessoas precisasse se adaptar ao ritmo frenético que meu cérebro passou a exigir.
Em abril, pedi de aniversário para os meus pais um relógio justamente para tentar diminuir essa compulsão quase involuntária de olhar para a tela do celular o tempo inteiro. Queria me forçar a olhar as horas apenas no acessório de pulso, sem transformar um gesto simples em uma sequência infinita de distrações. Porque percebi que toda vez que pegava o celular apenas para conferir o horário, acabava sendo sugada pelas notificações que, muitas vezes, nem eram tão interessantes assim, mas sequestravam minha atenção sem que eu sequer notasse.
E depois de horas rolando infinitamente a tela do telefone, eu percebia que já estava por dentro de todas as fofocas possíveis, tinha assistido inúmeros stories no Instagram e lido trocentos tweets que, sinceramente, nem mereciam minha atenção. Mesmo assim, continuava ali, presa numa espécie de piloto automático digital que me deixava mentalmente cansada sem que eu tivesse, de fato, absorvido algo relevante.
Também tenho escrito mais à mão. E talvez uma das melhores coisas que o processo do meu trabalho de conclusão de curso tenha me proporcionado até agora seja justamente essa volta do toque do papel e da caneta nas minhas mãos diariamente. Todas as perguntas das entrevistas que tenho feito, ao invés de abrir o Google Docs e despejar tudo mecanicamente ali, eu pego meu caderninho e anoto à mão mesmo. Isso aí, praticamente como os incas, maias e astecas faziam.
E, por mais banal que pareça, sinto que esse pequeno gesto tem me reconectado comigo mesma de alguma forma. Existe algo diferente quando a ideia precisa atravessar o corpo antes de virar palavra no papel. A escrita manual me obriga a desacelerar o pensamento, organizar melhor as frases e prestar atenção no que estou realmente querendo dizer, sem aquela velocidade ansiosa do teclado.
Na faculdade e na escola, sempre fui a pessoa do caderno, da lapiseira e da caneta. Nunca gostei de digitar anotações em aula. Mas ultimamente tenho tido poucas disciplinas e, em nenhuma delas, preciso anotar alguma coisa durante as aulas. Foi aí que percebi o quanto sentia falta desse hábito. Hoje, quando vou a uma palestra, por exemplo, levo meu caderninho comigo e anoto tudo. Não porque seja mais prático, muito pelo contrário, mas porque me faz sentir presente de verdade naquele momento.
Acho que a necessidade mais urgente da geração Z — e talvez da Alpha também — seja reaprender a estar presente. Presente de verdade. Sem uma segunda tela. Sem a ansiedade constante de registrar tudo. Sem transformar cada experiência em conteúdo antes mesmo de vivê-la por completo.
Até o flerte evaporou.
As pessoas saem para bares, restaurantes, festas e noitadas, mas quase não se olham mais. É como se estivéssemos todos fisicamente no mesmo ambiente, mas emocionalmente ausentes, ocupados demais acompanhando outras vidas pela tela do celular. Outro dia parei para observar uma mesa cheia num bar e percebi que, em vários momentos, ninguém estava conversando de fato. Cada pessoa mergulhada no próprio aparelho, deslizando o dedo infinitamente para cima como se existisse algo mais interessante acontecendo em outro lugar.
E talvez seja justamente daí que venha essa sensação coletiva de que “a pista está salgada”. Porque não é só sobre falta de pessoas interessantes. É também sobre a incapacidade crescente de criar presença, espontaneidade e curiosidade genuína pelo outro. O flerte exige atenção. Exige observação. Exige correr o risco do constrangimento, da pausa, da conversa ruim, da hesitação. Mas tudo isso parece incompatível com uma geração acostumada à mediação constante das telas, dos algoritmos e das respostas instantâneas.
Ninguém mais sustenta o desconforto inicial de conhecer alguém — romanticamente ou não — sem recorrer imediatamente ao celular como rota de fuga. Qualquer pausa na conversa, qualquer silêncio de poucos segundos ou qualquer mínimo constrangimento já parece suficiente para que alguém desbloqueie a tela automaticamente, como se a possibilidade de simplesmente permanecer ali, presente, tivesse se tornado insuportável. E acho que isso diz muito sobre o momento em que estamos vivendo.
Talvez seja por isso que eu tenha a sensação de que existe um retorno silencioso — e quase desesperado — ao analógico. Não como uma rejeição absoluta da tecnologia, porque isso seria impossível, mas como uma tentativa quase instintiva de recuperar experiências que ainda carreguem presença, demora e materialidade em um mundo cada vez mais acelerado e intangível.
Na contramão dos óculos inteligentes criados pela Meta em parceria com a Ray-Ban, que prometem registrar, fotografar, filmar e compartilhar a vida em tempo real a partir do próprio rosto humano, sinto que existe um movimento paralelo acontecendo de forma quase silenciosa: o desejo crescente de viver experiências que não estejam permanentemente mediadas por uma tela.
Enquanto a tecnologia avança na tentativa de transformar cada instante da existência em dado, conteúdo e registro imediato, muita gente parece começar a desejar justamente o oposto. A possibilidade de voltar a experimentar momentos que não precisem ser capturados o tempo inteiro. Que possam simplesmente existir, desaparecer e sobreviver apenas na memória.
As pessoas voltaram a fotografar com câmeras digitais antigas, analógicas e até descartáveis, aceitando o fato de que não verão o resultado imediatamente depois do clique. Abrir mão da instantaneidade da câmera do celular talvez seja também abrir mão dessa necessidade contemporânea de consumir a própria vida em tempo real, como se cada momento precisasse ser imediatamente validado pela própria imagem.
Quando uma fotografia precisa ser revelada, ela volta a carregar expectativa. Suspense. Tempo. Você não sabe exatamente como saiu a imagem. Não pode apagá-la compulsivamente. Não pode repetir o mesmo clique cinquenta vezes até alcançar uma perfeição impossível. A foto deixa de ser apenas conteúdo e volta a ser memória.
E talvez seja justamente isso que minha geração esteja procurando sem conseguir nomear direito: experiências que não aconteçam na velocidade do feed. Coisas que nos obriguem a esperar um pouco mais. A olhar com mais atenção. A sustentar o presente sem precisar transformá-lo imediatamente em registro, postagem ou prova de existência.
No fim das contas, acho que o retorno do analógico fala menos sobre nostalgia e mais sobre sobrevivência emocional. Sobre tentar recuperar uma relação mais humana com o tempo, com o silêncio e até com nós mesmos. Porque, apesar de toda a tecnologia que promete prever nossos gostos, desejos e comportamentos, talvez os algoritmos da vida real ainda sejam muito mais divertidos. Diferente das redes sociais, que frequentemente nos mantêm presos a versões previsíveis daquilo que já consumimos, a vida offline ainda preserva uma das experiências mais raras da contemporaneidade: a possibilidade de sermos surpreendidos pelo acaso.
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