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devaneios.com · Dec 30, 2024

Devaneio #18: Melhor fim do ano possível

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Marina Grandolpho · devaneios.com

Desde o último post da newsletter eu estava certa de que antes de o ano acabar escreveria um outro texto. Ontem, durante o banho, pensei em alguns temas para ele, como as personagens com quem o público parece se afinar, que de algum modo trataria da construção de personagens (este post ainda vai acontecer), e a metáfora do último poema publicado no instagram antes de eu desativar a conta (faca e queijo na mão, goiabada e afins), mas talvez eu estragasse as possibilidades interpretativas para quem o leu. Ah, também pensei em falar sobre a complexidade que pautam as relações familiares, já que falhei completamente no propósito de evitar tensões de fim de ano na casa dos meus pais, e desisti na sequência achando que seria manjado. Por fim e em tempo, sondei a possibilidade de iniciar o escrito de hoje com os primeiros versos de “Tabacaria”, de Álvaro de Campos, certamente prosseguindo com algo bastante baixo astral e autodepreciativo, que não vem ao caso e que tenho procurado evitar.

No entanto, acabou que me sentei à frente do computador e julguei melhor deixar as palavras fluírem. Assim está sendo: um trem desgovernado. Zero projeto de texto. Logo eu, que falo tanto aos meus alunos da importância deste item de luxo. Pois bem, nos últimos tempos, quando deixo a escrita rolar, sem nenhuma amarra (como se isso fosse possível ao meu superego rígido), ela tem encontrado três direções: poemas com imagens cotidianas que falam muito sobre o meu momento, reflexões sobre o ato da escrita, escolhas que dizem respeito ao romance que estou tentando (e muito, juro) construir.

Enquanto menciono esses caminhos, escolho os que vou percorrer por aqui, todos circunscritos por uma suposta crise generalizada. Isso tudo porque eu pensei que, ao entrar de recesso, conseguiria ser superprodutiva (a ilusão de fato nos impede de olhar para dados concretos, como os de um ano extremamente pesado e exaustivo). E, não, não estou conseguindo nem sequer ser produtiva. Estou sentindo cansaço, ansiedade, meu corpo às vezes dói dando notícias de que não sou uma máquina, não estou conseguindo organizar coisas básicas em casa, por exemplo: pendurar um quadro que caiu da parede. O lance é que passei o Natal na casa dos meus pais e já voltei para Campinas disfarçando um percalço com o propósito de terminar o ano organizando tudo (de dentro para fora, sobretudo) e sendo produtiva, contudo me encontro o completo caos – aliás, a ida para Catanduva contribuiu para que esta bagunça particular se revelasse, quase que na imagem de uma porta de armário sendo aberta e tudo desmoronando sobre a nossa cabeça, sabe? Isso. Haja decepção.

É bem provável que por isso tudo eu não esteja conseguindo ler nem escrever muito, tampouco ser produtiva de um modo geral. Para não me sentir uma completa inútil, tenho celebrado o fato de que Cecília está de volta para os meus dias e voltei a ouvir de hora em hora (talvez menos) a palavra “mãe”. Tudo na melhor normalidade. A casa se ilumina de novo, é claro. Ademais, tenho contemplado pequenas tarefas cotidianas executadas: fazer compras para a ceia de fim de ano; organizar e limpar a bancada da cozinha; cortar pepino, tomate e cebola, picar salsinha e hortelã, hidratar o trigo, tudo para o tabule; preparar tapioca com queijo minas e especiarias para o café da tarde. É o que tenho para hoje. E, na verdade, me parece muito bom. Sofrer com o ontem ou o amanhã só vai me deixar mais exaurida e ansiosa. No meio disso tudo, veja bem, ainda consegui finalizar o texto de orelha mencionado aqui anteriormente, estou escrevendo esta newsletter, tenho escrito cartas (que nunca serão enviadas), consegui reconstruir a cena inicial do romance, e que provavelmente vai ser o coração do primeiro capítulo.

A propósito, o ímpeto em relação à reescrita desta parte começou com uma frustração solucionada: o nome da minha protagonista. O nome que ela teria é o mesmo adotado para uma protagonista de um romance contemporâneo, também escrito por uma mulher. Me pareceu esquisito repetir. Não seria intencional, óbvio, até então eu não sabia o nome desta personagem; entretanto, saber e insistir soaria coincidência demais, quiçá cópia. Preferi não arriscar. Isso foi quase a morte da minha personagem. O nome carregava muito da sua força. Fiquei meses pensando, bastante desanimada, em outra possibilidade, até que semana passada, o novo nome veio. Não estava bem no dia, passei a tarde toda à base de chá de camomila (sim, chá NESTE calor), ainda assim, no momento em que o nome surgiu, a personagem de algum modo renasceu e eu comecei a (re)escrever.

O fragmento inicial do romance jorrou e fez brotar algum ânimo, que minguou tão rápido quanto expandiu, porém não a ponto de me fazer desistir. Inclusive, o que escrevo agora é um lembrete de que ando viva demais para desencanar das coisas, apesar da exaustão e da ansiedade. Vivíssima, mas ainda precisando: descansar, desacelerar, respirar fundo, não pensar muito no passado nem no futuro, sentir intenso (ouço Maria Bethânia, e obrigada por essa deixa, Kleber Mendonça Filho), ir um passo por vez. Este texto é, também, um passo que eu quis dar, mesmo sem tanta inspiração, uma partilha genuína e uma oportunidade para desejar a todo mundo que me acompanha o melhor final de ano possível (possível porque nos salva de incorrer em idealizações) e que 2025 traga bons ventos, daqueles bastante respiráveis e frescos.

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