RSS Amplifier

moda e etcetera · Jul 28, 2026

Penha Maia apresenta ''Corpo Urbano'' no centro de São Paulo

0
Sign in to vote or save

moda e etcetera · moda e etcetera

“Ô, princesa, dá um sorriso!”, “Desse jeito você mata o papai!”, “Nossa, que mulher gostosa!”, “Ei, linda, não vai nem olhar?”

Poucas experiências urbanas são tão compartilhadas entre as mulheres quanto caminhar pela cidade e ser interrompida por uma cantada de pedreiro. A rua, que deveria ser um espaço de passagem, tantas vezes se transforma em palco para olhares, comentários e abordagens indesejadas. Durante décadas, aprendemos a acelerar o passo, trocar de calçada, evitar determinados trajetos e até calcular a roupa antes de sair de casa. O espaço público nunca pertenceu às mulheres da mesma maneira que pertenceu aos homens.

Talvez seja por isso que faça tanto sentido que a estilista paraibana Penha Maia tenha escolhido um dos cartões-postais mais emblemáticos de São Paulo para apresentar sua segunda coleção autoral. No dia 26 de julho, os modelos desfilaram pelo Viaduto Santa Ifigênia, e em vez de atravessarem a cidade tentando passar despercebidos, eram eles que ditavam o ritmo da rua.

Acostumada a arquitetar vestidos de noiva há dezesseis anos, Penha decidiu retirar a moda de seus ambientes habituais e devolvê-la à cidade. Não escolheu um galpão, um shopping ou qualquer outro local fechado e reservado a poucos convidados. Preferiu um espaço público, a céu aberto, atravessado diariamente por turistas, vendedores ambulantes, ciclistas e pessoas que passeavam com seus pets em um domingo ensolarado.

Ali, o desfile deixou de existir como um mero acontecimento isolado para conviver com a própria vida urbana. Enquanto os modelos caminhavam, pedestres que circulavam pelas adjacências interrompiam seus trajetos por alguns instantes e, espontaneamente, formavam uma nova plateia. A moda aproximava-se, assim, de pessoas que não haviam saído de casa para assistir a um desfile, mas acabaram encontrando um pelo caminho.

A estilista transformou um evento tradicionalmente restrito a convidados, jornalistas, influenciadores e compradores em uma experiência compartilhada. Em um setor frequentemente acusado de falar apenas para sua própria bolha, ela fez o movimento contrário: abriu a passarela para a cidade.

O gesto também reafirma a moda como uma espécie de manifestação cultural. E, como toda expressão desse tipo, ela ganha outra dimensão quando ocupa o espaço público. Democratizá-la não significa apenas ampliar o acesso ao consumo, mas também ao olhar, permitindo que seja vista, questionada e admirada por pessoas que dificilmente receberiam um convite para uma primeira fila. É difícil imaginar um cenário mais coerente para uma coleção chamada Corpo Urbano do que um desfile devolvido ao corpo vivo da metrópole.

Batizada de Corpo Urbano, a segunda coleção autoral de Penha Maia parte do brutalismo e da arquitetura paulistana para investigar as maneiras pelas quais edifícios e corpos moldam uns aos outros. O texto distribuído aos convidados sintetizava a proposta em uma frase quase poética: “Brutalismo: Corpo Urbano é o sonho do concreto”.

Ao longo do manifesto, a estilista imagina um cenário em que “o vertical é lei”, os arcos se tornam linguagem, “o bruto de Le Corbusier se suaviza nas rendas”, “o balé da Bauhaus dança em São Paulo” e “a alfaiataria remonta o MASP, obra-chave de Lina Bo Bardi”.

A coleção, no entanto, não procurava reproduzir fachadas ou transformar edifícios em fantasias. Sua ambição era compreender a roupa como uma espécie de arquitetura portátil. Assim como uma construção reorganiza o espaço ao redor, uma peça também modifica a maneira como o corpo circula e se apresenta na cidade.

Essa ideia atravessou os 46 looks do desfile. Silhuetas ampliadas, ombros marcados, linhas rígidas e volumes inesperados alteravam a percepção da anatomia, enquanto vestidos quase escultóricos conviviam com uma alfaiataria precisa. Rendas, transparências e tecidos fluidos interrompiam a aparente severidade das formas.

Em uma das entradas mais memoráveis, o plástico-bolha, normalmente utilizado para proteger objetos durante o transporte, foi elevado à condição de matéria-prima da criação. Retirado de seu uso cotidiano, o material adquiria outro significado e parecia sugerir que a própria cidade, com tudo aquilo que nela permanece vulnerável, também pudesse ser preservada.

Há um equívoco recorrente quando se fala em brutalismo. O nome costuma sugerir uma arquitetura agressiva, pesada ou violenta. Sua origem, entretanto, é menos dramática. O termo deriva da expressão francesa béton brut, ou “concreto bruto”, utilizada pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier para designar o material em seu estado natural, sem revestimentos ou ornamentos destinados a esconder sua composição.

A expressão começou a aparecer em seus projetos durante a década de 1950, especialmente na Unité d’Habitation, construída em Marselha entre 1947 e 1952 e considerada um dos principais marcos do movimento.

Consolidado internacionalmente entre as décadas de 1950 e 1970, em meio à reconstrução das cidades no pós-Segunda Guerra Mundial, o brutalismo ultrapassava os limites de um estilo arquitetônico. Tratava-se também de uma maneira de pensar a relação entre edifício e sociedade. Em vez de esconder pilares, vigas e sistemas estruturais, seus arquitetos optavam por evidenciá-los. A construção deixava de permanecer nos bastidores e passava a integrar a própria linguagem da obra.

No Brasil, a partir da década de 1950, arquitetos como João Batista Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha e Lina Bo Bardi reinterpretaram seus princípios a partir das particularidades do país. O concreto aparente permaneceu central, mas passou a dialogar com a luz natural, os grandes vãos livres e a ideia de uma arquitetura voltada à convivência coletiva.

É quase impossível pensar nessa tradição sem lembrar do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). Projetado por Lina Bo Bardi e inaugurado em 7 de novembro de 1968, o edifício tornou-se um dos maiores ícones da arquitetura brasileira ao desafiar a lógica convencional da monumentalidade.

Seu célebre vão livre de 74 metros foi concebido como uma praça suspensa. Lina Bo Bardi insistiu para que aquele espaço permanecesse aberto à cidade, acolhendo manifestações, feiras, apresentações e encontros. A obra não se completava apenas pela engenharia que a sustentava, mas pela presença das pessoas que a ocupavam.

É justamente essa lógica que Penha Maia transporta para a criação de sua coleção, intitulada Corpo Urbano.

Em vez de reduzir a arquitetura a um conjunto de referências reconhecíveis, a estilista absorve seus princípios construtivos e os converte em mangas esculturais, golas monumentais, ombros ampliados e volumes quase impossíveis. As peças parecem nascer da mesma racionalidade que organiza os edifícios brutalistas. A engenharia das roupas não busca se esconder, mas tornar-se parte intrínseca de sua expressão visual.

O corpo, assim, deixa de servir apenas como suporte para as peças e passa a integrar sua construção.

A tradução desse vocabulário não se limita às formas. Ela também atravessa a cartela cromática. O cinza domina boa parte das entradas, evocando o concreto que moldou a paisagem paulistana ao longo da segunda metade do século XX. Aos poucos, porém, amarelos vibrantes, vermelhos intensos e pontos de azul interrompem essa sobriedade.

São as cores dos canteiros de obras, das placas de sinalização, dos guindastes e dos equipamentos de segurança. Tons que lembram que uma cidade nunca está inteiramente pronta. Se o cinza representa a matéria que ergue São Paulo, o amarelo e o vermelho anunciam o trabalho contínuo que segue redesenhando sua paisagem.

A cartela também encontra um contraponto em Rosa e Azul, obra pintada por Pierre-Auguste Renoir em 1881 e pertencente ao acervo do MASP. No retrato das irmãs Alice e Elisabeth Cahen d’Anvers, os vestidos volumosos, adornados por rendas, laços e babados, ocupam quase toda a composição. O azul-claro e o rosa suave introduzem uma delicadeza que parece, à primeira vista, distante da austeridade do concreto.

Em Corpo Urbano, entretanto, esses universos deixam de ser opostos. As tonalidades luminosas e a construção romântica dos trajes atravessam as formas arquitetônicas, suavizando sua rigidez sem apagar sua imponência. Penha aproxima, assim, a solidez brutalista da leveza presente na pintura de Renoir.

Essa narrativa alcança também os acessórios. Capacetes de obra surgem ressignificados, abandonando sua função estritamente utilitária para assumir protagonismo estético. O deslocamento aproxima o universo da moda não apenas da arquitetura, mas também das pessoas responsáveis por construí-la.

Durante décadas, aprendemos a admirar edifícios, fotografar fachadas e celebrar os arquitetos responsáveis por projetá-los. Raramente, porém, perguntamos quem efetivamente levantou essas construções.

É justamente nesse ponto que a cantada de pedreiro apresentada na abertura adquire outro significado. A figura inicialmente associada à invasão do corpo feminino reaparece não como uma caricatura, mas como representante de uma classe trabalhadora frequentemente relegada ao segundo plano na construção da memória urbana.

A estilista devolve esses trabalhadores à narrativa sem reproduzir literalmente seus uniformes. Em vez disso, incorpora sua iconografia ao vocabulário da moda. O capacete transforma-se em adorno; as estruturas metálicas reaparecem nas golas; as linhas rígidas migram para as silhuetas; os volumes evocam blocos empilhados sobre o corpo. A arquitetura deixa de ser cenário para tornar-se vestimenta.

Apesar de dialogar com um movimento frequentemente associado à austeridade, Corpo Urbano jamais se torna uma coleção rígida. Rendas interrompem superfícies arquitetônicas, transparências aliviam o peso visual das formas e tecidos fluidos convivem com uma alfaiataria precisa.

Não por acaso, o manifesto anuncia que "o bruto de Le Corbusier se suaviza nas rendas". A frase sintetiza não apenas a coleção, mas também a trajetória de Penha Maia. Há dezesseis anos dedicada à criação de vestidos de noiva, a estilista transfere para o estilo brutalita o repertório técnico e a delicadeza desenvolvidos ao longo desse percurso. resultado não é uma arquitetura petrificada sobre o corpo. Pelo contrário: é a solidez do concreto atravessada pela leveza das rendas, pelas transparências e pela fluidez dos tecidos.

As imagens que ilustram este texto pertencem ao fotógrafo Zé Takahashi.

Nenhuma publicação

Read the original on modaeetcetera.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.