Recentemente, uma querida amiga mencionou que meu nome surgiu em uma conversa como uma das fundadoras de um projeto que, de fato, ajudei a nascer. O comentário me fez refletir profundamente sobre o porquê de esse reconhecimento ainda me mobilizar tanto. Para explicar, preciso retomar um pouco da minha caminhada.
Em 2016, movida pelo desejo de transformar o cenário literário local, entrei em contato com a matriz do Leia Mulheres em São Paulo. Com o apoio fundamental de Lubi Prates e ao lado de duas mediadoras convidadas, lançamos o clube de leitura em Natal com a leitura de Quarto de Despejo.
Foi uma experiência marcante: um dos primeiros clubes de leitura gratuitos e abertos da cidade, parte de uma rede de mulheres voluntárias que, sem remuneração ou vínculos acadêmicos, mantêm viva a conversa sobre a escrita feminina no Brasil e no exterior. Foi meu primeiro grande mergulho no trabalho coletivo sob a perspectiva feminista. Uma jornada que me ensinou sobre a complexidade de misturar existência, paixão e trabalho.
Hoje, com o distanciamento necessário, compreendo que minha saída da mediação há quatro anos não foi um fim, especificamente o meu fim, como no início eu pensava. O projeto não me reerguia mais emocionalmente, e o que me impulsionou adiante foi o que sempre me move: o desejo pela novidade. A sensação revigorante de construir algo do zero, mantendo o compromisso ético e feminista.
Desde que assumi o concurso no IFRN, mergulhei em novas frentes de atuação coletiva:
Coordenação do Núcleo de Gênero e Diversidade (NUGEDI);
Gestão na Coordenação de Atividades Estudantis;
Supervisão do Programa Mulheres Mil;
Organização de eventos institucionais e formações em Liderança Feminina;
Colaboração em projetos feministas no mandato de uma deputada federal e publicação sindical.
Somado a isso, sigo com meus projetos mais pessoais e ambiciosos: a escrita constante de novos poemas e o desenvolvimento de uma tese de doutorado também voltada ao feminismo.
Refletir sobre tudo isso ainda me causa um certo desconforto, talvez pela consciência de que o silenciamento e o anonimato ainda tentam cercar as trajetórias femininas. Por soar arrogante, listando apenas grandes passos públicos, quanto o que mais me orgulho é da invisível ordem, a alegria no amor diário de uma vida simples, me importar com o que é justo, ajudar o próximo sem ensaios. Não queria esperar nada em troca, mas também não desejo o anonimato radical. Por isso, ser lembrada como "fundadora" não é apenas uma lisonja externa; é o reconhecimento de uma identidade que trabalhei para construir.
Como bem diz os versos:
“Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.”
Descobrir que gosto de criar e de liderar é reelaborar o discurso de medo que costumo transparecer. Desde aquela primeira fundação, há dez anos, não parei. Compreendo que minha intensidade e o nível de exigência que dedico aos projetos muitas vezes são intransigentes, mas são eles que garantem a integridade do que construo.
Criar, para mim, é como o poema, estreia infindável.
A vida na hora, Wisława Szymborska:
Se hoje olho para trás sem o peso da ironia, é porque reconheço a solidez dos alicerces que levantei. Que o meu nome seja lembrado não como um registro em ata, mas como o fogo que encorajou novos passos.
Sigo construindo, pois sei que a minha casa é
em movimento.
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