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makers gonna make · Mar 17, 2026

#115 pessoa criativa vs. pessoa realizadora

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hele carmona · makers gonna make

oie! seja bem-vinde a mais uma edição da makers :) eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. já tem uns meses que um tópico específico fica surgindo nas minhas conversas com colegas do design e das artes: o que diferencia uma pessoa muito criativa de uma pessoa que faz acontecer? pessoalmente, sou muito focada em colocar projetos no mundo, mas sei que essa é a parte mais assustadora. é assustadora pra mim, também, mas eu considero um inegociável da vida criativa. vamos?

Criatividade é um conceito difícil de definir, principalmente porque sua expressão prática muda de acordo com o contexto. Uma pessoa pode ser criativa em níveis diferentes (que não são mutuamente exclusivos):

  • Criativa em um trabalho criativo: profissionais como designers, ilustradoras e escritoras precisam ter ideias para se sustentar

  • Criativa em um trabalho não criativo: um advogado tributário, à primeira vista, pode não parecer o profissional mais criativo do mundo, mas certamente se beneficiaria da capacidade de pensar em diferentes brechas na lei para que seus clientes paguem menos impostos

  • Criativa por lazer: quando a pessoa investe tempo não monetizado em atividades criativas, como pintura, escrita, etc

  • Criativa no dia a dia: alguém capaz de criar receitas novas com o que tem na geladeira, por exemplo

Devem ter outros níveis, claro, mas não é o que estou tentando estruturar aqui. O que todos os níveis têm em comum, e se apresenta na maioria das definições de criatividade aceitas na academia, é a noção de que criatividade é a capacidade de ter várias ideias diferentes. Isso vem de uma tradição de estudos da psicologia iniciada por J. P. Guilford nos anos 1950, focada exclusivamente no pensamento e nos processos cognitivos da criatividade; e pouco (ou nada) na dimensão prática da criação. De acordo com a matéria Como aumentar sua criatividade, segundo a ciência, publicada na revista Superinteressante:

Guilford propôs que o raciocínio humano se divide em dois tipos: o convergente e o divergente. (...) O pensamento divergente (…) explora diversas ideias diferentes ao mesmo tempo, muitas vezes misturando as soluções e conectando-as de maneiras pouco óbvias. É o tipo de raciocínio típico dos brainstormings, por exemplo. Para Guilford, a criatividade é um produto direto da nossa capacidade de pensar de forma divergente. Ao fazer conexões entre coisas aparentemente desconexas, criamos ideias inéditas. Até hoje, essa explicação é a mais aceita pelos cientistas.

É nesse ponto que reside meu incômodo: acredito que a criatividade não existe sem a etapa da realização. Nem toda ideia, boa ou ruim, se materializa — mas é importante que algumas se materializem para que a criatividade exista.

Por isso (ok, não por isso, mas) a popularização de ferramentas generativas é tão irritante. Quem trabalha com criatividade sabe que mesmo pré inteligência artificial generativa já existiam geradores de logo, geradores de nome, softwares baseados em templates pré-prontos editáveis. Esse tipo de ferramenta pode ser útil e interessante para o mercado, whatever, mas um prejuízo para a humanidade é o quanto isso infla o ego de pessoas que não estão dispostas a fazer nada, mas querem se denominar criativas. Um exemplo é o caso de Natália Beauty, que usa o ChatGPT para gerar sua coluna na Folha e argumenta que textos são feitos de ideias, e as ideias são dela, mas não. Textos são feitos de palavras, e encontrar as palavras — escrever — é ser criativo. Desenhos são feitos não da sua imagem final, mas de gestos, de traços. Com esses geradores, cresce o discurso falacioso da “democratização”: qualquer um pode criar qualquer coisa, basta ter boas ideias. É a evolução do “eu poderia ter pintado esse quadro” — bom, e por que não pintou? Faz aí, começa agora, eu te desafio.

But I digress! Meu ponto é: pessoas geniais e pessoas idiotas podem ter a mesma quantidade de ideias e até a mesma ideia, e o que as diferencia muitas vezes é a execução. Ter ideias é muito natural — treinável e ampliável, sim, mas é a parte que vem fácil. Crianças têm ideias toda hora mesmo com significativamente menos repertório e ferramentas do que adultos. Mas essa criatividade é potencial e corre o risco de nunca chegar ao mundo. O que nos leva ao próximo ponto:

Todo mundo conhece alguém que está sempre na fase do “vem aí”, tendo ideias, mas nunca lança nada. Acho normal ter uma taxa de desistência, mas se isso acontece com todas as suas ideias, o que você anda pondo em prática?

Christopher Petty, editor da Trek, da Universidade de British Columbia, abre a primeira edição da revista escrevendo:

Por que um ser humano olha para o céu noturno e se pergunta o que faz as estrelas brilharem e a Terra girar? O que leva alguém a observar outra pessoa trabalhando e depois sair para construir uma ferramenta que torne a tarefa mais fácil? O que move outra pessoa a reunir pigmentos e sentar-se ao ar livre, ao entardecer, para capturar imagens da luz que se dissipa? De onde vêm as ideias?

O que nos separa das outras criaturas da Terra é a nossa capacidade de inventar. Algumas criaturas usam gravetos como ferramentas, e outras constroem estruturas incrivelmente complexas para armazenar alimento ou defender seus lares. Muitas parecem ter sociedades tão complexas quanto as nossas, e outras demonstram sutilezas nas relações que nós, humanos, só podemos invejar.

Mas somos as únicas criaturas que parecem capazes de invenção espontânea, de criar algo a partir do nada, de imaginar algo e torná-lo real.

De imaginar algo e torná-lo real. Em O Artífice, Richard Senett faz um levantamento histórico sobre o trabalho manual de artesãos (artífices, como o título entrega) de diversas áreas, como a ourivesaria e a confecção de instrumentos musicais, buscando compreender o que emerge da interação entre a concepção intelectual e a materialidade do fazer. Como escrevi duas edições atrás, desde a separação das etapas de planejamento e execução, “ter ideias” é associado a inteligência, enquanto “executar” passa a ser visto como um trabalho menos refinado. Isso é algo que Senett também vai criticar, ao escrever que “(...) o entendimento técnico se desenvolve através da força da imaginação”, mas também que “(...) as habilidades, até mesmo as mais abstratas, tem início como práticas corporais”. Uma coisa não se sustenta sem a outra. Então por que ter ideias é tão mais atraente do que colocá-las em prática?

Ao contrário do que muitos cursos de Design e práticas artísticas nos ensinam, nós não somos mestres comandando materiais1. Papel absorve tinta de formas diversas, e a única forma de saber como algo vai ficar depois de impresso é imprimindo; caixas projetadas podem ser mais ou menos difíceis de montar; vários materiais, como o plástico e o papel, podem romper no processo de modelagem; pigmentos podem reagir de maneira inesperada entre si, criando uma cor surpresa em uma pintura; ao fazer um bordado, sua linha pode arrebentar ou se emaranhar; mesmo no campo digital, uma animação projetada para celulares pode ficar horrorosa na escala de um desktop, e você simplesmente não sabe como cada pessoa no mundo usa telas. Mesmo em situações em que o criador parece ter todo o controle, como em uma fábrica com processos muito automatizados, as máquinas vão exigir manutenção periódica, porque seu contato com os materiais não é uma via de mão única. Os materiais são transformados e transformam de volta.

Isso é enlouquecedor. Você pode fazer um projeto editorial todo certinho e quando receber o projeto impresso não curtir o resultado, como aconteceu comigo na primeira impressão do Glifo: a tinta rosa flúor é muito mais clara que as outras e, sem experiência prática em risografia, no meu projeto ela ficou aguada — sobrou pra corrigir na segunda tiragem. Isso se você tiver sorte de fazer o projeto todo certinho, já que outro dia imprimi 12 zines pra, na montagem, perceber uma repetição de palavra no texto. Sabe onde essa zine não tinha nenhum erro? Na minha mente.

Na esquerda, a versão corrigida; na direita, a primeira versão, que consistiu de 100 cópias. Não inviabilizou o projeto, mas podia melhorar, né?

Realizar é difícil porque estamos sujeitos à realidade material, aos nossos erros de execução e aos imprevistos, tudo ao mesmo tempo. A única forma de corrigir ou contornar esses erros2 que fazem parte do processo é continuar, fazer um novo projeto, seguir criando. Eu poderia tentar te convencer de que, com prática o suficiente, os problemas diminuem ou somem, mas ao sair da própria cabeça entramos no mundo. Realizar projetos envolve lidar com fornecedores, ouvir feedback, se deparar com limites técnicos, pedir ajuda; envolve depender de outras pessoas e de contextos que não estão sob controle. Realizar também é uma prática relacional e isso é desconfortável, fazer o que? Vamos deixar de criar por isso?

Por último, no âmbito da realização, o esforço não garante um bom resultado. Me lembro de ver um gif da Beyoncé no falecido tumblr, retirado de seu documentário de 2013, em que ela diz: “you can work super hard, give everything you have, and lose”, e que bom que internalizei isso logo. Às vezes a gente se dedica muito, faz tudo com cuidado, investe tempo, energia e dinheiro, e mesmo assim não dá certo. Mesmo assim, se pra você a criatividade é uma fonte de satisfação pessoal ou parte de um projeto profissional, é preciso se expor e tentar porque só assim existe a chance de colher frutos.

Se eu pudesse dar um conselho sobre se tornar uma pessoa realizadora, se você não está disposto a apostar alto, seria o seguinte:

mesmo quando elas não têm relação direta com o trabalho ou o projeto que você sonha em tirar do papel. Aprender técnicas novas, se permitir ser ruim e começar projetos sem garantia de resultado. Isso mostra pro seu cérebro que você é capaz de tentar, de começar, de colocar algo no mundo por bem ou por mal. Com o tempo, você se acostuma com o gesto de iniciar e praticar, e isso diminui o medo diante dos projetos “de verdade”.

Mas se você desistir, não vai acontecer nunca ;) Foto do meu primeiro bordado em ponto cruz. Quis aprender porque minha avó bordava, quando era viva, e sinto saudades dela.
  • A edição #113 da makers deu origem a uma zine ilustrada em ponto cruz. O projeto gráfico inclui bordados meus (capa + capitulares) e das minhas duas avós :) a publicação é costurada à mão com a mesma linha usada na capa.

  • A pré-venda do Glifo por glifo encerra essa semana!! O Glifo é um livro para designers e outros profissionais criativos que desejam explorar a escrita como uma extensão do próprio processo de criação. Em 32 páginas impressas em risografia, o livro oferece teoria, reflexões e exercícios práticos para desenvolver a escrita livre e autoral, especialmente para quem está começando.

obrigada por ler até aqui! como sempre, fique a vontade pra comentar ou responder esse e-mail se tiver alguma dúvida ou sugestão. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)

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As ideias expostas nesse parágrafo são levemente inspiradas nas teses de Tim Ingold em Fazer: Antropologia, arqueologia, arte e arquitetura; eu adoraria citá-lo diretamente, mas não considero isso apropriado porque ele aprofunda muito algumas questões filosóficas, como: o que é uma coisa? o que é ser? nós somos coisas? o que é um corpo? etc etc, e para a discussão que proponho, basta o entendimento de que os materiais respondem ao que fazemos com eles (essa frase — o que [“nós] fazemos “com” “eles” já faria Tim Ingold me reprovar em seu curso, kkkk). Mas fica a recomendação de leitura se você for muito nerd.

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Tem quem diga que “os erros são o que tornam o projeto humano <3”, “erros fazem parte”, mas não é disso que eu estou falando! Estou falando de erros técnicos e corrigíveis que, às vezes, não podem ser identificados fora do plano material.

Read the original on makersgonnamake.substack.com

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