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moda e etcetera · Jun 2, 2026

Mondepars regida pelas mãos de (f)ALDA

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Na última quarta-feira, 27 de maio, a Mondepars apresentou “ALDA”, sua nova coleção de inverno, e talvez o mais impressionante seja perceber que, apenas em seu terceiro desfile, a marca já alcançou algo que muitas etiquetas passam décadas tentando construir sem sucesso: identidade. Você olha para as roupas e imediatamente entende de onde elas vieram, mesmo sem precisar procurar a etiqueta. Existe uma assinatura muito clara ali. Uma coerência estética que não nasce da tentativa desesperada de ser “a próxima grande revolução da moda brasileira”, mas justamente do contrário. Da permanência. Da insistência. Do refinamento contínuo de códigos visuais até que eles deixem de parecer apenas referências e se transformem em linguagem própria.

E a verdade é que isso já aconteceu. Basta olhar para uma roupa na passarela ou para uma celebridade vestindo a marca para identificar imediatamente que aquilo pertence ao repertório da Mondepars, e talvez seja justamente aí que a grife demonstre ter encontrado algo que muitas marcas levam anos tentando alcançar sem sucesso: reconhecimento visual imediato. E curiosamente isso não acontece apenas pelos elementos mais “excêntricos” ou viralizáveis, como os acessórios de madeira que recentemente chamaram atenção na capa da Vogue de fevereiro de 2026 com o cantor porto-riquenho Bad Bunny. A identidade da marca parece estar em outro lugar, muito mais sofisticado e difícil de construir.

Ela está na alfaiataria. Na maneira como as camisas aparecem com mangas e colarinhos duplos. Nos cortes amplos, mas extremamente precisos. Nas proporções limpas. Nos tons sóbrios que, isoladamente, poderiam parecer comuns, mas que dentro daquele repertório se tornam imediatamente reconhecíveis. Existe uma coerência cromática muito forte ali. Marrons, beges, verdes profundos, cinzas, tons de berinjela e preto conversam perfeitamente não apenas entre si, mas com toda a arquitetura imagética da marca. As roupas parecem dialogar com toda a atmosfera visual que sustenta o imaginário da marca. Existe algo muito orgânico nisso tudo, como se a Mondepars fosse uma extensão natural da sensibilidade de Sasha e não um mecanismo artificialmente calculado apenas para vender roupa.

E isso também explica por que a marca flerta tão intensamente com o universo da arquitetura contemporânea e do mobiliário modernista. Na coleção passada, por exemplo, a Mondepars mergulhou nas criações do arquiteto e designer polonês naturalizado brasileiro Jorge Zalszupin, absorvendo linhas, volumes e estruturas típicas do modernismo brasileiro. Existe um pensamento espacial muito evidente na forma como Sasha constrói roupas e narrativas. As peças parecem concebidas não apenas como vestimenta, mas como estruturas que ocupam o corpo com a mesma precisão escultórica de um móvel modernista ou de uma arquitetura contemporânea.

Sasha não parece interessada em reinventar a roda, e talvez esse seja justamente o maior acerto da Mondepars.

Eu sempre preciso de um tempo para maturar aquilo que vejo em um desfile. Às vezes preciso reassistir. Rever um look específico. Observar novamente a maneira como um tecido se movimentava. Pensar na trilha sonora horas depois. Deixar certas imagens sedimentarem dentro de mim até que finalmente encontrem linguagem. Moda, para mim, nunca funcionou na velocidade ansiosa da timeline. Algumas coleções exigem certa digestão antes de qualquer análise. E talvez eu tenha a sorte de poder me dar esse luxo. Não escrevo sob a urgência de resumir um desfile em meia dúzia de adjetivos apressados para alimentar a máquina incessante dos grandes portais. Meu processo é mais orgânico do que isso. Gosto de entender primeiro o que realmente permaneceu em mim depois que o espetáculo termina. O que continua ecoando quando fecham as cortinas, os flashes desaparecem e o algoritmo já começou a procurar o próximo assunto da semana. Por isso minhas análises quase sempre demoram. E aprecio o tempo de maturação das minhas ideias. Porque elas nascem depois da euforia instantânea passar. (Também porque estamos no fim do semestre e meu TCC atualmente consome boa parte da minha capacidade cognitiva e das minhas horas de sono, mas isso é apenas um pequeno detalhe.)

Talvez tenha sido justamente por isso que ALDA continuou reverberando dentro de mim dias depois do desfile. Grande parte da moda contemporânea parece viver aprisionada pela compulsão da reinvenção constante, como se continuidade fosse sinônimo de estagnação criativa. E pra ser bem sincera, acho que esse discurso começou a envelhecer. Existe algo exaustivo nessa obrigação de performar genialidade a cada coleção, como se toda marca precisasse anunciar uma ruptura memorável a cada temporada para justificar a própria existência. Ao meu ver, para a Mondepars, a linguagem se constrói pela repetição refinada, por insistência imagética, e elaboração contínua de um universo autoral.

ALDA nasce justamente desse retorno às origens. A coleção mergulha na trajetória de Dona Alda Meneghel, avó de Sasha, artista, costureira, pintora e uma das responsáveis pelos primeiros figurinos de Xuxa no início da carreira, incluindo algumas as icônicas ombreiras e as botas brancas que ajudaram a consolidar a imagem da apresentadora nos anos 1980.

Mas o desfile parecia ir além de uma homenagem afetiva. Em muitos momentos, assumia quase o caráter de uma investigação genealógica emocional, como se Sasha estivesse tentando rastrear de onde vieram certos traços que hoje estruturam sua própria sensibilidade, sua relação com a arte e até sua maneira de enxergar o mundo.

E, em vez de transformar essa memória em algo excessivamente sentimental, a Mondepars faz algo mais complexo: deixa Dona Alda existir nos detalhes. Nos tecidos, nas silhuetas, nos caimentos, nas golas. Como se a criadora estivesse tentando preservar sua maior inspiração daquilo que o tempo leva embora aos poucos, mantendo-a viva através da única linguagem que ambas pareciam compreender profundamente: a arte de criar.

Em entrevistas, Sasha comentou que, ao mergulhar mais a fundo na trajetória da avó, começou a perceber que muitos dos traços que hoje reconhece em si mesma já habitavam Dona Alda muito antes dela existir. O interesse pela arte. A sensibilidade criativa. O fascínio quase íntimo pelo trabalho manual. A delicadeza minuciosa com os detalhes. Como se Alda continuasse vivendo em Sasha através das sutilezas.

Talvez uma das camadas mais emocionantes da coleção esteja justamente na percepção de que certas pessoas nunca desaparecem por completo, porque continuam vivendo nos pequenos gestos daqueles que vieram depois delas. No modo de olhar, de criar, de tocar o mundo. Existe algo em ALDA que inevitavelmente me faz lembrar o verso “one single thread of gold tied me to you”, da música Invisible String, de Taylor Swift. Como se Sasha e Dona Alda fossem atravessadas por esse fio invisível que continua conectando gerações mesmo depois da partida. Uma ligação quase imperceptível, mas profunda o suficiente para sobreviver ao tempo, reaparecendo nos gestos, nos detalhes e na maneira como ambas parecem compreender a criação não apenas como ofício, mas também como uma forma muito íntima de afeto.

Há ainda uma beleza quase inevitável no próprio significado do nome “Alda”. De origem germânica, o nome remete à ideia de alguém sábio, experiente, nobre. Uma figura associada ao conhecimento acumulado pelo tempo, à maturidade e à permanência. E, de certa forma, tudo isso parece costurado na própria coleção. Existe uma maturidade emocional no desfile que impressiona especialmente porque estamos falando apenas da terceira apresentação da marca.

As referências ao período em que Dona Alda viveu em um convento apareciam constantemente, mas jamais de maneira caricatural. As golas padre, as lapelas alongadas e as silhuetas quase monásticas evocavam vestimentas religiosas reinterpretadas através de uma alfaiataria austera e minimalista Em determinados momentos, certos looks lembravam hábitos de freiras atravessados por uma leitura moderna e depurada. Ao mesmo tempo, o desfile também percorria outros fragmentos da trajetória de Alda: o circo, o teatro, as brincadeiras performáticas da infância e até referências militares relacionadas ao relacionamento com Luiz Floriano Meneghel, soldado por quem abandonou a vida religiosa. Outras peças exploravam quadris acentuados, ombreiras marcantes e proporções quase escultóricas, enquanto bolsos diferenciados faziam referência ao período em que Agenor, bisavô de Sasha, treinava para a vida militar.

Zé Takahashi/Mondepars
Zé Takahashi/Mondepars

O aspecto mais sofisticado da coleção venha justamente desse jogo constante entre opostos. Entre rigidez e delicadeza. Nada parecia excessivo ou óbvio demais. A Mondepars parece compreender que o verdadeiro refinamento não está em gritar símbolos, mas em permitir que eles respirem. O styling de Pedro Sales reforçava ainda mais essa tensão sutil, principalmente no trabalho com as gravatas, que apareciam ora entruncadas para dentro das camisas, ora desestruturadas em laços quase desgovernados, ora completamente reinterpretadas através de recortes talhados em madeira, fazendo o material rígido assumir o lugar que tradicionalmente pertenceria ao tecido. É muito interessante pensar nessa fricção constante entre dureza e fluidez, entre contenção e desvio, como se os próprios acessórios oscilassem o tempo inteiro entre disciplina e liberdade, austeridade e ternura.

Zé Takahashi/Mondepars

As luvas, lapelas e acessórios de madeira provavelmente foram os elementos que mais consolidaram visualmente a identidade da coleção. O material não pertence originalmente ao universo têxtil. Quando surge aplicada em golas, gravatas e estruturas de roupa, produz estranhamento imediato. E o estranhamento, quando bem conduzido, costuma ser um dos caminhos mais eficientes para a construção de uma assinatura forte. Você olha e entende imediatamente que aquilo pertence à Mondepars. Pouquíssimas marcas conseguem alcançar esse nível de reconhecimento tão cedo.

Zé Takahashi/Mondepars

A trilha sonora também merece um capítulo à parte porque fazia muito tempo que um som de desfile não me atravessava daquela maneira. Os pássaros vieram primeiro. Eles nos acompanharam desde o momento em que entramos na sala do desfile, antes mesmo da música começar de fato. O som ecoava pela Arca, local escolhido para sediar o evento, de maneira quase inebriante e, em determinados momentos, até levemente irritante, justamente porque não permitia que escutássemos com clareza as pessoas ao nosso lado. As conversas se embaralhavam no ambiente, engolidas por aquele ruído insistente que parecia ocupar cada centímetro do espaço. E talvez tudo isso fosse mesmo proposital. O som dos passarinhos materializava uma presença.

A filha de Dona Alda a apelidou carinhosamente de “passarinho”, e ouvir aquele som ecoando incessantemente pela sala fazia parecer que ela continuava ali de alguma forma, atravessando o local. Como se a trilha transformasse a memória em um tipo de presença física. Em mais uma tentativa sensorial de fazer Dona Alda habitar aquele espaço junto de todos que estavam presentes.

E então a música começou. Assim que entrou, meu primeiro impulso foi abrir o Shazam, aplicativo usado para identificar músicas em tempo real, tentando descobrir desesperadamente o que estava tocando. Sem sucesso. E esse fato tornou tudo ainda mais hipnótico. Existia algo quase fantasmagórico naquela composição. Uma música que parecia clássica, mas ao mesmo tempo profundamente inquietante, construída por graves muito densos e agudos extremamente cortantes, que reverberavam pela Arca de uma maneira quase corpórea. Em alguns momentos, eu sentia como se o som estivesse literalmente dentro do meu ouvido.

Depois que o desfile terminou, descobri que essa sensação de imersão sonora acontecia também por causa da tecnologia Dolby Atmos utilizada na trilha. Em uma das entrevistas concedidas após a apresentação, João Lucas comentou que a ideia era justamente provocar essa impressão de que o som vinha de todos os lugares ao mesmo tempo, quase como se estivesse circulando dentro do corpo de quem assistia. E realmente funcionou.

Tudo parecia milimetricamente pensado.

A alfaiataria segue sendo o grande ponto de força da marca. O corte, o caimento, a arquitetura das peças e a paleta cromática mais contida, interrompida apenas por pitadas de vermelho que surgia em uma das composições, revelam um amadurecimento impressionante para uma etiqueta que existe somente desde 2024.

Zé Takahashi/Mondepars
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Zé Takahashi/Mondepars

E um detalhe que talvez tenha passado despercebido por grande parte das pessoas nessa coleção e que é um dos seus aspectos mais belos: a preocupação com a acessibilidade. Sasha pensou em peças com abotoamentos mais simples, sem exigir força excessiva para fechar casacos. Em entrevistas, Xuxa chegou a comentar que a moda inclusiva sempre foi um interesse da filha desde a faculdade, muito atravessado também pelas dificuldades motoras que Dona Alda enfrentava em decorrência do Parkinson.

E isso altera completamente a leitura da coleção. Porque a memória de Alda deixa de existir apenas como referência e passa a operar também através da funcionalidade e da adaptação do vestir.

O cenário contribuía intensamente para essa atmosfera quase espectral de lembrança. No centro da passarela, uma estrutura de organza branca remetia à primeira casa em que Xuxa e Dona Alda viveram juntas. Os últimos acabamentos da instalação foram finalizados manualmente por costureiras na noite anterior ao desfile, em uma cenografia desenvolvida por Ana Arietti.

Ze Takahashi/Mondepars

Em uma das entrevistas que Sasha concedeu, ela comentou que, se Dona Alda ainda estivesse viva, provavelmente estaria ali, ao lado das costureiras, justamente em uma das funções que mais gostaria de ocupar: alinhavando os últimos detalhes pouco antes do desfile começar.

Outra decisão acertada foi o casting, embora não sem algumas ressalvas. Em um momento em que muitas marcas transformam passarelas em extensões físicas das redes sociais, recheadas de influenciadores estrategicamente posicionados para gerar engajamento instantâneo, a Mondepars optou por algo cada vez mais raro: modelos. Modelos de fato. Não me entendam mal, mas existe uma diferença servir presença digital e presença de passarela. E a marca parece compreender que não precisa transformar seu desfile em um festival de cortes virais de TikTok para produzir desejo. O interesse já existe organicamente.

Além disso, há uma camada particularmente interessante nisso tudo quando pensamos na própria figura de Sasha dentro da indústria. Durante muito tempo, ela foi — e talvez ainda seja — reduzida ao estereótipo da “maior nepobaby do Brasil”, um rótulo quase inevitável para alguém que cresceu sendo filha de uma das mulheres mais famosas do país. E seria extremamente fácil viver apenas à sombra dessa herança. Ser somente extensão de uma imagem já consolidada. Mas ela parece ter escolhido um percurso muito mais custoso. Escolheu estudar, construir o próprio legado, cavar o próprio espaço dentro da moda. Com privilégios, atalhos e portas muito mais escancaradas do que para a maioria das pessoas, é claro, e não faz sentido fingir o contrário. Mas também escolheu não depender apenas disso. Talvez não exatamente distante dos holofotes em que cresceu, porque isso seria praticamente impossível, mas definitivamente sem utilizá-los como único alicerce da própria legitimidade. Honra o patrimônio da própria família sem permitir que ele seja a única narrativa capaz de defini-la.

A Mondepars parece empenhada em construir repertório, linguagem própria e permanência para além do sobrenome que inevitavelmente acompanha sua fundadora. E talvez isso explique por que a marca amadurece de maneira tão veloz. Existe ali uma compreensão muito consciente da moda enquanto expressão de identidade, pesquisa e continuidade, e não apenas como uma extensão automática da fama ou um projeto sustentado exclusivamente pelo peso da pessoa pública.

Muita gente acusa a Mondepars de “copiar referências estrangeiras”, mas o que significa ser totalmente original hoje? A moda nunca foi um território dissociado daquilo que veio antes dela. Yves Saint Laurent olhava para Mondrian. John Galliano retornava repetidamente aos arquivos da Dior. Miuccia Prada trabalha há décadas sobre memória, deslocamento e ressignificação histórica. Rei Kawakubo fragmenta e tensiona códigos clássicos da indumentária desde os anos 1980.

Talvez a questão nunca tenha sido criar algo a partir do absoluto vazio, mas compreender o que cada criador consegue transformar a partir das referências que escolhe carregar consigo.

A moda sempre dialogou consigo mesma. E a pergunta mais interessante não é “isso já existiu?”, mas “o que alguém consegue transformar a partir daquilo que já existiu?”.

E a Mondepars parece cada vez mais consciente da própria linguagem. Existe uma assinatura muito evidente ali. E assinatura talvez seja uma das construções mais difíceis dentro da moda contemporânea, especialmente em um momento em que tantas marcas parecem desesperadas para produzir impacto imediato antes mesmo de consolidar identidade.

O encerramento do desfile trouxe um look de noiva, tradição histórica da alta-costura francesa que durante décadas funcionou como o ápice emocional das apresentações. Grandes maisons costumavam finalizar seus desfiles com uma noiva. Era a última imagem antes das cortinas se fecharem. Aquela destinada a permanecer suspensa na memória do público muito depois do desfile terminar.

Zé Takahashi

Em ALDA, porém, essa escolha ganhava uma camada ainda mais íntima. Porque a coleção inteira falava sobre linhagem feminina, herança, permanência e continuidade. Então encerrar o desfile com essa figura quase etérea atravessando a passarela fazia parecer que tudo culminava em uma espécie de rito afetivo. Como se a coleção inteira sussurrasse que algumas pessoas partem, mas continuam existindo através daquilo que deixam nos outros.

E então veio o áudio que fez a sala inteira se debulhar em emoção.

Depois do look de noiva atravessar a passarela, a trilha foi tomada por uma gravação antiga da própria Dona Alda cantando “Estrela do Mar”, de Dalva de Oliveira. Mais tarde descobri que essa era a música que ela costumava cantar em dias de chuva para acalmar os filhos.

Mas acredito também que crítica de moda não deve existir apenas para elogiar. Ela precisa ser capaz de apontar ausências. E senti falta de duas coisas muito específicas nesse desfile.

A primeira delas foi a ausência de mulheres 60+ aparentando a própria idade na passarela. E isso me atravessou especialmente porque ALDA é uma coleção construída sobre memória, herança feminina e permanência. Não faria sentido existir uma ou mais mulheres maduras representando simbolicamente Dona Alda naquele universo?

Confesso que hesitei antes de escrever isso porque praticamente todos os veículos que vi optaram apenas pelos elogios, e eles são merecidos. O desfile estava belíssimo. A alfaiataria impecável, o styling sofisticado, a direção de arte extremamente bem elaborada.

Mas essa ausência permaneceu comigo.

A segunda questão foi a falta de mulheres mid size e plus size. Especialmente porque a própria Mondepars comercializa tamanhos amplos. No site da marca, os blazers vão do 32 ao 48, os jeans chegam ao 50 e algumas peças alcançam o 4XG. Essas mulheres conseguem comprar as roupas, mas ainda não conseguem se enxergar plenamente representadas na passarela.

E representatividade não diz respeito apenas à presença de pessoas negras, embora isso continue sendo fundamental. Ela também atravessa corpos, idades, proporções e diferentes maneiras de existir.

Nosso imaginário ainda associa modelo à magreza extrema, mas esse paradigma vem sendo questionado há anos. O relatório de inclusão de tamanhos da Vogue Business, divulgado em 2025, mostrou um retrocesso preocupante nas semanas de moda de Nova York, Londres, Milão e Paris. Dos 8.703 looks apresentados em 198 desfiles, 97,7% pertenciam ao padrão small size. Apenas 2% eram mid size e somente 0,3% plus size.

Ou seja: o problema não pertence exclusivamente à Mondepars. Ele é estrutural. E isso precisa ser discutido.

Entendam que os meus apontamentos não são hate. Nem uma tentativa de diminuir a potência do desfile. Muito pelo contrário. Talvez seja justamente porque existe tanta inteligência, elaboração e sensibilidade em ALDA que essas ausências acabam se tornando ainda mais perceptíveis.

E antes de terminar, acho importante mencionar algo que nunca aparece quando falamos sobre desfiles de moda: as pessoas que tornam tudo aquilo possível. Existe uma tendência muito grande de concentrar toda a atenção apenas nas roupas, nas celebridades, ou nos momentos que viralizam depois nas redes sociais, mas um desfile é sempre construído por dezenas de mãos que raramente aparecem no feed. E a organização da assessoria de imprensa da Mosaico merece ser reconhecida por isso. Tudo funcionava muito bem. As pessoas que estavam trabalhando pareciam saber exatamente o que estavam fazendo, mesmo diante do caos inevitável que envolve um evento desse porte. E pode parecer um detalhe pequeno, mas não é. Nem todas as equipes conseguem executar esse tipo de trabalho com tanta maestria e fluidez. Existe muito trabalho invisível sustentando a experiência que o público vê pronta, e acho importante lembrar também que a moda nunca é construída sozinha.

Ainda assim, saí com a sensação de ter assistido ao amadurecimento de uma marca que compreende algo cada vez mais raro dentro da moda nos dias de hoje: identidade não se constrói pela urgência de parecer inédita o tempo inteiro, mas pela capacidade de sustentar uma linguagem até que ela se torne impossível de confundir com qualquer outra.

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