oie! seja bem-vinde a mais uma edição da makers :) eu sou hele carmona, jornalista, designer e artista multimídia. na semana passada eu e a Paula Cruz lançamos uma chamada aberta para textos sobre design & memória. estamos organizando uma revista coletiva e, quando compartilhei a chamada com alguns amigos e colegas designers, a resposta da maioria deles foi: “vou tentar, mas eu escrevo tão mal…”. além de insegurança (que é uma coisa normal), esse pensamento reflete uma noção bastante difundida entre designers e artistas: a de que são “seres visuais”, e não verbais. nessa edição, comento sobre porque discordo completamente dessa visão e ainda compartilho os livros e referências que me ajudaram a desenvolver a minha própria prática de escrita. vamos?
Assim como a criatividade e outras habilidades que designers usam no dia a dia, como criar layouts para publicidade ou desenvolver telas para aplicativos, a boa escrita requer estudo e prática. Os dois se complementam. Sou uma grande defensora de que a escrita privada, como em notas ou diários, já é muito benéfica: ajuda a organizar o pensamento, refletir sobre o aprendizado e explorar novas ideias. Mesmo que não exista uma preocupação com a forma final do texto, a tendência é que as habilidades de escrita melhorem através da prática.
Mas, no caso do receio de submeter um texto “ruim” para um processo seletivo, estamos falando também da dificuldade de escrever para os outros e, principalmente, o medo de falhar, de escrever “mal”. Isso leva muitos designers a criarem uma resistência com a escrita. Em geral, esse sentimento vem da percepção de que se expressar através da linguagem verbal escrita deveria ser fácil. Afinal, não somos alfabetizados? Isso não deveria bastar? Então, diante das primeiras dificuldades para escrever, a pessoa se frustra e assume que não foi feita para isso.
No livro Inspiring Writing in Art and Design – Taking a Line for a Write, Pat Francis explora alguns dos principais motivos pelos quais estudantes de cursos de Artes e Design sentem dificuldade de escrever, seja em relação a requerimentos acadêmicos ou como ferramenta de reflexão pessoal. Contra a ideia de que escrever deveria ser fácil, ela argumenta:
“Não escrevemos instantaneamente de forma profunda e reflexiva; temos que construir gradualmente. Knight e Yorke argumentam que “a aprendizagem complexa é quase invariavelmente uma aprendizagem lenta, demorando mais para crescer do que dura a maioria dos módulos [de ensino]”. Assim, a escrita deve fazer parte do processo contínuo: não presa às partes, mas percorrendo o todo.”
Há alguns anos, eu te diria: “se você deixa de escrever porque é ruim nisso, a tendência é que você continue ruim”. Em 2026, quando é possível se esquivar completamente da prática da escrita “pedindo para o Chatgpt organizar pensamentos”, trago notícias piores: se você deixa de escrever porque é ruim nisso, você vai piorar. Sendo assim, é hora de fazer uma escolha: bancar ser ruim no início e conquistar essa habilidade ou desistir e deixar que outros pensem por você, como diz Natália Ilyin em Writing for the Design Mind:
“Muitas pessoas passam a vida sem conseguir definir os pensamentos por si mesmas. Como não aprenderam como fazê-lo, não têm escolha senão deixar o pensamento claro para os outros. Como não conseguem argumentar ou persuadir ao escrever, abdicam do seu poder verbal. Quando você aprende a escrever bem, você entra na vida mais profundamente, porque pode refletir sobre um problema, expor um ponto de vista, traçar uma experiência, inventar um mundo – e comunicá-lo.”
É — ou deveria ser — do interesse de toda a classe de criativos ser capaz de se comunicar com clareza para desafiar estruturas dominantes e protestar diante de situações precarizadoras, antiéticas ou até desumanizantes no nosso mercado. De fato, muitos fazem isso na dimensão da comunicação visual, mas isso não deveria ser um fator de exclusão para a boa comunicação escrita.
O medo de escrever também pode ser atribuído a uma crença rasa de que designers são “seres visuais” e que, de alguma forma, ser visual se opõe a ser verbal, tornando designers inerentemente inaptos à escrita. As duas autoras que acabei de citar atacam esse argumento (que veremos, não têm base científica) com abordagens diferentes.
Pat Francis se baseia na matriz de Riding e Rayner de estilos cognitivos, que opõe em um espectro a aprendizagem através da linguagem verbal e a aprendizagem através das imagens. Partindo da ideia de que há uma distância entre os estilos cognitivos, a autora opta por alternar entre eles nos materiais didáticos que produz, além de incorporar exercícios considerados mais visuais em suas propostas de exercícios de escrita.
“Esboçar e rabiscar na escrita, não apenas no trabalho visual, e encontrar metáforas visuais para ideias, algo que é proposto ao longo deste livro, está relacionado ao extremo visual da escala de Riding e Rayner, enquanto o trabalho em ensaios e dissertações é geralmente visto como puramente pertencente ao reino do verbal. O extremo verbal da escala é muitas vezes a parte assustadora para muitos escritores relutantes/medrosos e, portanto, ao abordar as tarefas a partir da forma preferida de absorver o material [visual], espera-se que as estratégias sejam fortalecidas e todas as áreas de trabalho sejam beneficiadas.”
Já Natalia Ilyin desconsidera completamente a ideia de oposição entre os modos de aprendizagem visual e verbal, atribuindo a popularização dessa divisão a uma mera tendência na educação escolar há algumas décadas; e argumenta que embora existam estilos cognitivos diversos, a afinidade com um não pode significar completa inaptidão em relação ao outro:
“Acontece que “criaturas visuais” têm muito mais em comum com escritores, físicos teóricos e engenheiros do que muitas pessoas poderiam imaginar. O pensamento sistêmico, uma área de exploração nas ciências e nas humanidades, é mais eficaz para descrever a mente criativa do que abordagens de tudo ou nada, preto e branco. Artistas, designers e escritores possuem mentes afinadas para reconhecer padrões e criar sistemas de significado, e eles entendem esses sistemas de muitas das mesmas maneiras que engenheiros e físicos. Se você é atraído por ser um designer, é provável que tenha uma afinidade pelo pensamento sistêmico e, sem perceber, tenha passado sua vida treinando sua mente para aproveitar essa afinidade. (...)
Descrever pessoas como inadequadas para um tipo particular de pensamento desvaloriza elas e suas contribuições para a cultura.”
Seja qual for a abordagem preferida — entender aprendizagem visual e verbal como distintas e opostas, mas se propor a misturá-las; ou então desconsiderar tal oposição — não há um motivo pelo qual a inclinação aos processos criativos visuais deva impedir que se tenha resultados satisfatórios em processos criativos verbais.
O que nos leva a seção final: as recomendações.
Primeiro de tudo, além de livros sobre escrita, para escrever bem é importante ler bastante e ler de tudo. Vai aumentar seu repertório e seu vocabulário, só cuidado pra não usar a leitura e o estudo como procrastinação. Então use as recomendações com cuidado, viu? Esses são livros que me ajudaram desde que comecei a newsletter, em 2022:
Manual de sobrevivência na escrita, por Ana Rüsche e George Amaral
Como escrever bem, por William Zinsser
Confissões de um jovem romancista, por Umberto Eco
Por último, não posso deixar de recomendar Glifo por Glifo, um workbook de escrita para designers e outros profissionais criativos que desejam explorar a escrita como uma extensão do próprio processo de criação. Em 32 páginas impressas em risografia, o livro oferece teoria, reflexões e nove exercícios práticos para desenvolver a escrita livre e autoral, especialmente para quem está começando. As duas primeiras tiragens esgotaram e a terceira está em pré-venda! Os 20 primeiros a comprar ganham um poster exclusivo.
Escrever é uma coisa que ninguém pode fazer por você — e que bom :)
obrigada por ler até aqui! se você é um fã muito hardcore dessa newsletter, vai perceber alguns trechos do meu tcc nessa edição, hehe. mas ainda não tinha trazido a questão de “por que designers escrevem pouco”, e achei que a chamada aberta + a pré-venda eram boas desculpas pra isso. como sempre, fique a vontade pra comentar ou responder esse e-mail se tiver alguma dúvida ou sugestão. se você gostou da edição, compartilhe com alguém que vai aproveitar essa leitura também :)

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