RSS Amplifier

mauroamaral.com no Substack · Apr 1, 2026

O Google Reader morreu por um KPI, o Sora morreu por um bilhão de dólares. O RSS ainda está aqui para ajudar a entender tudo isso.

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mauroamaral.com · mauroamaral.com no Substack

Vocês já estavam por aqui quando, em julho de 2013, o Google desligou o Reader? O comunicado tinha duas frases sobre “foco em menos produtos”. Nenhum executivo achou necessário explicar por que um serviço estável, funcional, usado por milhões de pessoas sem reclamações significativas, precisava ser encerrado. A reação foi de frustração passageira. A maioria dos usuários foi para o Facebook.

Treze anos depois, pesquisadores de desinformação traçam linhas retas entre essa migração e a polarização algorítmica que reconfigurou democracias. A lógica é simples: milhões de pessoas que consumiam informação via feeds cronológicos, escolhidos por elas, sem intermediação, foram empurradas para um sistema que otimiza indignação e tempo de tela. Tudo começou com um product manager querendo fazer um número subir.

Esse movimento tem nome, batizado por um dos mais longevos pensadores do mundo digital, o Cory Doctorow: a enshitificação. Os, esmerdelhamento, se preferir.

Esta edição é sobre isso e muito mais. Mas se conecta com isso. E com o muito mais também.

Vem cá.

Cory Doctorow, escritor e ativista digital, reconstruiu essa história com precisão e, como eu estava dizendo, cunhou o nome para o padrão: enshittificação. Para explicar no elevador indo para o trabalho, tratas-se da degradação deliberada de plataformas por decisões corporativas específicas, tomadas por pessoas nomeáveis, com consequências previsíveis e previstas. “Never let them tell you that enshittification was a mystery.”

A cronologia que ele detalhou é bastante ilustrativa. Em 2011, o Google lançou o Google Plus e atrelou bônus de executivos a métricas de engajamento da rede. O autor cita a Lei de Goodhart para tentar mapear o que se deu depois. Esta lei diz que quando uma métrica se torna alvo, deixa de ser métrica útil. Principalmente para o público que consome aquele produto ou serviço.

Executivos canibalizaram produtos estáveis para alimentar o G+. O Google Reader, que distribuía conteúdo sem intermediação algorítmica, era obstáculo. Suas funcionalidades de descoberta e compartilhamento eram precisamente o que o G+ precisava monopolizar.

O Reader morreu no pico dessa obsessão. O G+ fracassou de forma espetacular. E o serviço que cresceu com a migração foi o Facebook.

O que interessa para quem produz conteúdo ou pelo menos mora na tríplice fronteira entre tecnologia, comunicação e cultura, não é a ironia corporativa, mas a estrutura do erro. O Reader morreu não porque falhou. Morreu porque quem o controlava decidiu que outra coisa era mais lucrativa. E quando isso aconteceu, bilhões de pessoas perderam o acesso a uma forma de consumo de informação que não precisava de intermediário.

O RSS, o protocolo por trás do Reader, nunca morreu. Podemos mapear sua existência até hoje.

Anota aí, padawan: protocolo é diferente de produto. É uma distinção que parece técnica mas é, na prática, política.

Um produto pertence a alguém. Tem acionistas, metas de trimestre, product managers com KPIs atrelados a bônus. Pode ser descontinuado, monetizado de maneiras que deterioram a experiência do usuário, porque quem toma essas decisões não é você. Newsletter em plataforma fechada é produto. Instagram é produto. O próprio Google Reader era produto.

Um protocolo não tem dono. Existe enquanto a web existir. Não pode ser enshittificado porque ninguém tem o poder de alterar unilateralmente as regras. RSS existe desde 1999. Podcasts rodam sobre RSS (apesar das tentativas de Apple e Spotify de fechar o ecossistema). Substack, Ghost, WordPress, Medium, Bluesky, Mastodon: todos emitem feeds RSS automaticamente. A maioria dos criadores nem sabe disso.

Caroline Crampton, co-editora do The Browser, uma das newsletters de curadoria cultural mais respeitadas da web, assina mais de 2.000 feeds RSS. Chama o protocolo de “o melhor segredo da internet”. Doctorow paga 36 dólares por ano pelo Newsblur desde 2011. Publica tudo via RSS primeiro. A lógica é que o protocolo é permanente; o produto, contingente.

Eu daqui não largo meu InoReader e já montei uns agentes que consomem antigos e úteis arquivos OPML (coleção de RSS Feeds, para resumir) que carrego comigo desde 2006.

Isso não é argumento contra plataformas. É argumento pela diversificação de infraestrutura. Quando toda a sua distribuição depende de decisões que você não controla, você não tem estratégia. Tem permissão temporária.

Em março de 2026, a Disney confirmou o que os dados já mostravam: o Sora, modelo de geração de vídeo da OpenAI, estava morto como produto público. A parceria de um bilhão de dólares anunciada em novembro de 2025, com comunicado assinado por Bob Iger e Sam Altman, havia durado menos de quatro meses antes de a Disney se retirar do acordo inteiramente.

O plano original nunca saiu do papel. A ideia era permitir que fãs criassem vídeos com personagens da Disney usando o Sora e publicassem no Disney+. O comunicado falava em “estender o alcance da narrativa através da IA generativa, respeitando e protegendo criadores”. Tinha a cadência certa. Soava responsável.

Três meses depois, a parceria estava morta.

O que aconteceu entre esses dois pontos documenta uma confusão que a indústria criativa continua cometendo. Joseph Cox, jornalista da 404media que cobriu o encerramento, documentou que o uso dominante da plataforma era conteúdo tirado para spam em outras redes. O subreddit do Sora estava basicamente morto antes do anúncio oficial. Nos últimos dias, os vídeos acumulavam zero likes, zero comentários.

O caso da TCL completa o padrão. A fabricante chinesa de televisores fundou um estúdio de cinema com IA e lançou dois curtas como prova de conceito da nova era do audiovisual. Memory Maker: 1.771 visualizações no YouTube, 13 meses após o lançamento. Next Stop Paris: 10.000 visualizações. Comentários desativados nos dois.

Comentários desativados são a admissão silenciosa de que você já sabe o que as pessoas diriam.

O argumento que sustentava essas apostas confundia dois problemas distintos. IA pode reduzir custo de produção em certas tarefas. Já faz isso, nos bastidores: storyboards, scratch voiceover, corte preliminar. Nenhum desses usos tenta substituir o julgamento sobre o que vale a pena existir. O problema de valor é diferente. Ele pergunta: por que alguém deveria querer ver isso? Essa pergunta não tem resposta em nenhum modelo generativo disponível.

Quando a Disney colocou conteúdo sem intenção narrativa numa plataforma paga, descobriu o que o scroll infinito esconde: quando o usuário está no modo de escolha ativa, pagando, a diferença entre conteúdo com e sem intenção humana se torna visível de um jeito que nenhum benchmark captura. Slop funciona no scroll. Não funciona na tela.

Calma que vamos juntar os pontos agora!

O que esses dois casos têm em comum não é tecnologia. É a mesma estrutura de dependência.

A Disney dependia de decisões da OpenAI, que dependia de um modelo de negócio que não fechou. Quando as condições mudaram, o produto morreu. O Google Reader dependia de metas de trimestre de executivos do G+. Quando as metas mudaram, o produto morreu.

RSS existe desde 1999. Ninguém mudou as condições porque ninguém tem esse poder.

Esta newsletter chega via Substack, que emite RSS automaticamente. Há um feed disponível para quem prefere ler sem passar pela plataforma. Não é por nostalgia de um protocolo dos anos 1990. É porque a forma mais honesta de construir relação com quem lê é pelo caminho que ninguém pode fechar.

A herança do encanamento invisível da web é essa: a infraestrutura que resiste é sempre a que ninguém é dono.

Se essa edição fez sentido, encaminha para alguém que trabalha com criação, comunicação ou tecnologia. A melhor forma de apoiar esse trabalho é compartilhando com quem vai usar.

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🦴 Bone music. Na União Soviética, quando o Estado proibia discos de jazz e rock, jovens gravavam músicas em chapas de raio-X descartadas de hospitais. Os discos eram chamados de roentgenizdat. Quando não existe protocolo aberto, o protocolo é inventado na clandestinidade. A autonomia de distribuição não é invenção do RSS. É instinto. →

🏗️ “Don’t build your studio on borrowed sand.” A Creative Boom publicou análise sobre a morte do Sora com o aforismo mais preciso do mês: o risco de construir sobre infraestrutura que outra empresa controla. Esteja a dependência no Sora, no Google Reader ou no Instagram, a areia emprestada afunda na primeira decisão de product manager. →

🐙 GitHub Copilot enshittificado em 24 horas. O GitHub recuou após backlash imediato: o Copilot havia começado a inserir tips com aparência de anúncios diretamente nos pull requests dos desenvolvedores. O padrão de enshittificação foi identificado e nomeado em menos de 24 horas. A internet tem memória e nomenclatura para isso agora. →

📖 Wikipédia escolheu ser protocolo. A maior enciclopédia colaborativa do mundo proibiu o uso de IA para gerar ou reescrever artigos, mantendo exceções para revisão e tradução. A decisão é política, não técnica: preservar a curadoria humana como garantia de integridade. Um protocolo editorial que escolheu permanecer protocolo. →

🦋 Bluesky devolve o algoritmo para você. A Bluesky lançou o Attie, assistente de IA que permite programar o próprio feed em linguagem natural. Em vez de o produto decidir o que você vê, você escreve as regras. Protocolo aberto mais IA equivale a desintermediação do algoritmo. O mesmo princípio do RSS, atualizado para 2026. →

✏️ Canva apostou na imperfeição. Em um cenário onde qualquer pessoa acessa estética perfeita via IA, o ruído intencional virou assinatura de autenticidade. A imperfeição deliberada como protocolo próprio, que nenhuma ferramenta generativa consegue replicar com fidelidade. Tom Carey documenta o movimento na Creative Boom. →

🍟 Criatividade ultra-processada. Agências com IA estão entregando entre 25 e 50 opções por briefing. O paralelo com comida ultraprocessada é exato: nutre a métrica, não a experiência. A pergunta que fica: qual é a diferença entre curar 50 opções de IA e não ter criado nenhuma? O valor migrou para a seleção, mas sem critério, a seleção também é comoditizada. →

🚗 Kraftwerk gravou 22 minutos sobre uma rodovia e inventou o pop eletrônico. Autobahn (1975) não pediu permissão para existir no tamanho que existia. Em 1975, as rádios não tocavam. Foi o público e a crítica que distribuíram. O protocolo é mais velho que a plataforma. →

🤖 Robôs de entrega vandalizados em Sheffield. Semanas após estreia do serviço do Uber Eats, os robôs foram vandalizados no bairro. Quando a infraestrutura é percebida como invasão e não como serviço, o corpo decide antes da mente. A enshittificação não é só digital. →

📰 The Guardian usou IA sem virar chatbot. O jornal lançou o Storylines, módulo que usa IA para organizar contexto narrativo, não para gerar conteúdo. A distinção é exatamente o que separa protocolo de produto: a IA como camada de acesso à informação humana, não como substituta do julgamento editorial. →

Escrevi essa edição pensando em uma frase do Doctorow que não sai da cabeça: “Never let them tell you that enshittification was a mystery.” Não é mistério. São decisões. E decisões podem ser revertidas, contornadas ou ignoradas, quando se tem as ferramentas certas e a disposição de usá-las.

Se quiser ir mais fundo nos dois temas centrais desta edição, escrevi análises completas no site que deu origem a esta newsletter. Lê lá em O slop que a Disney não quis engolir.

Nos vemos na semana que vem.

Read the original on mauroamaral.substack.com

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