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mauroamaral.com no Substack · Mar 18, 2026

O que sobra quando tudo é eficiente?

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mauroamaral.com · mauroamaral.com no Substack

Tem acompanhado as últimas edições? Só lembrando: toda quarta-feira, ali pelas primeira horas, gosto de trazer um pouco do que penso para sua caixa de e-mails. Nas últimas edições, debatemos sobre:
O filme “Em um piscar de olhos” é cafona?
Por que você deve criar em silêncio enquanto todo mundo pede permissão
Quando lembro que só a arte pode (me) nos salvar
Se eu tivesse nascido com esta habilidade, minha vida teria sido diferente

Em fevereiro de 2026, a AWS ficou fora por 13 horas. A causa não foi um ataque externo, nem um erro humano no sentido convencional. Foi uma ferramenta interna de IA chamada Kiro AI que deletou e recriou um ambiente de forma autônoma. A ferramenta projetada para eliminar erros humanos foi a causa do maior incidente recente da empresa.

Há algo nessa cena que vai além do post-mortem técnico. E por isso escolhi para a abrir a edição de hoje

Estamos até o pescoço com o leitmotiv da segunda década do XXI, a otimização radical. Consolidamos infraestrutura em três empresas para ganhar eficiência. Delegamos tarefas cognitivas a modelos de linguagem para ganhar produtividade, acreditando que eles pensam. Otimizamos feeds e campanhas com algoritmos para ganhar alcance. Em cada caso, a lógica foi a mesma: centralizar, automatizar, escalar.

Mas será que é sempre assim? O que tenho observado é que existe também o avesso dessa lógica. Quanto mais perfeita a eficiência, mais catastrófica a falha quando ela aparece. E ela sempre aparece.

Daqui dos bastidores da tríplice fronteira entre tecnologia, comunicação e cultura, três sinais chegaram esta semana de ângulos diferentes e apontaram para o mesmo lugar.

Da infraestrutura: AWS, Azure e Cloudflare concentraram mais de 60% do mercado global de cloud. Uma linha de código errada numa região derruba serviços que nem se conhecem, em países diferentes. A análise de Josh Chapman na Konvoy é bastante interessante: a eficiência sistêmica criou a vulnerabilidade sistêmica. O apagão, antes de ser o bug, o erro, a incongruência… é a própria arquitetura na qual o mundo se assenta.

Do trabalho: o MIT acompanhou mais de 50 organizações e encontrou que o maior risco da adoção de IA não é o desuso. É o uso excessivo, quando a automação funciona tão bem que o processo congela, o julgamento atrofia e a organização perde a capacidade de se adaptar quando o contexto muda. A ferramenta que libera pode, silenciosamente, aprisionar.

Da cultura: as tendências criativas de 2026 mostram mais e mais pessoas migrando para o Reddit, a plataforma que parece dos anos 2000, exatamente porque lá a autenticidade não foi otimizada para fora do sistema. O relatório da KarmaLab nomeia isso como tendência de marketing. Mas é um sintoma maior: quando tudo é eficiente, o que resiste à eficiência vira raro.

O fio entre os três: o valor não está onde a otimização chegou. Está onde ela não consegue chegar, ou onde chegou longe demais e voltou a cobrar o preço.

Vem comigo aprofundar?

Mas se não quiser aprofundar, você já tem os argumentos centrais para fazer bonito nos 6.2 segundos no elevador com a galera do trabalho, combinado? Até por isso, lasca o dedo para divulgar esse material caprichado que preparei!

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Abro com um dado: AWS, Azure e Google Cloud controlam mais de 60% da infraestrutura de internet do mundo. Esse número é frequentemente lido como dado de mercado. Deveria ser lido como dado de risco.

Josh Chapman, na Konvoy Newsletter, documentou ao menos cinco grandes apagões nos últimos seis meses: 15 horas de AWS fora por um bug no DynamoDB, Cloudflare derrubando X, Discord e OpenAI simultaneamente, Azure fora globalmente por uma atualização malsucedida.

Em cada caso, o colapso não foi local, antes disso, foi em cascata. Uma falha numa ponta se propagou por sistemas de empresas que nem se conhecem, operando em setores completamente distintos. É a lógica inevitável de quando tudo roda no mesmo lugar.

💡 O que isso significa para quem trabalha com presença digital é mais simples e mais urgente do que parece: a audiência que você construiu inteiramente em plataformas de terceiros não é sua. É alugada de uma infraestrutura cujo uptime você não controla.

Em cenário como esse, aquela newsletter própria, a sua lista de contatos diretos, o canal que sobrevive ao próximo apagão — esses não são “canais alternativos”. São os únicos ativos digitais que ninguém pode derrubar sem que você perceba.

🔗 O diagnóstico veio de Josh Chapman, engenheiro e investidor, escrevendo na newsletter Konvoy sobre o que os apagões de 2025 e 2026 revelam sobre a arquitetura de risco da internet. Vale a leitura completa. → An Unreliable Future

O MIT passou dois anos com mais de 50 organizações tentando entender por que a adoção de IA generativa trava onde trava. A conclusão mais útil não está nos números de produtividade. Está num alerta que o relatório chama de overuse: quando a automação funciona tão bem que o processo para de melhorar e as pessoas param de aprender.

Há algo estruturalmente semelhante ao que acontece com a infraestrutura de cloud. Você centraliza, ganha eficiência, e a dependência se instala de forma invisível.

Estudos ligam uso intenso de IA a menor recall de informação relevante, atrofia de habilidades e perda de capacidade colaborativa. Um engenheiro pediu ao analista que raciocinasse sobre um problema no quadro branco, sem laptop, sem modelo. Ele teve dificuldade. Não porque não soubesse. Porque havia terceirizado o primeiro rascunho do pensamento por tempo suficiente para que o músculo se enfraquecesse.

O antídoto não é usar menos IA. É o que o relatório chama de design for learning: construir sistemas em que o aprendizado humano seja prioridade explícita, não consequência acidental. Para quem produz conteúdo, a pergunta é direta: este uso está me tornando melhor no que faço, ou está me fazendo depender de algo que não controlo completamente?

🔗 Esse argumento ganhou estrutura depois que me deparei com uma pesquisa do MIT Work of the Future, publicada na newsletter Generation AI. Dois anos de campo, mais de 50 organizações, e o alerta mais importante é o que menos aparece nas conversöes sobre IA. → How is this time different?

Já repararam como o Reddit parece uma relíquia? Posts de texto longos, usernames no lugar de rostos, piadas internas que levam semanas para se entender. Não há filtro de beleza, não há música de fundo, não há transição suave. É a internet de 2004 funcionando em 2026.

E é exatamente por isso que está virando fronteira criativa. O relatório da KarmaLab identificou quatro tendências que estão redefinindo campanhas nesta plataforma — nostalgia como estética, UGC sem patrocínio como prova social, campanhas construídas para nichos culturais e não para demografias, histórias que evoluem com a comunidade em vez de serem lançadas e encerradas.

O denominador comum não é tático. É uma rejeição implícita ao que aconteceu com as outras plataformas quando foram completamente otimizadas: o feed se esvaziou de peso.

Aqui um case: a marca Philadelphia criou uma campanha inteira em torno de uma piada interna do subreddit de cozinha sobre cebolinha no cream cheese. Não porque a estratégia era irreverente. Mas porque a comunidade notou que a marca havia, de fato, prestado atenção. Num ambiente em que tudo é produzido para conversão, a atenção genuína virou sinal raro.

Quando a eficiência remove a fricção, o que sobra com fricção vira luxo.

A história da Philadelphia e do Chivegate está no relatório de tendências criativas 2026 da KarmaLab, o laboratório de pesquisa do Reddit, publicado direto no blog do Reddit Business. Raro ver uma plataforma ser tão honesta sobre o que funciona no seu próprio ambiente. → Creative Trends 2026

A Kiro AI não sabia que estava quebrando nada. Ela fez exatamente o que foi projetada para fazer. O problema foi a arquitetura que a deixou fazer.

Essa frase serve para os três sinais desta edição. A ferramenta que otimiza a infraestrutura até ela não ter mais redundância. O modelo que escreve o primeiro rascunho até o músculo humano esquecer como começar. O algoritmo que poliu os feeds até as pessoas fugirem para um fórum sem filtro.

A questão não é se a eficiência é ruim. É o que você deixou de controlar enquanto a perseguia. E o que, por não ter sido otimizado, acabou valendo mais.

Os três sinais desta edição vivem na fronteira entre tecnologia, comunicação e cultura — e em todos eles o padrão é o mesmo: a pergunta utilitarista foi respondida com competência.

Como centralizar infraestrutura. Como automatizar o primeiro rascunho. Como otimizar o feed para retenção. O que ninguém perguntou foi o por quê. Por que manter redundância. Por que preservar o músculo humano. Por que deixar a fricção existir.

O que sobra, nos três casos, é a resposta tardia ao por quê.

Durante a semana que levo para montar esta edição, me deparei com um argumento que funciona como resposta direta ao fecho acima. M.G. Siegler, comentando uma frase de Steve Jobs sobre a Microsoft em 1995 — “eles não têm gosto” — constrói o caso mais operacional que li até agora sobre o que separa um profissional criativo humano de um agente de IA.

Não é criatividade. Não é humanidade como valor genérico. É julgamento: a capacidade de tomar a decisão certa em contextos onde a IA produz probabilidades e o cliente precisa de uma escolha. A IA gera. Quem tem bom julgamento destila.

Escrevi sobre isso no radar do ma.com — e coloco aqui porque é exatamente a outra face do que esta edição está descrevendo. O que não foi otimizado para fora do processo criativo é o que um cliente contrata quando contrata alguém com gosto calibrado. Por enquanto, nenhuma ferramenta faz isso por ele.

🪫 AI fatigue is real and nobody talks about it. Siddhant Khare documenta o paradoxo que muitos sentem mas poucos nomeiam: a IA nos faz produzir mais, mas pensar menos — e o esgotamento que vem daí não é preguiça, é carga cognitiva acumulada. A habilidade mais rara desta era não é usar IA. É saber quando parar. →

📺 As redes sociais pararam de ser sociais. John Herrman, na NYMag, batiza o fenômeno: desocial media. O Instagram Reels não conecta pessoas — recomenda conteúdo de estranhos em loop infinito. O que era arquitetura social virou arquitetura de consumo passivo. A diferença importa para quem produz e para quem assiste. → | E também no meu Threads →

🎭 Absurdgasm: quando o caos criativo vira vantagem competitiva. Félix Mathieu cunhou o termo para descrever o alívio emocional que surge quando marcas abandonam a pretensão de normalidade. MSCHF e Gentle Monster não são irreverentes por acidente — são coerentemente incoerentes num mercado onde tudo foi polido até perder textura. →

🕸️ A internet fica suportável com RSS. Cory Doctorow revisita o Google Reader — assassinado em 2013 para impulsionar o Google Plus — como exemplo clínico de enshittification: plataformas que degradam deliberadamente a experiência para extrair valor. O RSS sobreviveu porque ninguém conseguiu monetizar sua simplicidade. É chato, é fiel e é seu. →

🎬 O YouTube é o novo sistema de estúdios. Dana Harris-Bridson, na IndieWire, documenta algo que estava acontecendo devagar e ficou óbvio de repente: a infraestrutura do cinema independente foi desmantelada e substituída pela creator economy. Cineastas jovens não querem ir a festivais — querem construir audiência. A infraestrutura mudou de mãos. →

🤝 Anthropic recusou. E isso virou produto. O TechCrunch documenta como a Anthropic se viu classificada como “risco à cadeia de suprimentos” pelo governo americano após recusar contratos militares. A ironia: o mesmo ecossistema sem regulação que a empresa ajudou a construir é o que agora a pressiona. A armadilha que a indústria de IA montou para si mesma. →

🤖 Seu próximo cliente pode ser um chatbot. O NYT revelou que empresas estão criando conteúdo explicitamente para educar modelos de IA, não humanos. A Athenahealth contratou profissionais dedicados a isso. O desafio prático: estruturar narrativa para uma audiência que não se emociona, não compartilha e não converte da forma usual. →

⚙️ Solopreneurs estão vencendo equipes inteiras. Fast Company Brasil: 54% dos freelancers têm proficiência avançada em IA, contra 38% de empregados tradicionais. Não é por talento — é por ausência de burocracia. A fricção organizacional não é só ineficiente; ela é, literalmente, a diferença entre usar e não usar bem. →

🎥 Méliès filmou um robô em 1897. A ansiedade é mais velha do que você pensa. Gugusse et l’Automate foi redescoberto após 127 anos desaparecido. O primeiro filme de ficção científica da história já explorava a tensão entre o humano e o mecânico. Conclusão útil: o medo da máquina que nos substitui não é novo — e nunca terminou do jeito que imaginávamos.

🎵 Apple Music vai rotular músicas feitas com IA. Com uma condição. A rotulagem é opcional e depende do fornecedor declarar. A Deezer, que construiu seu próprio sistema de detecção, descobriu que conteúdo gerado por IA já representa fatia expressiva do catálogo. Transparência que não é auditada não é transparência — é PR. →

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