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moda e etcetera · Jul 25, 2026

A distopia de 1984, agora na versão Meta AI Glasses — but make it fashion

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Existe uma habilidade que as big techs aperfeiçoaram talvez melhor do que qualquer tecnologia que dizem ter inventado: transformar aquilo que deveria provocar algum desconforto em objeto de desejo. Ser vigiado é desagradável. Ter os dados coletados continuamente parece invasivo. Circular com uma câmera permanentemente apontada para outras pessoas levanta questões inconvenientes sobre privacidade, consentimento e os limites entre olhar e registrar. Agora coloque tudo isso dentro de uma armação bonita, atemporal e clássica, acrescente inteligência artificial, invista alguns milhões numa campanha sobre como o futuro finalmente chegou e, se ainda restar alguém desconfiado, chame a Kylie Jenner. Pronto.

O aparato deixa de parecer assustador e passa a ser desejável. Afinal, aparentemente basta colocar uma logomarca que clame por status diante dos olhos para que muita gente se esqueça de perguntar quem está olhando de volta.

Para quem passou os últimos meses em Marte e não faz ideia do que estou falando, eis uma breve atualização.

Os óculos inteligentes desenvolvidos pela Meta em parceria com a EssilorLuxottica, grupo responsável pela Ray-Ban, fazem parte de uma tentativa bastante ambiciosa de retirar o celular do centro da experiência digital sem, evidentemente, retirá-lo por completo de nossas vidas. A câmera passa a integrar aquilo que alguns usam como acessório na face, microfones acompanham o usuário, alto-falantes permanecem próximos aos ouvidos e IA pode responder perguntas sobre aquilo que está diante de nós, enquanto fotos e vídeos são registrados em primeira pessoa sem aquela coreografia bastante reconhecível de sacar o telefone, desbloquear a tela, abrir a câmera, escolher um enquadramento e apontá-la para algum lugar.

Parece fantástico, né?

Pelo menos até a gente pensar por mais de cinco minutos antes de começar a aplaudir, coisa que, convenhamos, pouca gente parece disposta a fazer. Pensar melhor dá trabalho, exige alguma desconfiança e ainda carrega o risco inconveniente de estragar a novidade. Muito mais fácil substituir reflexão pela excitação fervorosa de quem acabou de descobrir que precisa urgentemente de um item do qual, até minutos atrás, nem sabia sentir falta.

Ahh, o doce sabor do capitalismo... Começa açucarado nas papilas gustativas, agradável o suficiente para pedir mais, e só depois deixa aquele amargor persistente no céu da boca. Mas, a essa altura... Ops! Já engolimos…

Só que existe uma pergunta menos divertida circulando junto com toda essa euforia: quantas mulheres já foram filmadas por homens usando esses dispositivos sem sequer perceber que havia uma câmera diante delas?

Casos de abordagens registradas sem consentimento começaram a alimentar discussões sobre assédio e privacidade, principalmente quando aquilo que deveria ser uma interação entre duas pessoas deixa de pertencer apenas àquele instante e passa a existir também como matéria-prima para conteúdo; ou quando alguém simplesmente decide capturar o corpo de outra pessoa para ridicularizá-lo, comentá-lo, sexualizá-lo ou oferecê-lo ao julgamento de milhares de desconhecidos sem pedir qualquer tipo de permissão.

O que me leva a pensar que, se Guy Debord ainda estivesse entre nós, talvez pudesse pedir royalties.

Quando publicou A Sociedade do Espetáculo, em 1967, Debord descreveu um mundo no qual a experiência vivida começava a ceder espaço à sua representação, como se estar no mundo já não bastasse e fosse necessário convertê-lo em imagem para que adquirisse valor. Quase seis décadas depois, conseguimos levar essa lógica a um estágio que talvez nem ele tivesse considerado suficientemente absurdo.

Debord escreveu sobre relações sociais mediadas por imagens. Nós aparentemente achamos pouco. E resolvemos instalar a mediação diretamente sobre os olhos.

É uma espécie de triunfo do espetáculo, no qual já não precisamos procurá-lo porque qualquer coisa ao redor pode ser incorporada a ele: uma conversa, uma caminhada, um desconhecido, uma mulher esperando o ônibus, alguém sentado na mesa ao lado. A grande promessa desses óculos é justamente eliminar os últimos segundos que ainda separavam a experiência de seu registro, até que enxergar e capturar, viver e documentar, presenciar e publicar se aproximem perigosamente de significar a mesma coisa.

E, quanto mais indispensável se torna para enxergarmos, lembrarmos, nos comunicarmos e existirmos socialmente, mais dependentes ficamos das empresas que controlam essa infraestrutura. Aos poucos, terceirizamos nossos trajetos, nossa memória, nossas preferências, nossa atenção e uma parcela considerável das nossas decisões para corporações que já sabem onde estamos, o que compramos, quem seguimos, aquilo que desejamos e com quem conversamos.

Faltava-lhes, talvez, descobrir exatamente para onde estávamos olhando.

É aqui que George Orwell começa a parecer menos um escritor de ficção e mais alguém que teve o azar de morrer cedo demais para assistir à atualização do próprio pesadelo.

Em 1984, o Grande Irmão precisava de teletelas espalhadas pelos espaços públicos e privados para garantir que ninguém escapasse completamente de seu campo de visão. O controle era ostensivo, autoritário e, sobretudo, reconhecível como tal. Havia, pelo menos, alguma honestidade no horror: todos sabiam que estavam sendo observados.

Nós conseguimos tornar o processo consideravelmente mais elegante. Eliminamos a necessidade de instalar qualquer aparelho na parede de casa porque aceitamos carregá-lo no bolso. Depois, no pulso. Agora, escancarado na nossa cara.

E fizemos tudo voluntariamente, gastando rios de dinheiro, acompanhando cada lançamento, discutindo especificações técnicas e escolhendo cuidadosamente qual modelo combina melhor com o nosso estilo pessoal.

No Grande Irmão contemporâneo, a novidade é que nós mesmos pagamos pela entrada dele. E, se o preço assustar, sempre dá para parcelar em até 12 vezes sem juros.

Também não é necessário exigir nossa localização quando a entregamos alegremente em troca de uma rota alguns minutos mais rápida. Ninguém precisa arrancar informações sobre nossos gostos quando passamos horas ensinando ao algoritmo aquilo que nos interessa, o que nos irrita, quem desejamos, onde comemos, para onde viajamos e quanto estamos dispostos a gastar. Da mesma maneira, não é preciso nos obrigar a manter uma câmera por perto quando podemos ser convencidos de que carregá-la diante dos olhos é apenas mais uma comodidade da vida moderna.

Continuamos apertando “aceito os termos e condições” sem ler, concedendo permissões das quais esqueceremos pouco tempo depois e alimentando sistemas cuja dimensão dificilmente compreendemos, desde que, em troca, eles nos poupem alguns segundos de esforço.

Seria simplista, claro, imaginar Mark Zuckerberg confortavelmente afundado numa poltrona reclinável de couro, uma xícara de espresso ao alcance da mão, acompanhando em tempo real tudo aquilo que milhões de pessoas enxergam através dos próprios óculos, como uma espécie de Grande Irmão gourmetizado do Vale do Silício.

O problema é bem menos cinematográfico. E justamente por isso mais interessante. Está concentrado no poder acumulado por empresas privadas que passaram a ocupar espaços progressivamente mais íntimos da experiência humana. Primeiro organizaram aquilo que aparecia em nossas telas. Depois aprenderam a mapear nossos hábitos e interferir no que consideramos relevante. Agora, a própria tela começa a desaparecer para que a realidade possa se transformar em iuma nova espécie de interface.

Durante décadas, olhamos para o desenvolvimento tecnológico imaginando que, por volta de 2030, estaríamos atravessando cidades em carros voadores, cercados por robôs que se assemelham aos humanos e vivendo aquela versão espalhafatosa de futuro que o cinema passou boa parte do século XX prometendo.

Curiosamente, um dos filmes que mais cedo tentou imaginá-lo foi Metrópolis, dirigido pelo alemão Fritz Lang e lançado em 1927. A história se passa justamente em 2026, o nosso pouco expressionista ano vigente, e apresenta uma cidade monumental dividida entre uma elite que desfruta das maravilhas proporcionadas pelo progresso e uma massa de trabalhadores condenada ao subterrâneo, onde opera as máquinas responsáveis por manter aquele paraíso funcionando. Arranha-céus rasgam o horizonte, avenidas se sobrepõem, engrenagens gigantescas dominam a paisagem e até uma mulher artificial, a célebre Maschinenmensch, aparece como uma antecipação extraordinariamente precoce da possibilidade de fabricar uma presença humana por meio da técnica.

Lang imaginou 2026 com uma estética grandiosa porque, em 1927, parecia razoável supor que uma transformação radical da sociedade produziria também uma mudança igualmente radical da paisagem.

Bem, acontece que ele se equivocou quanto ao cenário, mas acertou coisas muito mais importantes.

Não, infelizmente ainda não temos carros voadores congestionando o céu de São Paulo, embora, diante do trânsito cada vez mais caótico lá embaixo, talvez essa seja uma das poucas previsões futuristas que valesse a pena apressar. Com os robôs, no entanto, a ficção científica já começou a perder a exclusividade. China e Japão desenvolvem e testam humanoides destinados a tarefas cada vez mais próximas do cotidiano; nos Estados Unidos, Elon Musk aposta no Optimus, da Tesla, com a promessa de colocá-lo primeiro nas fábricas e, eventualmente, dentro das casas. Eles ainda tropeçam, falham e permanecem consideravelmente distantes daquela autonomia extraordinária prometida nas apresentações corporativas, mas o simples fato de já existirem fora das telas mostra que algumas fantasias sobre o futuro chegaram ao presente antes mesmo que tivéssemos tempo de parar de chamá-las de ficção.

Lang imaginou que reconheceríamos aquilo que governaria o futuro porque seria monumental, barulhento, metálico, ameaçador, impossível de ignorar. O poder ocuparia muito espaço, faria ruído, exibiria suas engrenagens e denunciaria sua presença na paisagem.

Nós seguimos pelo caminho oposto. O mecanismo tornou-se tão eficiente que já não precisamos enxergá-lo para obedecer à sua lógica. Não precisa ocupar o horizonte com fumaça e parafernálias porque se infiltrou nos objetos mais banais da existência: no telefone que sabe onde estamos, no relógio que contabiliza nossos passos, na televisão que aprende o que assistimos, no algoritmo que antecipa aquilo que provavelmente desejaremos comprar, no anel que monitora a qualidade do nosso sono e, agora, nos óculos posicionados precisamente na fronteira entre os nossos olhos e o mundo lá fora.

Por trás dessa experiência aparentemente imaterial continuam existindo trabalhadores, centros de distribuição, moderadores de conteúdo, entregadores comandados por algoritmos, pessoas responsáveis por rotular dados utilizados no treinamento de sistemas de inteligência artificial e enormes data centers consumindo recursos para sustentar aquilo que, diante da tela, parece acontecer magicamente com um toque.

O subterrâneo de Metrópolis foi terceirizado. Eis uma evolução que Fritz Lang talvez apreciasse: a máquina não precisa mais ocupar o centro da cidade quando consegue ocupar o centro da nossa rotina.

É nesse contexto que a escolha de Kylie Jenner ganha contornos particularmente interessantes.

Convidar uma empresária e uma das figuras mais influentes da cultura digital para assinar uma linha própria de óculos tecnológicos, com armações de aparência mais feminina, é uma maneira bastante esperta de retirar do produto qualquer vestígio daquilo que poderia causar estranhamento. Kylie cumpre a função de tornar familiar e atraente um dispositivo que, descrito apenas por aquilo que é capaz de fazer, talvez causasse alguma desconfiança antes de se transformar em objeto de desejo. Afinal, uma câmera equipada com inteligência artificial diante dos nossos olhos pode soar um tanto invasiva. No rosto de Kylie Jenner, porém, vira o acessório mais descolado do momento e, sem sombra de dúvida, o próximo must-have da temporada.

A estratégia já é bastante conhecida: quando a tecnologia parece invasiva demais, a moda entra em cena para fazer com que a gente se esqueça, por alguns instantes, exatamente do que está comprando.

Portanto, escolhe-se uma mulher cuja imagem movimenta tendências e comportamentos de consumo há mais de uma década, desenha-se uma armação suficientemente bonita e desloca-se a conversa daquilo que o objeto é capaz de fazer para aquilo que ele passa a representar.

O gadget tem câmera, microfone, inteligência artificial e acesso a uma quantidade considerável daquilo que acontece ao nosso redor. Mas olha como fica bonito nela. É mais ou menos esse o raciocínio que a peça publicitária pretende instalar na cabeça do possível comprador: fazer com que a atração pelo objeto chegue alguns segundos antes de qualquer pergunta sobre aquilo que ele é capaz de fazer.

E é justamente aqui que a história fica mais interessante: alguém resolveu fazer com a campanha aquilo que a publicidade raramente gostaria que fizéssemos:

Olhar duas vezes. E, principalmente, de outro ângulo.

De acordo com o site Hyperallergic, o grupo ativista britânico Everyone Hates Elon, cujo nome é convenientemente autoexplicativo, resolveu interferir na campanha e instalou uma versão não autorizada da imagem em um ponto de ônibus próximo à sede da Meta, em Londres. A intervenção ganhou um efeito lenticular, semelhante àquelas imagens tridimensionais que revelam figuras diferentes conforme inclinamos um cartão. Dependendo do ângulo de quem olha, a cena se transforma diante dos olhos.

De uma posição, Kylie aparece impecavelmente sedutora usando um dos modelos que levam seu nome. Basta caminhar alguns centímetros e a publicidade sofre uma pequena crise de sinceridade.

Duas fotos de uma publicidade de ponto de ônibus. À esquerda, a normal, com uma mulher usando óculos da Meta. À direita, a mesma mulher em um “raio-x” desenhado, com a mensagem “We're always watching” embaixo.
Hyperallergic/Reprodução

O rosto da empresária se converte numa espécie de raio-X de seu crânio e a mensagem dá lugar a um nada tranquilizador:

WE’RE ALWAYS WATCHING.

Estamos sempre observando.

Há ainda uma referência evidente a They Live, filme de John Carpenter lançado em 1988, no qual um par de óculos permite ao protagonista enxergar aquilo que a paisagem publicitária trabalha para esconder. Anúncios aparentemente banais passam a revelar comandos de consumo, conformidade e obediência. Carpenter imaginou lentes capazes de desmontar a encenação da propaganda e expor seu mecanismo.

Quase quarenta anos depois, um coletivo londrino precisou adulterar uma propaganda de óculos para realizar exatamente o mesmo exercício. A ironia é tão perfeita que quase parece encomendada pela própria Meta.

E a intervenção acerta precisamente onde a presença de Kylie funciona melhor. A campanha original diz: olhe para ela. Olhe para a armação. Olhe como o futuro pode ser bonito, feminino, desejável, perfeitamente instagramável.

Enquanto a versão adulterada responde:

agora olhe para aquilo que está olhando de volta para você.

A verdade é que passamos tanto tempo imaginando as mil maravilhas que enxergaríamos através da tecnologia que nos esquecemos de perguntar o que ela passaria a enxergar através de nós. Orwell imaginou um mundo em que as pessoas temiam estar sob os olhos do Grande Irmão. Guy Debord anteviu outro em que a experiência seria progressivamente substituída por sua representação, até que viver e produzir imagens da própria vida se tornassem quase indissociáveis. De maneiras distintas, os dois compreenderam que o poder não depende apenas de controlar aquilo que fazemos, mas também o que vemos, mostramos e, principalmente, a maneira como passamos a nos comportar quando sabemos que podemos estar sendo observados.

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Read the original on modaeetcetera.substack.com

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