oie! seja bem vinde a mais uma edição da makers. eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. estive m.i.a. por alguns meses, eu sei! estava me dedicando ao processo seletivo do mestrado em Design & Cultura que (felizmente) começo no mês de agosto. tinha um volume muito alto de leitura pra fazer em pouco tempo, e acabei dando uma pausa.. mas temos parte boa: saio desse processo com muitas anotações prontas pra serem transformadas em textos pra makers, além de um projeto de pesquisa fresquinho pra compartilhar com vocês nos próximos dois anos, e é disso que vou falar na edição de hoje. vamos?
Ao longo dos últimos anos venho compartilhando através da makers gonna make e das minhas outras redes sociais minha pesquisa pessoal em Design, tanto pesquisas feitas de modo informal quanto trechos dos meus trabalhos acadêmicos. Meus principais interesses são o processo e o pensamento projetual; a relação entre design e escrita; história e participação das mulheres no design; incorporação de técnicas e atividades analógicas no design; e produção doméstica ou informal de objetos.
Em 2024 me formei em Design pela Esdi/Uerj e, no meu TCC, pesquisei a relação entre a escrita e o pensamento projetual. Questionei: será que diante da crescente automação, IA e ferramentas digitais pré-formatadas, a prática do design não está passando por uma alienação entre pensar e fazer? Se ferramentas geradoras de imagens, fluxos de usabilidade, vídeos e etc sempre enfatizam uma redução significativa no tempo de trabalho, teremos tempo suficiente para amadurecer as ideias e efetivamente pensar sobre o que está sendo realizado? Essas dúvidas me levaram a…
Quase. Na graduação, considerei que a escrita pode ser uma boa ferramenta para desacelerar o pensamento projetual e incentivar decisões de design mais deliberadas. Mas outros insights surgiram do trabalho. Publiquei “Glifo por Glifo – Escrever e Pensar sobre Design”, cujo projeto gráfico foi desenvolvido também por mim. Nesse processo, decidi explorar processos analógicos – como colagens, letraset, carimbos e caligrafia – cujo tempo mais lento se assemelha ao tempo da escrita. A partir disso, surgiu um novo problema, que pretendo explorar na próxima pesquisa: como o “fazer” pode influenciar o “projetar”, e, principalmente, como pensar a reaproximação entre projetar e fazer no design hoje, diante das novas condições impostas pelo contexto tecnológico?
Gosto muito de tudo o que construí a partir da minha pesquisa de graduação: a própria makers, as três tiragens do Glifo por Glifo, oficinas de escrita online e presenciais e muitos textos e zines que foram pro mundo. Mas eu diria que dentro do tema escrita e pensamento projetual o meu interesse está no pensamento projetual e não tanto na escrita em si; mas sim nos fatores e nas atividades que podem influenciar como alguém projeta, ou seja, como alguém exerce o design.
Escrever e publicar o Glifo envolveu alguns processos não relacionados diretamente a escrita, como o projeto gráfico, uma combinação de processos analógicos e digitais. Me apaixonei por essa forma de trabalhar e, desde então, venho aplicando esse mix de mídias no meu trabalho autoral e para clientes.
No ano passado, comecei uma produção autoral na hele press onde frequentemente sou responsável não só pelo projeto gráfico de publicações, mas também pela diagramação, impressão, montagem e costura delas; também tenho uma apreço muito grande pela história das mulheres e da produção feminina, frequentemente doméstica e classificada como “não-design”. Esses temas foram circundando um ao outro numa espiral, um vórtex, e no centro estavam as particularidades cognitivas de projetar de uma forma que não antecede a produção dos objetos, na qual projeto e produção se influenciam mutuamente. Minha pesquisa é intitulada Pensar com as mãos: automação, prática manual e formação do pensamento projetual.
Acho importante deixar claro que meu foco não é em IA, mesmo porque a automação pode existir através de diversas ferramentas e, embora minha pesquisa esteja situada no tempo-espaço, quero que ela produza teoria aplicável a diferentes contextos. Não quis dedicar anos de pesquisa a um tema que odeio, então decidi focar no outro lado do espectro: o que se transforma quando escolhemos técnicas, analógicas ou digitais, que aumentam o nosso engajamento com a criatividade ao invés de diminuí-lo?
O historiador Adrian Forty situa o surgimento do design como disciplina a partir da separação entre projetar – uma etapa pré-produção que constitui na elaboração de instruções – e produzir um artefato. O designer seria alguém com uma visão, responsável por enunciar uma imagem mental do objeto; e a materialização dele seria delegada para máquinas ou operários. Com a popularização de ferramentas de IAgen, essa separação se acentua: basta que o designer (ou qualquer outro) seja capaz de enunciar suas instruções para que a máquina as realize. Podemos argumentar infinitamente sobre a qualidade dos resultados, mas para além disso, me interessa a qualidade do processo.
Autores que já citei por aqui ao falar de criatividade e realização, Richard Sennett e Tim Ingold, chamam atenção para o que perdemos quando o designer está tão afastado dos processos produtivos: sensibilidade, imaginação e um importante engajamento com os materiais.
Quero considerar a contribuição desses autores para entender a influência do fazer manual no ato projetivo (o pensar), e investigar a relação entre fazer e projetar no design, articulando o impacto das produções artísticas, artesanais e manuais no processo projetual. Quero proporcionar um entendimento mais claro de como a participação do designer em processos de produção pode influenciar o seu pensamento projetual; por exemplo, como costurar as zines que eu projeto influencia nas decisões que eu tomo no próprio projeto?
Com uma educação cada vez mais mediada por telas, muitos de nós nem temos muito contato com materiais (desde papéis até madeiras, metais, etc) na graduação. Como posso projetar algo sem conhecer a matriz de trabalho? Sem conhecer as máquinas, seu funcionamento, como e por quem são operadas?
É claro que essa discussão esbarra em outra (que também já citei por aqui): a da hierarquia entre fazer e projetar. Gurus de Design enchem a boca pra chamar designers com menos estudo formal e renda menor de “apertadores de botão”, ignorando que sim, há potencial de aprendizado na realização de tarefas repetitivas; e ignorando também que muitos processos mediados por máquinas não dão conta apenas de tarefas repetitivas, mas também de trabalhos de conceitualização, craição e etc. Como diz Sennett:
Na linguagem corrente, o que é “mecânico” se equipara a uma repetição de natureza estática. Graças à revolução da microinformática, contudo, a maquinaria moderna não é estática; através dos circuitos de retroalimentação, as máquinas podem aprender com a própria experiência. Mas as máquinas são mal empregadas quando impedem que as próprias pessoas aprendam com a repetição. A máquina inteligente pode separar o entendimento mental humano do aprendizado repetitivo, instrutivo, com a mão na massa. Quando isso acontece, as faculdades conceituais humanas se perdem.
Já Tim Ingold, retomando o antropólogo Leroi-Gourhan, descreve uma progressão tecnológica na história da técnica humana que parte da manipulação direta com as mãos e chega ao gesto de simplesmente apertar um botão para acionar um processo pré-programado. Nesse percurso, algo se perde: sem precisar “pensar com os dedos”, o praticante se desconecta gradualmente da correspondência sensível entre gesto e resultado – o que Leroi-Gourhan chamou de “demanualização” da técnica.
Ingold imagina, então, se seria possível conceber ferramentas que, em vez de substituir o engajamento corporal com os materiais, o ampliem. É mais ou menos por aí que se encontram minhas maiores inquietações. Diante desse avanço de ferramentas pré-formatadas (templates, trends, etc) e das IAs generativas no cotidiano do designer – capazes de gerar imagens, vetores e animações a partir de instruções ou um “projeto” –, até que ponto esse contexto tecnológico aprofunda a cisão entre projetar e fazer? Será que existem práticas e ferramentas capazes de reaproximar o designer do seu próprio processo criativo? :0
Sendo bem sincera, minha vontade de pesquisar o que me interessa é maior do que a minha vontade de “fazer um mestrado”, então o principal pra mim foi encontrar um programa com uma linha de pesquisa alinhada aos meus interesses aqui no Rio (não estou disposta a me mudar de cidade por isso). Dentro da linha Design & Cultura da Ufrj há alguns professores que focam nesse lado mais cognitivo e culturalmente situado do ato de projetar, e conversei com amigos da área (hello Paula Cruz e Daniel Bicho) que conheciam os professores e fuxiquei os Lattes pra ver quem tinha mais a ver. Depois disso, troquei uma ideia com a Julie Pires, professora cuja pesquisa mais me interessou pra ver se, de fato, minha ideia fazia sentido dentro do programa e se ela tinha interesse em orientar o projeto.
Mandei um e-mail me apresentando e explicando os caminhos que pensava em seguir. Ela se interessou e disse pra eu estudar bastante pra prova escrita (sim, fiquei desesperada depois dessa) e foi isso! Acho que nesse sentido, não tem certo ou errado, só questões de afinidade.
Para todas as questões que envolvem escolhas (de tema, orientador, programa, modalidade) eu recomendo conversar com pessoas que já passaram pela instituição.
Embora a inscrição para o mestrado exija que o candidato apresente um plano de pesquisa, incluindo um cronograma e métodos que se pretende usar para investigar a questão proposta, eu não estou muito presa ao que propus.
Dei o meu melhor pra produzir uma pesquisa séria e bem embasada no TCC, mas entendo o mestrado como o início da minha carreira formal como pesquisadora, então me parece que ainda vou descobrir a melhor forma de abordar tudo isso. Posso adiantar que o programa que vou cursar tem uma abordagem teórico-prática, o que quer dizer que minha pesquisa deve envolver a realização ou aplicação de exercícios, oficinas ou coisas assim — em contraste com o Glifo no qual eu fiz entrevistas que, apesar de muito ricas, ficam no nível mais teórico-declarativo da coisa. Sei que quero entrar em contato com novos autores, novas correntes de pensamento, testar coisas novas e repetir coisas conhecidas que eu sei que gosto.
Basicamente porque me identifico com o modelo acadêmico e quero ter um espaço e tempo na minha rotina dedicados a uma pesquisa mais aprofundada em Design, embora reconheça que o mestrado não é a única forma de fazer isso, hehe.
Eu acho que esse movimento vale a pena quando considero meus planos de longo prazo, o jeito que gosto de estudar — de forma profunda e com a orientação de professores —, o fato de que sou acostumada a ler e escrever bastante, que tenho a oportunidade de estudar minha área de interesse na cidade em que moro. Eu não faria um mestrado em um tema muito diferente desse, e a linha de pesquisa de cada universidade influencia muito. Sei que não é pra qualquer um.
Além disso, o fato de cursar o mestrado não anula meu interesse em outros tipos de estudo. No momento, por exemplo, estou fazendo um curso de Motion para marcas, que incorpora aspectos que eu disse que gosto (como o acompanhamento de perto de um professor), mas é online, de curta duração e focado em uma habilidade específica que quero desenvolver para trabalhar melhor como freelancer. Também não anula meu interesse em outros temas de pesquisa — eu não vou ter uma abordagem focada em gênero, mas não quer dizer que o recorte deixa de existir ou que passo a ignorá-lo. Enfim, estou muito animada pra essa nova fase <3
O que me leva ao último convite dessa edição: caso você tenha interesse em cursar um mestrado e esteja se sentindo perdido, fala comigo! Não digo isso como uma guru só porque fui aprovada em um programa, e sim porque contei com a ajuda de amigos, professores e até desconhecidos no meu processo. Nem sempre temos pessoas próximas com recursos pra nos ajudar, então temos que recorrer às menos próximas, mas que ainda estão dispostas a ajudar hehe contem comigo :)
ufa, obrigada por ler até aqui! por incrível que pareça, esse tema foi votado para essa edição, então espero que tenha valido a pena. fique a vontade pra comentar ou responder esse e-mail se tiver alguma dúvida ou sugestão. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)

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