Estou em uma janela do trabalho, com todas as minhas pendências relacionadas a ele finalizadas, cumprindo as últimas horas que ainda me cabem e pensando nas outras outras pendências, as que ainda não foram rematadas. Listei: escrever a orelha de um romance do qual fui leitora beta (e que, de algum modo, já está um pouco escrita mentalmente), comprar alguns presentes, terminar uma leitura iniciada esta semana, dar cabo desta enxaqueca que me atormenta há mais de 24 horas, confraternizar com amigas. Isso para falar das pendências que são passíveis de serem expostas numa newsletter, porque há outras, íntimas e secretas, que a gente evita até mesmo falar em voz alta.
Pensei em fazer deste texto, nascendo aqui e agora, um balanço do ano de 2024, mas acho que seria precoce, uma vez que ainda faltam mais de dez dias para o efetivo fim e coisas ainda podem e/ou estão por acontecer. Um gato pode ficar preso no motor do carro, por exemplo, coisa que aconteceu no final de 2022. Eu posso brigar com a minha família toda e voltar de Catanduva para Campinas a fim de passar o ano-novo sozinha, algo que aconteceu, se não me engano, em 2021. É inegável que as festas de fim de ano nos encontram num estado deplorável de espírito, decorrente do cansaço do ano, das emoções à flor da pele, dos traumas familiares que nos revisitam neste momento de tanto contato. Pelo menos comigo, é assim. É provável que alguém se identifique e, a meu ver, não existe nada mais solidário do que a sensação de familiaridade no que é vivido pelo outro.
Divagando nestas linhas, percebo que estou há pouco mais de 15 dias longe da minha filha. Não foi incomum neste meio tempo a percepção de um sentimento de vazio gerado pela sua ausência. É certo que ela colore os meus dias, assim como os tumultua. Foi dela o primeiro presente comprado, com uma antecedência imensa. É por ela a preocupação de que tudo corra bem neste final de ano, o desejo de que nenhum gato se machuque e nenhuma desavença aconteça. Estou respirando fundo. Tentarei evitar. Ficarei vigilante em relação aos motores de carros e gatos, contarei até dez todas as vezes que alguém da minha família tangenciar os limites estabelecidos. Ao menos, ninguém me perguntará de namoradinhos nem de filhos nem de emprego. Não mais.
A vida que levo, aos olhos alheios, parece ser uma boa vida. Não que seja excelente, mas de fato é boa. Gosto do meu trabalho, o que paga os boletos (não amo – não mais – o brilho nos olhos se perdeu um pouco depois de quase 15 anos), ganho o suficiente (poderia ser mais), tenho um segundo trabalho (que me remunera infimamente mas traz bastante satisfação pessoal), sou relativamente feliz (apesar das crises e rompantes de tristeza – indícios, aliás, de que talvez eu esteja vivendo certo), tenho uma filha incrível (incrível mesmo, zero corujice aqui). Me parece, de fato, boa, ainda que eu me sinta quase sempre equilibrando muitos pratos. As pessoas mais velhas dizem que isso é fase, que passa. Procuro acreditar, mesmo porque houve um período da vida que eram bem mais pratos do que atualmente, então me situo.
Não sei se tenho muito mais o que dizer além disso, tampouco sei se era o caso dizer algo hoje, porém me pareceu um momento oportuno para espanar a poeira das prateleiras desta newsletter, elas andam tão empoeiradas. Hoje devo sair das redes sociais por um tempo, contudo quero manter este espaço, mesmo nas férias. Seria uma forma de alguma forma estar em contato com o outro, sobretudo com quem me lê. Não sou a pessoa mais sociável, no entanto gosto de estar em relação. As relações até fazem sentido quando respeitam aquilo que estamos dispostos a doar para que funcionem. Acredito muito nisso.
Meu expediente logo mais acaba, entro de recesso e depois de férias. Finalizo esta mensagem, reiterando as demandas aqui dispostas: cumprir a lista de pendências, pensar e elaborar as pendências não listadas (ainda que não seja em voz alta), estar atenta aos animais da casa onde passaremos as festas, não me indispor com familiares, sentir os vazios deixados pela minha filha (cada vez maiores) de forma tranquila (contemplando maravilhada seu florescimento), tentar manter as prateleiras desta newsletter minimamente limpas.
Até mais e obrigada a você, que parou todos esses minutos para me acompanhar neste devaneio. Espero te encontrar, de novo, na semana que vem.
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