Olá aldeia,
Na última semana, as redes da “comunidade autista” se encheram de menções ao deputado João Daniel, do Partido dos Trabalhadores (PT), aqui de Sergipe.
O deputado, além de propor emendas a um Projeto de Lei (PL 3080/2020) que altera a Lei 12.764/12 (também conhecida como Lei Berenice Piana, em homenagem à mãe de um autista de alto grau de suporte), também propôs seu próprio projeto, o PL 6238/2025, ambos com o mesmo propósito: caracterizar o autismo como uma identidade, ou como se diz muito por aí, um jeitinho de ser.
Para quem não é de Sergipe, talvez, não haja muita novidade aí, já que nacionalmente somos assoladas(os) por esse discurso que é próprio de autistas “nível 1” de suporte, cuja principal preocupação é não serem caracterizados como Pessoas com Deficiência (afinal, eles não são mesmo).
Só que para mim, sergipana, há um preâmbulo muito importante nessa história. João Daniel é um deputado cuja pauta central de militância sempre foi a reforma agrária. Ele é muito respeitado por aqui, inclusive por mim, porque sua base eleitoral é o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Logo, meu primeiro espanto não foi a discussão sobre autismo, mas exatamente O QUE DIABOS JOÃO DANIEL ESTÁ FAZENDO NESSA DISCUSSÃO?
A resposta veio rapidinho. Em um vídeo postado na página do deputado, apareceu um homem branco, grisalho, com o cordãozinho que identifica um autista, explicando que trabalha no gabinete do deputado e que eles tinham voltado atrás em relação a uma das emendas que propuseram.
Esqueçam o conteúdo da emenda, que é mais do mesmo do “jeitinho de ser”, o que importa aqui é o seguinte: autistas nível 1 de suporte, como o homem branco grisalho do vídeo, estão nos gabinetes da esquerda. Se estão, é porque foram convidados. E as mães, principais cuidadoras dos autistas nível 3 de suporte, estão onde?
Além de tomando no cu todos os dias, nós não estamos nos gabinetes para influenciar a política dos congressistas do PT. Nem do PSOL. No máximo, estamos representadas no gabinete da Andréa Werner (PSB), que é deputada estadual por São Paulo (e, oxalá, eleja-se deputada federal). Isso na esquerda (e olhem que sou do tempo que PSB nem era considerado esquerda…).
Porque a direita, lá no Ceará, diretamente do Partido Liberal, conseguiu recentemente aprovar um projeto para criação de moradias assistidas para autistas adultos que, obviamente, são de alto grau deficiência (os que trabalham em gabinetes não precisarão…). Esse projeto é a cara das mães de autistas severos do Brasil. Afinal, nossa grande preocupação e terror é pensar que quando morrermos, nossos filhos serão atirados à rua ou coisa pior.
Entendem o problema? Digo, para mim, que estou convictamente situada à esquerda na política? A esquerda só entra no debate sobre autismo pelas mãos de homens autistas “nível 1” de suporte e, aparentemente, deputados como João Daniel, que não são “nativos” dessa pauta, sequer sabem que existe um racha imenso na “comunidade autista” que opõe justamente pessoas funcionais, mas com diagnóstico de TEA, e cuidadoras - a maioria mulheres, não raro, mães solo - de autistas “nível 3” de suporte. Bom, até a Folha de S. Paulo sabe, mas eu realmente não duvido que o deputado sergipano não saiba.
O cenário é péssimo. A direita nada de braçada nos movimentos sociais de pessoas com deficiência há muito tempo, mas a esquerda parece não se preocupar com isso. Um dos grandes motivos pelos quais esse abraço de sucuri da direita se dá em torno de pessoas com deficiência e seus familiares é porque a família é o locus principal do cuidado com essas pessoas. E a família, sabemos, é o locus nodal da política da direita. Aí a esquerda faz o quê quando a pauta são autistas? Ela ouve homens que não cuidam nem de uma planta, mas possuem um diagnóstico (e alguns, inclusive, CNPJ), e deixa de ouvir aquelas que, no locus familiar, são as responsáveis por todo trabalho desgraçado, invisível e não remunerado de cuidado: nós, as mães.
Está aí o resultado.
Comigo, ninguém precisa se preocupar porque minha formação de esquerda é muito sólida e a pauta que toca a mim e ao meu filho por conta do autismo existe num conjunto muito maior de projeto de sociedade. Então, ninguém corre o risco de me ver votando em Yandra Moura ou no pai dela. Agora, meus amores, diante das demais mães de autistas que possuem quadros severos do transtorno, a esquerda está cada vez mais indefensável.
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