Todos os anos o 8 de março retorna acompanhado de um ritual totalmente previsível. As vitrines se enchem de flores, as empresas publicam mensagens elogiosas e as redes sociais se transformam em um grande mural de homenagens às mulheres. Durante algumas horas instala-se um clima quase festivo, como se a data tivesse sido criada para celebrar uma ideia abstrata de feminilidade.
Mas o Dia Internacional das Mulheres não nasceu de um gesto gentil. Ele nasceu de um conflito social.
No início do século XX, mulheres trabalhadoras começaram a organizar greves e protestos contra jornadas exaustivas, salários muito inferiores aos dos homens e condições de trabalho que tratavam o corpo feminino como força produtiva descartável. Em 1917, cerca de noventa mil operárias russas saíram às ruas de Petrogrado exigindo “Pão e Paz”. Protestavam contra a fome, contra a Primeira Guerra Mundial e contra o empobrecimento generalizado da população.
A partir deste episódio, o 8 de março passou a ser lembrado internacionalmente como um marco das lutas femininas por direitos.
Décadas depois, em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu oficialmente o Dia Internacional da Mulher. O objetivo era estabelecer um momento de reflexão sobre igualdade política, econômica e social. Essa origem, no entanto, raramente aparece quando a data é celebrada.
No lugar da memória histórica, instala-se uma forma confortável de homenagem que evita discutir o problema central: as mulheres continuam lutando pelo direito mais elementar, o de permanecer vivas.
No Brasil, os números da violência de gênero continuam a crescer. Em janeiro de 2026, o Judiciário brasileiro registrou 947 novos processos relacionados a feminicídio, número 3,49% maior que o registrado em janeiro de 2025, quando foram contabilizados 915 casos.
Estes dados revelam a persistência de uma violência que atravessa a vida cotidiana das mulheres brasileiras.
A cada semana surge uma nova manchete. Uma nova mulher assassinada por companheiros ou ex-companheiros. Quase sempre dentro de casa. Quase sempre depois de um histórico de ameaças que já haviam sido denunciadas.
Diante dessa realidade, receber flores parece um gesto pequeno demais para o tamanho do problema.
Ao longo do último século, as mulheres conquistaram direitos que transformaram profundamente a organização das sociedades. No Brasil, o direito ao voto feminino foi reconhecido em 1932, após anos de mobilização liderada por figuras como Bertha Lutz. O acesso das mulheres ao ensino superior começou a se tornar possível ainda no final do século XIX, quando Rita Lobato se formou médica em 1887, tornando-se a primeira mulher diplomada em medicina no país.
A presença feminina nas universidades, no entanto, só se ampliaria de forma consistente ao longo do século XX.
A participação das mulheres no mercado de trabalho também cresceu gradualmente, especialmente a partir da década de 1970, quando transformações econômicas e sociais ampliaram sua presença em profissões antes consideradas masculinas.
No campo jurídico, avanços importantes ocorreram nas últimas décadas. A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, criou mecanismos específicos para combater a violência doméstica. Já a Lei do Feminicídio, aprovada em 2015, passou a reconhecer o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime qualificado no Código Penal brasileiro.
Essas conquistas, no entanto, nunca foram concessões espontâneas. Foram resultado de pressão política, organização coletiva e enfrentamento direto de estruturas que, por muito tempo, consideraram as mulheres cidadãs de segunda categoria.
No Brasil, essa história pode ser observada nas trajetórias de mulheres que desafiaram os limites impostos pelo seu tempo.
Bertha Lutz, bióloga formada pela Universidade de Paris e funcionária do Museu Nacional, foi uma das principais articuladoras da campanha pelo voto feminino no país. Em 1919 fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e pressionou diretamente o Congresso Nacional até que o direito ao voto fosse reconhecido em 1932.
Enedina Alves Marques tornou-se, em 1945, a primeira engenheira negra formada no Brasil pela Universidade Federal do Paraná. Filha de uma trabalhadora doméstica, construiu carreira em um campo dominado por homens e participou de projetos de infraestrutura importantes no estado do Paraná.
No campo científico contemporâneo, pesquisadoras como Tatiana Sampaio representam uma geração que continua ampliando a presença feminina em áreas técnicas e acadêmicas.
Na moda, Zuzu Angel transformou o vestuário em instrumento de denúncia política durante a ditadura militar brasileira. Após o desaparecimento e assassinato de seu filho, Stuart Angel Jones, em 1971, passou a utilizar suas coleções para denunciar internacionalmente a violência do regime. Em seus desfiles, vestidos e bordados com imagens perturbadoras passaram a incorporar símbolos como anjos, pássaros engaiolados e referências à repressão, levando às passarelas uma denúncia que atravessava fronteiras e chamava a atenção para os crimes brutais da época da ditadura.
Entre as estilistas contemporâneas, diferentes criadoras continuam ampliando a presença feminina na moda brasileira. Ana Luisa Fernandes, fundadora da marca ALUF, desenvolve coleções marcadas por experimentações esculturais, pregas e volumes que investigam a relação entre movimento e forma. Isabela Capeto construiu uma marca reconhecida pelo trabalho minucioso com bordados e técnicas artesanais, valorizando processos manuais e referências culturais brasileiras.
Heloisa Strobel, fundadora da marca Reptilia, desenvolve um trabalho voltado à moda sustentável, utilizando fibras naturais, tingimentos orgânicos e processos artesanais de produção. Sasha Meneghel, fundadora e diretora criativa da marca Mondepars, tem desenvolvido um trabalho centrado em alfaiataria contemporânea, com peças de linhas limpas, cortes precisos e uma proposta de guarda-roupa durável.
Lenny Niemeyer consolidou internacionalmente o beachwear brasileiro ao transformar o biquíni em um produto de design sofisticado associado à paisagem cultural do litoral do país.
No cinema, a recente vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em 2025 marcou um momento importante para o audiovisual brasileiro: o reconhecimento internacional de sua atuação como Eunice Paiva no longa Ainda Estou Aqui.
Eunice Paiva foi uma das vozes mais firmes na luta por memória e justiça após o desaparecimento e assassinato de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, pela ditadura militar em 1971. Durante décadas, dedicou-se à defesa dos direitos humanos e à busca pela responsabilização do Estado brasileiro pelos crimes cometidos durante o regime militar.
Fernanda Montenegro tornou-se a primeira atriz latino-americana indicada ao Oscar de melhor atriz por sua atuação em Central do Brasil em 1999.
Sonia Braga levou o cinema brasileiro ao circuito internacional a partir dos anos 1970 com filmes como Dona Flor e Seus Dois Maridos.
Ruth de Souza abriu caminhos históricos ao tornar-se a primeira atriz negra a se apresentar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro em 1945.
Na música brasileira, Elza Soares construiu uma trajetória marcada pela força interpretativa e pela denúncia social. Sua canção A Carne tornou-se um manifesto contra o racismo estrutural.
Rita Lee redefiniu o lugar da mulher no rock brasileiro. Integrante da banda Os Mutantes no final dos anos 1960, participou diretamente da revolução estética promovida pelo tropicalismo. Em carreira solo, consolidou sua autonomia artística com discos como Fruto Proibido (1975) e sucessos como Ovelha Negra e Lança Perfume, nos quais tratava de desejo, independência e liberdade feminina com humor, irreverência e um temperamento assumidamente desbocado.
Elis Regina estabeleceu um padrão interpretativo singular na música popular brasileira. Sua interpretação de O Bêbado e a Equilibrista tornou-se uma das canções mais marcantes do período da ditadura militar.
Entre as artistas contemporâneas, nomes como Duquesa, Ebony e a dupla Tasha & Tracie vêm ampliando o espaço de mulheres dentro da música urbana brasileira, especialmente em gêneros como o rap e o trap.
Duquesa constrói letras que transitam entre vulnerabilidade emocional e afirmação feminina.
Ebony ganhou destaque por uma escrita direta que aborda sexualidade, poder feminino e independência.
Já Tasha & Tracie, irmãs gêmeas da zona norte de São Paulo, articulam em suas composições temas como identidade negra, autoestima e pertencimento periférico.
Nas artes visuais, Tarsila do Amaral produziu uma das obras mais emblemáticas do modernismo brasileiro, o Abaporu.
Anita Malfatti provocou um dos debates mais importantes da história da arte brasileira com sua exposição de 1917.
Patrícia Galvão, a Pagu, foi escritora, jornalista e militante política, além de uma das primeiras mulheres presas por motivos políticos durante o governo Vargas.
Na política, Luiza Erundina tornou-se a primeira mulher eleita prefeita de São Paulo em 1988.
Dilma Rousseff foi eleita em 2010 como a primeira mulher presidente do Brasil.
Benedita da Silva tornou-se a primeira mulher negra a governar o estado do Rio de Janeiro.
Marielle Franco, socióloga e vereadora, foi assassinada em 2018 após denunciar abusos policiais e defender direitos humanos nas periferias cariocas.
No esporte, Marta Vieira da Silva tornou-se a maior artilheira da história das Copas do Mundo.
Rebeca Andrade elevou a ginástica brasileira ao topo do cenário olímpico.
Rayssa Leal conquistou medalha olímpica no skate aos treze anos.
Daiane dos Santos entrou para a história da ginástica ao executar movimentos inéditos que passaram a levar seu nome.
Na televisão brasileira, algumas trajetórias ajudam a compreender como mulheres passaram a ocupar posições centrais em um meio historicamente controlado por homens.
Gloria Maria tornou-se uma das primeiras mulheres negras a alcançar projeção nacional no telejornalismo televisivo. Ana Maria Braga consolidou um formato de programa matinal que mistura informação, culinária e conversa direta com o público.
Hebe Camargo foi uma das primeiras mulheres a comandar programas de auditório no país. Xuxa Meneghel transformou o entretenimento infantil a partir do final dos anos 1980. Marília Gabriela construiu uma carreira marcada por entrevistas muito bem feitas. Dercy Gonçalves atravessou o teatro, o rádio e a televisão com um humor irreverente que desafiava as convenções morais.
Na literatura, Clarice Lispector revolucionou a narrativa brasileira ao explorar as profundezas da consciência humana em romances como A Paixão Segundo G.H. e A Hora da Estrela, nos quais a linguagem se torna um instrumento de investigação existencial. Hilda Hilst, por sua vez, construiu uma obra radicalmente experimental em livros como A Obscena Senhora D. e Cartas de um Sedutor, nos quais misturava poesia, filosofia e erotismo para questionar limites da linguagem, da fé e da própria condição humana.
Maria Firmina dos Reis publicou em 1859 o romance Úrsula, considerado o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher no Brasil.
Entre as autoras contemporâneas, Carla Madeira, Socorro Acioly e Aline Bei ampliam hoje o repertório da literatura brasileira. Carla Madeira conquistou grande circulação com romances como Tudo é Rio e Véspera, nos quais investiga as tensões das relações humanas, do desejo e da culpa. Socorro Acioly construiu uma obra marcada pelo diálogo com a tradição oral e o imaginário nordestino, como em A Cabeça do Santo, romance que mistura realismo e elementos do fantástico. Já Aline Bei ganhou destaque com O Peso do Pássaro Morto e Pequena Coreografia do Adeus, obras que exploram perdas, amadurecimento e violência a partir de uma escrita que mistura prosa e ritmo poético.
No campo do comportamento, Leila Diniz desafiou a moral de bons costumes cultivados durante a ditadura. Atriz de cinema e televisão, tornou-se mais conhecida pela forma direta e irreverente com que falava sobre sexo, desejo, maternidade e liberdade feminina. A reação foi imediata: após uma de suas entrevistas mais célebres, o regime militar endureceu o controle sobre declarações de artistas e intelectuais à imprensa, medida que ficou conhecida como “Decreto Leila Diniz”. A imagem da atriz grávida de biquíni em Ipanema acabou se tornando um símbolo duradouro da autonomia do corpo feminino em um período marcado por censura e repressão.
Todas essas trajetórias mostram algo evidente. Quando as mulheres ocupam espaço, transformam profundamente a sociedade.
Mas o 8 de março existe justamente para lembrar que cada uma dessas conquistas foi obtida em meio a disputas sociais muito concretas.
Por isso a data não pode ser reduzida a um gesto educado de homenagem, traduzido em um bombom entregue no trabalho com um bilhete protocolar ou em um buquê de rosas vermelhas oferecido como lembrança ocasional.
O 8 de março não nasceu da delicadeza. Ele nasceu da luta.
E enquanto mulheres continuarem sendo assassinadas pelo simples fato de serem mulheres, talvez ainda seja necessário repetir aquilo que deveria ser óbvio em qualquer sociedade civilizada: o direito de existir.
Por isso, não nos dê flores.
Nos deixem vivas.
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