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devaneios.com · Jun 15, 2025

Devaneio #19: Ou isto ou aquilo

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Marina Grandolpho · devaneios.com

Há meses escrevo textos e penso em postar aqui. Acabo desistindo por achar que nunca estão bons ou interessantes o suficiente. Um misto de rigidez e insegurança que não me deixa sair do lugar. Me pego sem a possibilidade de explorar outras paragens para além do espaço que meu superego, rigoroso que só, me conferiu. Inclusive, esta semana escrevi um texto que me agradou inicialmente, porém, ao voltar no documento para postá-lo, mudei de ideia. Me dou conta: preciso escrever sobre essa mistura de sensações que têm assombrado os últimos tempos.

Considerando a quantidade de gatos pingados que me leem aqui, nem faz sentido esse suposto preciosismo textual, principalmente em se tratando de newsletter. O fato é que venho me questionando muito em relação ao ofício da escrita, talvez porque eu esteja com menos disposição para me dedicar ao seu exercício, talvez porque eu esteja em crise. A cabeça anda um pouco anuviada e agitada com situações da vida e com projetos que se encontram em um andamento sem fim. É inevitável que isso me angustie um pouco. Gostaria de poder resolver tudo e ainda ter tempo para finalizá-los e trazê-los ao mundo; no entanto, imediatamente me deparo com outra questão: por que publicar? Mal consegui trabalhar na divulgação do meu último livro, a poeira da casa ainda dança, publicado em agosto do ano passado pela Editora Patuá – o que me deixa triste, aliás.

Não há muito o que se fazer. Os dias estão mais corridos por conta das demandas da vida adulta e o manejo da nossa energia vai ficando diferente com o passar dos anos. As escolhas passam a ser cada vez mais restritivas. Escrever um livro demanda tempo e energia, os quais encontro nas frinchas das urgências cotidianas, e que não para por aí: esvaídos os recursos com a escrita, depois vem o publicar e divulgar, que exigem mais um tanto de tempo e energia. Parece que a conta não fecha. Me vejo no dilema do poema da minha infância. Ou isto ou aquilo. Percebo o quanto é custoso e injusto escolher entre emergências e tudo aquilo que gostaríamos de fazer, mas que se pode postergar.

Descubro que me tornei uma grande procrastinadora e, quando enfim consigo me livrar desse processo mental, continuo adiando a escrita, que nunca está satisfatória. Me sinto uma idiota porque escrever, para mim, é uma necessidade que não precisa estar atrelada a um projeto estético nem a uma preocupação nonsense com o que as pessoas vão pensar. Que pensem. O compromisso é comigo mesma, de ao menos tentar dar contorno às coisas que quero dizer em voz alta, e este é um dos espaços que me permite apresentá-las. Ufa. Paro de hesitar e começo a pensar em formas de finalizar este texto. Nesta altura já imagino as pessoas revirando os olhos e bufando contra ele. Paciência.

Ainda não me decidi se estou sem energia ou em crise com a escrita, provavelmente esteja sendo atingida e ferida pelos dois balaços. A despeito disso, estou aqui, num domingo frio e preguiçoso, chacoalhando o pote de inspiração de cabeça para baixo, como quando o xampu acaba e tentamos aproveitar as últimas gotas escorrendo pelas paredes do recipiente, porque o cabelo precisa ser lavado. Torna-se inegociável adiar. (Se não faz sentido a analogia do cosmético, substitua o xampu por qualquer outro artigo que faça sentido para você. Está tudo bem.)

Eu sei que lá fora o frio é excessivo, sei também que há pessoas dormindo na rua neste momento, sei também que o mundo está em guerra. E esses são apenas alguns da interminável lista de problemas deste mundo de meu deus. Por isso sempre concluo que os temas para a escrita são quase infinitos. A inspiração deveria transbordar. Contudo, parece ainda mais difícil encontrar energia e se desvincular da crise num mundo que a todo momento te faz questionar o propósito disso tudo. Não preciso ir muito longe para isso. Todo santo dia meu trabalho (o que paga os boletos) me lembra e me traz uma nova lapada. Chego a ficar tonta. Mesmo contra a nossa vontade, estamos chafurdando na lama. Praticamente todo mundo lascado. Alguns mais, outros menos. Me decido por fim: falta energia e há crise. Creio que não só para mim. Exaustão e crise coletivas. No intento de me rebelar contra isso, este texto. Um completo desastre, quiçá.

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