Domingo, fim da missa. Eu estava livre para conversar com outras crianças, propor brincadeiras no jardim da igreja e compartilhar comentários guardados durante a hora de celebração. O penteado engraçado da Rosa, a camiseta furada do Nestor, o chulé da Silvana. As observações maldosas eram um divertimento após o compromisso religioso.
A igreja ficava perto de casa, num bairro periférico da cidade, e ir até lá era programação inegociável, ainda que eu preferisse dormir um pouco mais naquelas manhãs. “Reclamar não adianta, você é a mais velha, precisa ser referência para os teus irmãos”, minha mãe dizia.
Zombamos do Américo por duas ou três semanas, mas a figura dele logo se incorporou à rotina da comunidade, perdeu a graça comentar. Analfabeto, pediu para compor o grupo encarregado das leituras bíblicas. Pelo número de integrantes da equipe, a cada dois meses ele ficava responsável pelo primeiro ou pelo segundo texto durante a cerimônia.
Ninguém ousou contestar a vontade do homem, fazê-lo mudar de ideia, desistir da função que, como diziam aos sussurros, não combinava com ele. Grupo da liturgia é para leitores, que sabem decodificar os trechos bíblicos, enviá-los à assembleia, nome dado ao público no folheto do ritual.
Mais tarde, aprendi que missa e míssil derivam do mesmo termo – mittere – do latim. Inicialmente, não enxerguei relação possível, mas tem. O míssil segue trajetória predeterminada, é guiado até um alvo específico. A missa envia palavras específicas para que, por meio delas, os fiéis sigam trajetórias predeterminadas. Ai de quem pegar atalhos!
No dia da estreia do Américo, eu estava lá, à espera da palavra-míssil, mas ele não foi capaz de soltá-la. Ensaiou começos, gaguejou, soletrou, silenciou. A comunidade muda ouvia o som dos ventiladores de teto, evidenciado pela pane do pretenso leitor diante da missão. Ao sinal dos primeiros risos, o padre levantou, caminhou até o púlpito, se apossou do microfone e realizou a leitura com calma, o Américo em pé ao lado do sacerdote. Palavra do Senhor. Graças a Deus.
Ao fim da missa, não havia outro assunto. Crianças alfabetizadas teciam comparações, destacavam a rapidez com que alcançaram uma leitura fluida. Entre os adultos, alguns criticavam, cobravam mudanças na escala da liturgia; outros destacavam a coragem do Américo. Ficou definido que ele continuaria no rodízio.
Nada mudou em um ano inteiro, permaneceram os gaguejos e silêncios do Américo diante dos fiéis. As crianças pararam de rir, ninguém comentava, os padres e ministros celebrantes ficavam a postos porque sabiam que a leitura seria feita por eles. Quando o frei Aldo chegou, vindo de Rondônia, assumiu cargo na paróquia e foi designado a acompanhar a igreja que frequentávamos. Era alto, magro, corcunda, com cara e sotaque de alemão. Logo perguntaram se havia nascido em outro país, mas ele fez questão de enfatizar: “Sou muito brasileiro”. A verdade é que nasceu numa vila de colonos alemães em Santa Catarina, por isso puxava tanto os erres.
Após presenciar a participação do Américo na missa, frei Aldo convocou uma reunião com a equipe de liturgia e comunicou o afastamento do homem da escala dos domingos. “Não podemos permitir que nosso irmão seja exposto, vire chacota. A partir de agora, ele está fora da escala e, se quiser, poderá ter aulas semanais comigo, vai se tornar um ótimo leitor”.
Encerraram a reunião e o Américo, acanhado, procurou o frei para conversar. “Frei Aldo, quero aprender essa arte. Quando a gente começa?”. “Pode ser amanhã, fim da tarde, na tua casa.” “Minha casa é muito simples, o senhor não se importa?” “De jeito algum, me explica onde fica.” Os dois se encontraram no dia seguinte, na sala de paredes sem reboco, chão de cimento batido, três cachorros e dois gatos em convivência harmônica. O frei, recebido com café fresco e bolachas de maisena, presenteou Américo com cadernos e canetas novos naquela primeira aula.
Às vezes, o frei vinha jantar conosco e, nas conversas com meus pais, contava como estavam sendo as aulas. O aluno era esforçado, aprenderia mais rápido do que o previsto e voltaria à equipe da liturgia. O frei destacava a humildade do Américo, o jeito simples como ele encarava a vida, a força e dedicação demonstradas pelo exímio pintor. Assim o aprendiz ganhava a vida, a colorir paredes.
Encontrar na casa do Américo duas estantes repletas de livros foi uma surpresa para o frei. A maioria das obras era de literatura brasileira, especialmente romance e poesia. Minha mãe, quando soube, foi até lá na tentativa de encontrar os livros indicados pelas nossas professoras de Português. “Se eu achar algum volume, já economizo.” Dito e feito: achou “A rosa do povo”, do Carlos Drummond de Andrade, minha introdução na poesia.
Um dia, após a missa, alguém comentou que, em breve, queimaria livros e discos. “Vou me afastar das coisas do mundo, esse tipo de arte não interessa mais. Daqui em diante, consumo apenas o que vem de Deus”. Américo ouviu o comentário e se desesperou. Ainda que não soubesse ler, valorizava a cultura, não podia deixar livros e discos virarem cinzas. “Queima não! Traz no próximo domingo, eu dou um jeito de levar para casa.”
Américo não se importou de dar “A rosa do povo” para minha mãe, mas deixou claro que não renunciaria a outras obras. Leria todas elas depois que aprendesse a formar sílabas, palavras, frases. Estava ansioso para o que encontraria na Bíblia e nas estantes de casa. Empolgado, pedia aulas extras ao frei sempre que o trabalho dava trégua e se sentia dono do seu próprio tempo.
O retorno do Américo às celebrações não teve comunicação prévia à equipe. Frei Aldo escolheu a missa de Páscoa, avisou o fiel leitor e antecipou a ele a leitura que lhe caberia, para que pudesse se preparar. O trecho curto foi lido tantas vezes que, ao final, permaneceu gravado na memória do aluno em processo de alfabetização.
Todos perceberam quando chegou o dia. Américo vestia a bata branca bordada em dourado. Compôs a procissão de entrada, tomou assento no banco mais à frente, respondeu frases em automático enquanto controlava o medo de que algo desse errado. “Vai dar certo, eu decorei o texto”, repetia mentalmente.
A leitura poderia ser considerada impecável, não fossem dois ou três deslizes, mas eles não diminuíram a sensação de vitória do fiel. Ele precisou esticar a permanência na igreja após a missa para receber os cumprimentos dos irmãos e irmãs. Até as crianças, que antes cochichavam e soltavam risinhos quando ele passava, manifestaram alegria diante da superação do homem.
O frei Aldo se envaideceu, dizia a todos que era responsável pelo feito do Américo, a quem passou a chamar de discípulo. “É dedicado, mas de nada adiantaria se não tivesse um professor paciente”, enfatizava. Para o sacerdote, aquele era o começo de uma bonita caminhada religiosa.
Ninguém contava com o sumiço do Américo, que não voltou à igreja depois daquela missa de Páscoa. O frei esperou uns dias para visitá-lo, saber se estava bem, se precisava de algo, se andava adoentado. Encontrou o discípulo trabalhando no quintal de casa, onde preparava vasos para plantar flores e temperos. Parecia forte, disposto, distante de qualquer enfermidade.
Américo pediu ao frei que entrasse e esperasse na sala, enquanto ele preparava café. Aldo notou diferenças nas estantes de livros, arrumadas de acordo com os nomes dos autores, em ordem alfabética. O novo leitor experimentava a satisfação de organizar as obras conforme desejava.
Sem habilidade para rodeios, o leitor agradeceu ao frei pelos ensinamentos, falou do quanto se sentia valorizado com as visitas e aulas, contou da transformação que a leitura provocou na vida dele e, entre goles de café, confessou:
“Depois que aprendi a ler, tô aprendendo quem sou. Acontece que eu não sabia muita coisa de mim e ainda não sei, mas me descubro um pouco a cada dia. E eu entendi que prefiro ser leitor por conta própria, estudante da Bíblia sem culto ou missa pra me instruir. Perdoa este teu amigo, é que eu sou assim”.
O frei insistiu, contra-argumentou, mas não teve jeito. Prometeu visitar o Américo semanalmente para falarem de flores, temperos, livros, amenidades, pequenos milagres. Perdeu um discípulo, ganhou um amigo.
A rosa do povo - A obra de Carlos Drummond de Andrade citada no texto acima foi escrita no início da década de 1940, publicada em 1945 pela editora José Olympio. No livro, há um poema chamado “Ontem”, um dos meus preferidos. Compartilho aqui:
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