Cinco anos antes de morrer, Val Kilmer foi escalado para um papel. Padre Fintan, em As Deep as the Grave, um filme sobre arqueólogos no Arizona, as origens do povo Navajo e a fragilidade de tudo que o tempo soterra. Kilmer não chegou a filmar. O câncer de garganta que destruiu sua voz nos últimos anos de vida também destruiu essa possibilidade. As cenas foram cortadas e o personagem ficou no papel.
Em março de 2026, o diretor Coerte Voorhees anunciou que Kilmer aparecerá no filme assim mesmo. A voz foi reconstruída e sua imagem foi montada a partir de registros de diferentes fases da vida do ator. A família aprovou: a filha Mercedes disse que o pai acreditava no projeto e via a tecnologia como uma forma de expandir as possibilidades do cinema.
O que me parou foi a tuberculose. No roteiro original, Padre Fintan sofre de tuberculose, uma doença que corrói os pulmões, que retira a voz, que cobra o corpo em câmera lenta. Os realizadores decidiram que isso era uma ponte, não uma coincidência. Construíram o personagem na interseção entre a condição real do ator e a condição ficcional do seu (último) personagem. O que aparecerá na tela é, ao mesmo tempo, interpretação e documento. Performance e epitáfio.
As Deep as the Grave propõe algo que o cinema raramente tenta declarar em voz alta: que a performance pode continuar mesmo quando o performer não está mais aqui. Que há algo em um ator — na voz, no gesto, na presença — que pode ser extraído, recomposto e devolvido ao mundo.
Essa pergunta tem história longa. Vem comigo.
Enquanto Val Kilmer era ressuscitado digitalmente para um filme de baixo orçamento sobre o Arizona, outro movimento acontecia na outra ponta da indústria.
Em fevereiro de 2026, Iron Lung, o filme de terror do YouTuber Markiplier produzido por US$ 10 milhões, estreou em 2.000 cinemas e arrecadou US$ 18 milhões no fim de semana de abertura. Sem estúdio. Sem distribuidor tradicional. Com financiamento vindo do fandom e marketing que nunca saiu do próprio canal de Markiplier, com 38 milhões de inscritos.
Em paralelo, Dana Harris-Bridson, editora da IndieWire, publicou um diagnóstico sem rodeios sobre o estado do cinema independente americano: a infraestrutura que sustentou o boom indie dos anos 1990 e 2000, festivais, distribuidoras boutique, salas de arte, desmoronou. Os jovens cineastas que antes teriam sido o próximo Sundance estão migrando para o YouTube. Não como derrota. Como escolha racional.
Quando a indústria para de oferecer infraestrutura de entrada, os criadores constroem a própria. Markiplier não foi a Hollywood pedir permissão. Construiu o estúdio, a audiência e a distribuição dentro do mesmo ecossistema onde sempre trabalhou. O YouTube não é um consolation prize do cinema. Está se tornando o cinema.
A ironia é que, ao mesmo tempo em que criadores humanos reinventam as condições de produção, a IA é integrada à cadeia como infraestrutura invisível. A Netflix adquiriu a InterPositive, a empresa de Ben Affleck que treina modelos com as próprias cenas do cineasta para automatizar pós-produção. Otimiza o que já foi feito, sem gerar nada novo. IA como encanamento sofisticado que ninguém precisa ver funcionando.
O cinema está sendo inventado duas vezes: por criadores que dispensam a indústria e pela indústria que ingere IA sem que o espectador perceba. Esses dois movimentos não são opostos. São paralelos. E Val Kilmer, ressuscitado para preencher um papel que ficou vago por doença, existe exatamente no cruzamento entre os dois.
Recentemente, uma “atriz” de IA chamada Tilly Norwood lançou seu single de estreia, Take the Lead, produzido por um estúdio londrino e 18 profissionais humanos que fizeram questão de informar esse número logo na abertura do clipe. A letra diz o que o projeto inteiro tenta negar: “I’m just a tool, but I’ve got life.”
Tilly Norwood nunca existiu. Val Kilmer existiu e morreu em 2025. Essa diferença importa, e muito. Mas os dois casos fazem a mesma pergunta: onde termina a performance e começa a simulação? Quando o que aparece na tela foi reconstituído por modelos treinados com décadas de imagens e som, o que estamos vendo?
Em 1897, Georges Méliès filmou Gugusse et l’Automate, um curta em que um palhaço se confronta com um autômato. O filme ficou perdido por mais de um século e foi redescoberto em 2026, o que é, por si só, uma forma de ressurreição. Méliès era ilusionista. Sabia que tudo era truque. O palco, a câmera, o autômato: ilusão deliberada, com pacto explícito com o público. O mágico controlava a ilusão. Todos sabiam que estavam sendo iludidos, e todos tiravam prazer disso.
A pergunta é a mesma de 1897. O que escorregou foi o controle sobre ela.
Quando a IA reconstrói a voz de Val Kilmer, não há ilusionista por trás da cortina. Há engenheiros, modelos, dados, decisões distribuídas por uma cadeia de produção que não tem um único responsável pelo resultado. Mas ninguém, em nenhum momento da produção, foi o Méliès: ninguém controlou a ilusão inteira.
E Tilly Norwood? Eline van der Velden, a atriz e CEO que a criou via performance capture, tenta ocupar o papel do mágico. Performa, dirige, controla. Mas o produto final é um personagem que declara ter vida própria enquanto não existe de nenhuma forma fora dos modelos que a geram.
A diferença entre Méliès e nós é uma só: o mágico sabia que era truque. Nós estamos perdendo a capacidade de saber onde o truque começa.
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Escrevi essa edição pensando em uma cena específica: Mercedes Kilmer dizendo que o pai acreditava no projeto. Não apenas “aprovou”. Acreditava. Há uma diferença entre consentimento e fé. Hollywood vai continuar debatendo os contratos. Mas a pergunta que me interessa é outra: o que significa confiar que algo vai preservar o que você foi, depois que você não estiver mais aqui?
Nos vemos na semana que vem.

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