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Malabarista de Palavras · Apr 29, 2026

Manter o sonho vivo

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Larissa Campos · Malabarista de Palavras

Adiei a maternidade o máximo que pude, queria que a vida estivesse mais organizada para a chegada de um filho. Era o que eu dizia para mim mesma. Na verdade, podia ter acontecido mais cedo, mas não quis ter filho com nenhum dos parceiros anteriores.

Organizar a vida significava casa própria, carro quitado, condições de pagar escola e dinheiro sobrando. Dinheiro importa, não vou romantizar dizendo que basta amor, afinal, nem precisa ter filho para saber dos impactos financeiros da chegada de uma criança.

Engravidei querendo engravidar. Ao longo dos nove meses de gestação, a utopia da vida organizada fazia visitas frequentes. Criei uma listinha de questões que eu gostaria de solucionar antes do nascimento e tentei dar cabo delas. Consegui, em parte.

Vender o carro estava na lista. Com quase dez anos de uso, ele exigia mais manutenções. Além do dispêndio de recursos, havia a dor de cabeça de ficar na rua vez ou outra, chamar guincho e esperar, com ansiedade, o orçamento indigesto do mecânico. Eu estava no quarto mês de gestação quando pusemos o carro à venda. Nos livramos dele na semana em que meu filho nasceu.

Mesmo reconhecendo a utilidade do veículo no tempo em que nos serviu, senti alívio ao me despedir dele. Fomos para a maternidade no carro da obstetra (um dia, quem sabe, conto essa história) e voltamos para casa de carona com minha irmã. Sem carro e muito felizes!

Não risquei a maioria dos tópicos da lista de pendências, nascida da busca por controle, do desejo de evitar incômodos na licença-maternidade. Como se o mundo fosse parar por alguns meses para eu viver os primeiros capítulos da conexão mãe-filho.

O mundo não para, os problemas ignoram a chegada do bebê, somos forçadas à adaptação. Algumas pessoas têm o bom senso de compreender o momento e buscam nos poupar, dentro do que é possível. Outras não respeitam nada. A vida segue seu curso, entre a paz e o caos.

Manter o sonho vivo – O plano: usar o tempo de licença-maternidade para lamber a cria sem me preocupar com nada. A realidade: janeiro deste ano, terceiro mês de vida do meu filho, dois telefonemas com propostas de trabalho no mesmo dia.

Sou servidora pública em Mato Grosso e a primeira ligação trazia o convite para encarar missão jornalística em outro órgão, como servidora cedida. Horas depois, uma das analistas do Serviço Social do Comércio (Sesc) ligou para informar que eu havia sido selecionada para a edição 2026 do projeto “Arte da Palavra”, o maior circuito literário do país.

Participei de atividades do “Arte da Palavra” em Cuiabá, onde vivo, e nunca pensei que estaria do outro lado, que passaria de ouvinte a autora convidada. A seleção para levar minha oficina de escrita a dez cidades de diferentes estados do Brasil chegava de um jeito inesperado, no meio do puerpério.

Tirei um tempo para avaliar as propostas, ciente de que não poderia aceitar as duas. Meu marido e minha mãe incentivaram o caminho do sonho e foram essenciais nesse processo. O coração tinha a resposta, a razão tentava amplificar as dificuldades, todas relacionadas à maternidade recente. Parecia complicado demais conciliar as demandas, quase desisti.

Então, minha mãe se ofereceu para me acompanhar nas viagens, o que meu marido não poderia fazer em função do trabalho. A disposição dela para tornar meu sonho possível trouxe luz ao que estava nebuloso e, confiante de que seria possível, confirmei a participação no projeto do Sesc. Eu, minha mãe e meu filho viajaremos juntos em nome do amor que carrego pela escrita e pela literatura, num verdadeiro trabalho em equipe. As primeiras oficinas ocorrerão em maio, na Paraíba e no Paraná. Chegaremos em João Pessoa (PB) num domingo de dia das mães, especialíssimo!

Penso nas razões para que determinadas oportunidades cheguem a nós quando não esperamos, quando temos outros planos (ficar quietinha lambendo a cria, como era o objetivo). Eu poderia não ter mudado de ideia e dito não para as duas propostas recebidas naquela tarde de janeiro. Mas quis encarar o circuito do Sesc, precisava ser honesta com o desejo.

Ser mãe muda prioridades, me obriga a administrar melhor o tempo para investir um pouco dele (ainda que pouquinho) no que impulsiona. A essa altura da vida, com a configuração que ela adquiriu, os desperdícios de energia custam caro. Uso Orides Fontela1 para resumir:

Nunca amar
o que não
vibra

nunca crer
no que não
canta.

Quero alimentar a cria, alimentar os sonhos, celebrar meu próprio canto.

1

Do livro “Teia”, editora Marco zero, 1996.

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Read the original on malabaristadepalavras.substack.com

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