Apesar de toda a educação, toda a comunicação e todas as melhorias técnicas a que temos assistido, ainda é comum que os vinhos do Douro e os vinhos do Alentejo sejam sempre apresentados da mesma forma.
Há, inclusivamente, mercados como o do Brasil e de Angola, que têm particular apreço por vinhos destas regiões, rejeitando imediatamente os de outras, mesmo que não saibam exatamente porquê.
Mas o problema é que continuamos a vender um Douro e um Alentejo que nem sequer são o Douro e o Alentejo melhores que podemos oferecer.
Aliás, se pesquisarmos genericamente por vinhos do Douro, fontes oficiais vão dar-nos a seguinte descrição: “Os vinhos do Douro são vinhos de lote encorpados e complexos. Os tintos destacam-se pela potência, aromas de frutos pretos e taninos firmes. Os brancos são aromáticos e minerais”. No mesmo sentido, se procurarmos por vinhos do Alentejo, o que lemos é isto: “Os vinhos do Alentejo são, de forma geral, quentes, encorpados e muito frutados. Devido ao clima mediterrânico e ensolarado, apresentam taninos macios, aromas maduros e teor alcoólico um pouco mais elevado. São vinhos sedutores, ideais para acompanhar pratos de carne ou enchidos regionais”.
Pode haver descrições mais aborrecidas (e falaciosas, de alguma forma) do que estas?
A verdade é que os vinhos do Douro são mais do que apenas referências de lote, encorpados e complexos. Muitos deles são também vinhos elegantes, cada vez com menos álcool, boa acidez… há monocastas absolutamente fantásticos a ser produzidos – já aqui falei de vários deles que ganharam o meu coração, ao longo dos anos – e o Douro tem sabido manter-se num patamar muito interessante de qualidade, apesar dos desafios da região.
Quanto ao Alentejo, tem-se reinventado e tem crescido sobretudo nos microclimas de que também é feito. É verdade que são vinhos naturalmente com menos acidez e frescura, porque o clima assim dita, mas há lugares como a Serra de São Mamede ou a Vidigueira que têm surpreendido com referências tão diferentes que, em provas cegas, até já despistaram vários especialistas.
O mesmo está a acontecer com a região dos Vinhos Verdes, que está MUITO longe de nos trazer apenas referências frisantes como muitos de nós continuamos a pensar. Recentemente, Recentemente, provei os vinhos que o [escanção] Bruno Antunes tem estado a fazer com o [experiente] enólogo António Sousa e um deles surpreendeu-me particularmente: o Sauvignon Blanc – o que me faz engolir um sapo do tamanho do mundo, porque lá se vai a minha teoria de que devemos usar sempre castas indígenas.
[E daí o disparate que escrevi no email anterior, se tiveram a ousadia de o ler, porque provei vários do Bruno Antunes de rajada, e agora ele anda nesta senda de fazer vinhos com enólogos incríveis e eu baralhei-me toda. Mas a verdade é o que mesmo é válido para outras referências de que falarei noutra ocasião, agora sem as baralhar todas. Perdoem esta cabeça com falta de férias 😉 Se não sabem do que falo!, perfeito!! Continuem no parágrafo abaixo]
A produção e a chegada ao mercado deste vinho têm sido discretas, e é uma pena, porque a referência é de uma qualidade e energia que vale a pena conhecer. Tem 12% de álcool, é um vinho fresco, cheio de aromas tropicais e que acompanha lindamente pratos de carnes brancas, saladas frias e mesmo uma tábua de queijos fumados ou mais intensos, fazendo com que aquela definição genérica sobre os vinhos da região dos Vinhos Verdes não se aplique a todo o lado.
É um A+ fácil na minha notação e, ainda por cima, tem um preço que é super apelativo – não chega a €10 e está à venda em garrafeiras selecionadas. É daqueles vinhos consensuais que podem levar para a mesa quando têm amigos a jantar – ou quando vão a cas de amigos – e que não vai desiludir.
No mesmo sentido, se querem um vinho do Douro diferente daqueles que encaixam definição genérica de vinhos do Douro, porque não experimentar o Proibido Dejà Vu 2022, do Márcio Lopes, que nos tem trazido referência muito interessantes. Este, produzido a partir de Alvarelhão, Tinta Roriz, Tinta da Barca e Touriga Nacional. É um vinho com um enorme potencial de guarda, apesar de se apresentar já redondo e elegante na boca, com 13,5% de álcool e uma frescura muito interessante que se integra lindamente num corpo longo que não se impõe demasiado. Outro A+ na minha notação.
Se querem um vinho do Alentejo – noutra gama bastante diferente – que também é muito pouco daquilo por que Alentejo dito normal é conhecido, podem ir experimentar o que a Sogrape fez com o estabelecimento prisional de Pinheiro da Cruz. Só a história é uma delícia (o vinho, esse, é um pouco mais caro, a rondar os €65 e só está disponível junto da marca ou então nos estabelecimentos do grupo JNCQOUI). Desta parceria improvável saiu um Série Ímpar rosé assinado pelo Luís Cabral de Almeida, nascido em solos arenosos e produzido através de uma casta pouco habitual nos vinhos da Sogrape. É feito sobretudo de Castelão (50%), à qual se juntam Aragonez (35%) e Syrah (15%).
Outro A+, porque “três é a conta que Deus fez”.
Despite all the education, all the communication and all the technical improvements we have witnessed, it is still common for wines from the Douro and the Alentejo to be presented in exactly the same way.
There are even markets, such as those in Brazil and Angola, which have a particular fondness for wines from these regions, immediately rejecting those from others, even if they do not know exactly why.
But the problem is that we continue to sell Douro and Alentejo wines that are not even the best Douro and Alentejo wines we have to offer.
In fact, if we search generally for Douro wines, official sources will give us the following description: “Douro wines are full-bodied and complex blends. The reds stand out for their power, aromas of black fruits and firm tannins. The whites are aromatic and mineral.” Similarly, if we search for Alentejo wines, this is what we read: “Alentejo wines are, generally speaking, warm, full-bodied and very fruity. Due to the sunny, Mediterranean climate, they have soft tannins, ripe aromas and a slightly higher alcohol content. They are seductive wines, ideal for pairing with meat dishes or regional sausages”.
Could there be any descriptions more tedious (and, in a way, misleading) than these?
The truth is that Douro wines are more than just full-bodied, complex blends. Many of them are also elegant wines, with increasingly lower alcohol levels and good acidity… there are some absolutely fantastic single-varietal wines being produced – I’ve already mentioned several here that have won my heart over the years – and the Douro has managed to maintain a very high standard of quality, despite the challenges facing the region.
As for the Alentejo, it has been reinventing itself and growing, particularly in the microclimates that characterise the region. It is true that these wines naturally have less acidity and freshness, as dictated by the climate, but there are places such as the Serra de São Mamede or Vidigueira that have surprised us with wines so different that, in blind tastings, they have even managed to throw several experts off the mark.
The same is happening in the Vinho Verde region, which is VERY far from producing only sparkling wines, as many of us still assume. Recently, I tasted the wines that [sommelier] Bruno Antunes has been making with the [experienced] winemaker António Sousa, and one of them particularly surprised me: the Sauvignon Blanc – which makes me swallow a bitter pill the size of the world, because there goes my theory that we should always use indigenous grape varieties.
[Hence the nonsense I wrote in my previous email – if you were bold enough to read it – because I tasted several of Bruno Antunes’ wines in quick succession, and now he’s gone down this path of making wines with incredible winemakers and I’ve got completely confused. But the truth is that the same applies to other wines I’ll talk about on another occasion. Please forgive this mind in need of a holiday 😉 If you don’t know what I’m on about, perfect!! Carry on reading the paragraph below]
The production and market launch of this wine have been rather low-key, which is a shame, because this wine is of such quality and vitality that it’s well worth discovering. It has 12% alcohol; it’s a fresh wine, full of tropical aromas, and pairs beautifully with white meat dishes, cold salads and even a platter of smoked or more intense cheeses, proving that the generic description of wines from the Vinho Verde region doesn’t apply across the board.
It’s an easy A+ in my book and, to top it all off, it’s very attractively priced – under €10 and available at selected wine shops. It’s one of those crowd-pleasers you can bring to the table when you’ve got friends over for dinner – or when you’re visiting friends – and it won’t let you down.
In the same vein, if you’re looking for a Douro wine that differs from those that fit the generic definition of Douro wines, why not try Márcio Lopes’ Proibido Dejà Vu 2022, which has been producing some very interesting wines. This one is made from Alvarelhão, Tinta Roriz, Tinta da Barca and Touriga Nacional. It is a wine with enormous ageing potential, although it is already well-rounded and elegant on the palate, with 13.5% alcohol and a very interesting freshness that blends beautifully into a long finish that is not overly assertive. Another A+ in my book.
If you’re looking for an Alentejo wine – in a rather different vein – that’s also quite unlike what the so-called ‘standard’ Alentejo is known for, you might want to try what Sogrape has produced in collaboration with the Pinheiro da Cruz prison. The story alone is a delight (the wine itself is a little more expensive, at around €65, and is only available directly from the brand or at JNCQOUI group outlets). From this unlikely partnership came a Série Ímpar rosé crafted by Luís Cabral de Almeida, grown on sandy soils and produced using a grape variety rarely found in Sogrape’s wines. It is made primarily from Castelão (50%), blended with Aragonez (35%) and Syrah (15%).
Another A+, because “three’s a charm”.

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