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Malabarista de Palavras · Apr 9, 2026

Um livro puxa outro

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Larissa Campos · Malabarista de Palavras

Não sou de planejar leituras, deixo que um livro me conduza a outro, de modo que não sei qual será a próxima aventura. Ao abrir um livro pela primeira vez, sei que ele levará a caminhos novos, ao desconhecido, e essa é uma das mágicas que o ato de ler proporciona. Tem sido assim por aqui.

Em março, estive entre a Transilvânia e a Inglaterra, acompanhando a saga de personagens como Jonathan e Mina Harker, Van Helsing, Arthur Holmwood, John Seward e Quincey Morris para destruir o Conde Drácula. Fui parar no romance do irlandês Bram Stoker depois de ler O homem não existe, da Lígia Gonçalves Diniz.

A obra de Lígia recorre a áreas diversas, especialmente à psicanálise, para analisar a construção da masculinidade na literatura. No capítulo Que cara é essa?, a autora examina a relação dos homens com a aparência, como eles se comportam diante do espelho. É nesse ponto que está uma das referências ao personagem “sem sombra e sem reflexo”, a famosa criação de Bram Stoker.

De acordo com Lígia, o autor era um aficionado das teorias de frenólogos e fisiognomonistas, “que afirmavam que o formato do crânio e os traços do rosto (ou do corpo todo) forneciam informações relevantes a respeito dos elementos interiores de seus donos”. (p. 124) Mais interessante foi saber da admiração de Stoker pelo poeta Walt Whitman, outro estudioso das teorias citadas acima, a quem o irlandês remeteu uma carta apaixonada na qual se descreve minuciosamente.

As paixões do autor influenciaram na criação do célebre personagem, desenhado desde as primeiras páginas da obra pelo advogado Jonathan Harker, um dos narradores de Drácula1.

Ao longo da leitura de O homem não existe, anotei algumas vezes o nome Drácula na agenda e decidi conhecer melhor o famoso conde. O livro é formado por diários e cartas que lemos em estado de tensão. Muitos elementos e acontecimentos não chegam a ser surpresa para o leitor, devido à fama da história e a tudo o que já se falou a respeito dela.

Impressiona a capacidade do autor de conectar núcleos narrativos diferentes sem deixar nada para trás. A leitura de uma obra como essa é ouro puro para quem, como eu, se aventura a escrever ficção. Na mudança para a Inglaterra, Drácula leva consigo 50 caixas de terra da Transilvânia. Ele precisa repousar em sua “terra natal” para recuperar as energias. Leio ficção com o mesmo intuito: repousar nas origens e revigorar o espírito.

Concluída a leitura vampiresca, eu ainda não havia definido o próximo livro, mas Drácula conduziria a ele. Estive recentemente em Brasília para visitar familiares e passei por algumas livrarias da cidade. Na Circulares, encontrei O idioma materno2, obra do escritor mexicano Fábio Morábito. Eu já havia lido alguns comentários a respeito do livro e me senti atraída. A quarta capa diz que ele:

reúne uma série de breves ensaios autobiográficos que giram em torno da leitura, da escrita, do trânsito entre as línguas e da vida cotidiana. Com ironia, ternura e humor, o autor transforma episódios aparentemente banais em reflexões sobre a literatura e o papel da linguagem na experiência humana.

Meio caminho andado. Comecei a folhear o livro, li alguns trechos e, por fim, voltei ao sumário. Nele encontrei os capítulos Drácula e o idioma e O leitor vampiro. A mensagem do conde havia chegado, a próxima leitura estava definida.

Drácula queria falar como um nativo

O inglês não era a língua materna do conde Drácula, por isso, antes de partir para a Inglaterra, ele aprisiona o advogado Jonathan Harker (inglês) em seu castelo na Transilvânia, na região central da Romênia. O conde deseja dominar o idioma, falar como um nativo. Esse é o tema do capítulo de O idioma materno em que Fábio Morábito se dedica ao personagem de Bram Stoker, associando-o a quem escreve em uma língua estrangeira e renasce a partir dela, como se tivesse duas vidas.

De fato, se escrever nos impõe uma máscara, então escrever em outro idioma nos impõe uma máscara dupla, isto é, um novo rosto. (O idioma materno, p. 70)

O escritor radicado em outro idioma, segundo Morábito, tem o mesmo desejo do conde e partilha da mesma “palidez linguística”, que costuma se traduzir como “excesso de estilo, ou seja, excesso de máscara para esconder, como o vampiro, sua condição de parasita”.

Livro + café = combinação perfeita

E a próxima leitura?

Ainda não terminei O idioma materno. Pode ser que ele aponte o próximo livro e, com isso, nova conexão seja criada. Se não acontecer, pretendo explorar as obras não lidas disponíveis na estante de casa.

E você? Como tem escolhido o que vai ler?

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Vale a pena conferir:

1

Li Drácula na edição da Zahar, publicada em 2017, com tradução de Alexandre Barbosa de Souza.

2

Editora Relicário, 2025, tradução de Mariana Sanchez.

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Read the original on malabaristadepalavras.substack.com

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