oie! seja bem vinde a mais uma edição da makers. eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. na edição de hoje vou costurar várias experiências que tive esse ano para falar de uma inquietação minha: sinto que criativos estão cada vez mais presos às suas próprias referências. é uma armadilha fácil de cair, principalmente com as redes sociais. vamos?
Em “Imagens nos novos meios”, ensaio de O mundo codificado, Vilém Flusser descreve a seguinte progressão na forma como vemos imagens, levando em consideração sua “transportabilidade”. Se você quer ver uma pintura rupestre em uma caverna, essa imagem não é facilmente transportada, então você deve se deslocar. Os museus e outros espaços que concentram imagens em alguns cômodos, como as igrejas, possibilitam um meio termo: transporta-se a imagem até o museu e as pessoas se transportam até lá também. A viagem é bem aproveitada, já que vemos várias imagens de uma vez só. Flusser continua:
“Recentemente inventou-se algo novo: é possível produzir imagens incorpóreas, superfícies “puras”, e é possível traduzir (transcodificar) todas as imagens anteriores nesse tipo de imagem. Nesses casos, os receptores não são mais transportados: essas imagens podem ser reproduzidas à vontade e alcançar cada receptor isolado, onde quer que ele esteja. (…) E essa tendência é bastante clara: as imagens se tornam cada vez mais transportáveis, e os receptores cada vez mais imóveis, isto é, o espaço político se torna cada vez mais supérfluo.”
Então temos três situações: (1) a imagem está imóvel e a pessoa se desloca até ela; (2) tanto imagem quanto pessoa se deslocam; ou (3) a imagem se transporta (por meio de telas) e a pessoa pode permanecer imóvel. E permanece.
Já compartilhei, em uma edição antiga, minha inquietação com a ideia de curadoria como um fim em si mesma. Ter repertório não configura um trabalho criativo. Mas mesmo o “ter repertório” parece se precarizar quando as pessoas permanecem imóveis, se informando e se inspirando nos mesmos lugares: o Pinterest e as redes sociais. Isso vale para textos, trends, imagens, vídeos, roteiros… Fala-se muito da Chatgptização do mundo, e de fato essa ferramenta tem uma tendência pasteurizadora, mas a comunicação online já era bem homogênea desde antes dela, justamente porque todo mundo está buscando referências nos mesmos projetos, nas mesmas marcas.
Entendo que selecionar referências e criar moodboards são atividades que fazem parte do trabalho criativo (principalmente os comissionados, feitos para clientes). A solução não pode ser simplesmente parar de fazê-los, então como podemos ampliar nossas referências? Adianto: não vai ser um novo site ou aplicativo que vai nos salvar.
Em toda cidade que vou, tento visitar museus. Mesmo que não seja um lugar tipicamente conhecido por isso ou eu tenha pouco tempo por lá. Como quando estive de passagem em Campinas por um dia no ano passado fui ao museu de Arte Moderna da cidade, gosto de ir assim, sem saber o que está exposto e descobrir por lá. Faço isso porque gosto de arte, gosto de Design e gosto de ver coisas bonitas e que me movem. E principalmente faço isso porque quero ver imagens que, por regra, estão distantes de mim. Quando me desloco em direção a essas possibilidades de inspiração, passo por todo um caminho que, por si só, também é capaz de inspirar.
Em Terra Arrasada, Johnathan Crary escreve que na internet podemos encontrar poemas, mas não poesia. Isso porque há uma
“incompatibilidade irremediável entre as operações on-line e a amizade, o amor, a comunidade, a compaixão, o livre desenrolar do desejo ou o compartilhamento da dúvida e da dor. Muitas dessas manifestações desaparecem ou são reformuladas em simulações esvaziadas, drenadas de singularidade e inefabilidade, permeadas pela ausência e pela superficialidade”.
Ao mesmo tempo que ligar um computador nos permite acessar imagens incorpóreas transcodificadas de uma infinidade de pinturas, esculturas, paisagens, é importante que não haja uma substituição, que não deixemos de sair de casa para vê-las (ou ver outras coisas, for that matter).
Na semana passada, trabalhei em um conceito de identidade visual maximalista, geométrico e colorido — pedidos do cliente no briefing. Eu até poderia ter me deparado com o trabalho de Rubem Valentim em minhas pesquisas digitais, mas por algum motivo (talvez recortes colonialistas dos mecanismos de busca?) outras referências foram privilegiadas. Em vez disso, conheci sua obra ao acaso, sem um objetivo em mente, ao fazer uma visita ao MAM no domingo passado. Lá, pude conhecer não apenas suas obras mais famosas, mas também o início de seu trabalho; rascunhos, estudos, peças que ele criou tendo como referência outros artistas.
Esse é um outro ponto: dependendo de onde as imagens estão, temos acesso a mais ou menos contexto. Em um museu podemos aprender sobre autoria, sobre a técnica usada e, dependendo do trabalho de curadoria do museu, a obra pode até mesmo estar inserida em uma coleção de várias obras de um mesmo artista. Enquanto no Pinterest é praticamente impossível rastrear a autoria de um pin com milhões de visualizações, ou no Instagram contas de “curadoria” repostam arte de artistas sem os devidos créditos. Essa inviabilização da autoria torna as cópias muito confortáveis, ou mesmo imperceptíveis: a gente vê tantas vezes a mesma coisa ou coisas muito parecidas que nosso inconsciente puxa exatamente aquelas coordenadas visuais quando vamos criar.
Em 2024 tive a oportunidade de ver, no Museu Picasso em Paris, a exposição “Pollock: The early years”, que não apenas reúne obras com um recorte histórico mas também destacava em detalhes de que forma o trabalho de Pollock foi influenciado pelo de Picasso. Apresentar esse tipo de processo é muito menos provável em um ambiente tão acelerado e fragmentado como a internet — captar esse tipo de processo exige, muitas vezes, deslocar-se até as imagens e, respeitando o esforço feito para chegar até ali, demorar-se diante delas.
Quase que ciclicamente, em 2026, no museu Picasso em Barcelona, visitei uma sala dedicada à série que Picasso fez de As Meninas, de Velázquez. São muitas obras, e me fizeram pensar sobre como tantos de nós admiramos certos artistas e nos censuramos porque não conseguimos fazer como eles. E se a gente nem tentasse fazer como eles, nunca? E se tentássemos outra coisa a partir deles?
Logo na sala seguinte no museu, pinturas de uma janela com pombos, que Picasso fazia quando se cansava das meninas: ele olhava pela janela e pintava outra coisa para se distrair. Mas quando, scrollando pela internet, eu pensaria em pesquisar o que Picasso pintava quando precisava variar seus temas? Especialmente hoje em dia, quando os algoritmos funcionam por semelhança visual: se você olha muito uma coisa, vai acabar olhando pra ela mais ainda. Colocar-se propositalmente em lugares distantes e novos para inspiração nos permite um outro tipo de descoberta.
Com o deslanche das ferramentas generativas, “processo” pode se tornar uma nova buzzword. Cooptada, embalada e comercializada. Mas por enquanto gostaria de aproveitá-la: ah, os processos. Quando a gente se baseia nas coisas prontas nós não aproveitamos o caminho, seja o caminho que o artista fez para chegar até ali, seja o nosso caminho. Na tarde do último domingo, para o almoço entre as exposições que escolhi visitar, pude caminhar pelo centro olhando os restaurantes e bares no caminho, vendo o que as pessoas estavam pedindo. Livre arbítrio de parar ali e tomar uma cerveja, se quisesse. Ou ir para o próximo museu, ou para um lugar com música, ou esbarrar com amigos (isso aconteceu).
Que mundo é esse com o qual estamos concordando em participar, onde na maior parte do tempo permanecemos imóveis e permitimos que a informação circule, matando o espaço público compartilhado, nosso senso de comunidade? Um mundo onde os gestos que usamos para pagar contas, registrar reclamações no Procon, fazer pesquisa artística e declarar nosso amor por alguém são os mesmos — digitar e clicar. Completa desconexão entre gesto e objetivo.
No mínimo, sair de casa te obriga a voltar. E quem sabe na volta você não vê algo incrível?
Em tempo, estou pensando em criar um clube de leitura e estudos sobre design. Meu lema tem sido “vá e veja”, então pensei que seria legal criar um ambiente pra isso: ler, tirar as próprias conclusões e conversar, não só reproduzir o que se fala por aí sobre teoria na área criativa. Criei um forms curtinho pra mapear o interesse e ver se temos quórum, hehe
obrigada por ler até aqui! essa foi uma edição mais curtinha e leve, e sempre tenho receio de trazer experiências pessoais - mas às vezes o que falta é mesmo a experiência, não é? como sempre, fique a vontade pra comentar ou responder esse e-mail se tiver alguma dúvida ou sugestão. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)

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