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Livraria aberta · Jul 17, 2026

Moeda, motor e fundamento (parte dois)

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Ricardo Braun · Livraria aberta

(Continuação da newsletter da semana passada.)

4. Apesar dos reparos, Julieta Almeida Rodrigues diz: «Alberto Manguel referiu que o Festival BABELL passaria a ser o melhor da Europa. Mas já é! Quem é que na Europa fez em 2026 o mesmo que Rui Couceiro? De facto, apenas ele». Duas coisas a notar aqui. Primeiro: que, hoje em dia, já ninguém consegue falar normalmente sobre nada. Não chega que uma coisa seja boa, ou muito boa: tem de ser a melhor coisa do mundo. Percebi isso no ano passado, quando saiu o primeiro single do Lux, da Rosalía: dessa canção, Berghain, disse-se que redescobriu a música clássica; do álbum, que reinventou o catolicismo. O mesmo do novo Confessions II, da Madonna: que vem revolucionar a pista de dança. E, agora, do BABELL. «Eu participo de eventos literários há 14 anos», escreve Rafael Gallo, «e devo dizer: nunca vi nada assim». «Quem tem observado o BABELL, e suas repercussões, deve ter notado um fenômeno singular: as pessoas que participaram – sejam autores e autoras, pessoas da imprensa, ou quem trabalhou em outras funções – têm falado dele com muita admiração e empolgação». E é verdade o que ele diz: há em tudo o que se escreveu sobre o BABELL, e em tudo o que disseram as pessoas que lá estiveram, um singular consenso: que é do conteúdo, mas também é da forma. Todos os posts que li, escritos no rescaldo do BABELL, seguem, mais ou menos, a mesma estrutura, em três pontos: um, adorei ter estado; dois, sim, coisas correram mal; três, é o melhor festival do mundo. Um exemplo (há tantos): o post que Valter Hugo Mãe publicou no Instagram depois de ter apresentado o seu novo livro no último dia do festival. Antes disso, um parêntesis: a lista ainda não é pública, mas, segundo este post, na biblioteca de cem livros da Dua Lipa há oito de escritores de língua portuguesa: livros de Conceição Evaristo, Djaimilia Pereira de Almeida, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, José Saramago, Lídia Jorge, as Três Marias (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa) e Valter Hugo Mãe. Todos marcaram presença no BABELL, os que estão vivos, e Pilar del Río veio em representação da Fundação Saramago. Fechar parêntesis. Já disse atrás como começa o post de Valter Hugo Mãe, «magnífico evento literário», etc. É o ponto um: «o babell é uma conquista da @fundação_livraria_lello e da @livraria.lello que já ninguém pode apagar. grande, grande obra para a autoestima da cidade». O que nos leva à outra coisa que encontramos em tudo o que se escreveu sobre o BABELL: as constantes menções ao comissário, Rui Couceiro, e à Família Pedro Pinto, donos da Lello. Valter Hugo Mãe diz: «aurora pedro pinto e pedro pinto têm de estar muito felizes com o que tiveram a generosidade de proporcionar ao porto e ao país. sem eles, nem este sonho nem a coragem. e @couceirorui também. um profissional raro, um escritor brilhante». Aqui, Valter Hugo Mãe percebe, e bem, que não deve escrever tomates quando quer dizer coragem: e, por isso, faz ainda pior: «ter redondos como ele tem é para poucos ou quase nenhuns. o couceiro é sem medos, e nada se faz sem lideranças bravas». E continua: «todas as cidades precisam de se imaginar. o babell é porto a imaginar-se ao mais alto nível». Ponto dois: «se alguma coisa não foi como prevista, se não foi como desejada, onde me incluo com todas as minhas falhas, não esqueço que só quem não faz nada não corre o risco de errar. prefiro os que fazem». Ponto três: os nomes, outra vez: «o que aurora pedro pinto e pedro pinto trazem ao porto é de valor incalculável. muito obrigado. obrigado, couceiro». Mas não nos vamos precipitar. «Antes que adeptos das conspirações se empolguem», avisa Rafael Gallo, «esta minha postagem, como muitos dos elogios ao festival, não estão sob qualquer interferência ou influência da organização (...) [N]ão há qualquer pedido nesse sentido – profissional e pessoal – e eu poderia dar meu trabalho como realizado. (...) Se duvidar, busque os perfis de quem fez coberturas do festival (...). Não se compra tanta gente assim».

5. Falemos, então, de dinheiro: dando por certo que não é só com dinheiro que as pessoas se compram. Se formos ver os pontos-chave da história da Lello desde 2015, todos são, de uma maneira ou de outra, sobre dinheiro que foi gasto: compras, investimentos. «Em 2019, a Livraria Lello lançou a primeira oferta pública de aquisição de livros alguma vez realizada no mundo, afirmando o livro como objeto de valor cultural e financeiro». (O itálico, mais uma vez, é meu.) Aliás, o título destas duas cartas é algo que o festival diz de si mesmo: «BABELL não é um evento comemorativo. É uma visão de cidade onde o livro é moeda, motor e fundamento». Por isso, quando, no gráfico que explica a missão e os valores da Fundação Livraria Lello (nesta página, mais abaixo), se iguala o livro ao empreendedorismo criativo, e quando se fala tantas vezes, a propósito do BABELL, do livro «como moeda de troca», é disto, parece-me, que se está a falar. Claro que, na página da Fundação, se pode ler que «a Fundação reconhece o livro como um equalizador social que ultrapassa as falhas da sociedade, tornando-se um instrumento vital no processo educativo social e familiar». Ora bem, já que falam da família: se formos consultar os estatutos da Fundação Livraria Lello, podemos ver que quatro dos cinco lugares no Conselho de Administração estão ocupados, «com mandato vitalício», pela família imediata: pai, mãe, filha e filho. É uma coisa deles. Mais compras: ainda em 2019, «[a] Livraria Lello adquire o Teatro Sá da Bandeira em hasta pública, investindo 3,5 milhões de euros num dos teatros mais antigos e emblemáticos do Porto». Não se sabe ainda, ao certo, o que pretende fazer com ele: um «projeto multicultural», que não significa nada. Em 2021, compraram cinco edifícios na Rua do Loureiro, junto à Estação de São Bento, para lá instalar o Bairro Dada, «uma nova centralidade do turismo» na cidade. Segundo as notícias, a intenção do dono da Lello é aumentar de três para quatro milhões o número de turistas que visitam anualmente o Porto. Em 2022, a Lello «investe na aquisição de um conjunto de cartas inéditas de Bob Dylan», por 519 mil euros. «Na sequência desta aquisição, é inaugurada a Sala Gema: um espaço dedicado à exposição e valorização de livros raros, antigos e especiais». O bilhete para visitar essa sala custa 100 euros. Em 2024, a Fundação Livraria Lello comprou o quadro Descida da cruz, do pintor português Domingos Sequeira, por 1,2 milhões de euros: segurando-o no país, deixando-o a cargo de um museu nacional (está no Soares dos Reis) e desobrigando o Estado de o comprar. Em 2025, por um valor que não foi divulgado, «junta ao espólio da Sala Gema a biblioteca pessoal da cantora Amy Winehouse: uma coleção eclética composta por mais de 200 livros, com anotações manuscritas». Fala-se disto: bairros e quadros e teatros e livros: como se fosse tudo a mesma coisa, e, na verdade, é: são tudo passos de uma gradual, e deliberada, ocupação da cidade. Numa notícia publicada em fevereiro deste ano pelo Jornal de Negócios, pode ler-se que «[a] Lello faz parte de um portefólio diversificado de negócios da família Pedro Pinto, nas áreas de retalho, turismo, cultura e escritórios». É uma espécie de polvo. Aconteceu algo de muito semelhante na política cultural do Porto no tempo de Rui Moreira: porque era a única linha de apoio, e porque, na prática, garantiu a sobrevivência e a continuidade de tantas estruturas culturais da cidade, a Câmara Municipal pôs a sua marca, literalmente, em todos esses projetos: engoliu-os, absorveu-os, e deixou que o resto morresse. O mesmo para a Lello: tudo o que fizeram nos últimos anos, tudo o que compraram, e agora também o BABELL, são tudo formas de a Livraria Lello, o lugar e a marca, se tornar inescapável: também para as outras livrarias do Porto. No mesmo post que citei atrás, Rui Couceiro escreve que «um [livreiro] disse-me mesmo que, graças ao BABELL, já havia vendido o suficiente para pagar a renda até ao final do próximo ano, o que é particularmente tocante numa cidade em que muitos livreiros sentem a pressão da especulação imobiliária, que os empurra para localizações menos centrais, ou agonizam porque o negócio do livro é tradicionalmente difícil». De facto, quem quer ter uma livraria longe do centro da cidade? Como é que os turistas lá chegam? Mas, a propósito de rendas: querem falar de rendas? É que eu estive a fazer contas: e, com o dinheiro que meteu no BABELL, 106.500€, a Câmara Municipal do Porto podia pagar 23 anos de renda da Livraria aberta, ou um ano de renda de várias livrarias independentes. Já que, aparentemente, o Porto se transformou na cidade do livro. Só que aí estaríamos a falar de uma política municipal, sustentada, de apoio às livrarias: e não de um evento que, durante seis dias, varreu a cidade. Mas podemos fazer outras contas: porque a Lello podia concluir que, de facto, seca tudo à sua volta (o binómio turista-livro, por exemplo) e podia decidir fazer algo para corrigir essas assimetrias: para deixar claro que não está a competir, nem quer competir, com as outras livrarias da cidade. Pois, então: com os três milhões de euros que pôs nesta edição do BABELL, a Lello podia pagar 645 anos da nossa renda.

6. Não fui a nenhum dos eventos do BABELL. Interessa-me pouco o que correu mal, ou o que se poderia facilmente ter evitado: coisas das quais, aliás, muitos jornais deram notícia. Mas interessa-me esta operação de limpeza: de onde ela vem: e porquê. Num artigo de opinião publicado na semana passada no Jornal de Notícias, e partilhado no Instagram por Rui Couceiro, o jornalista Pedro Olavo Simões diz que só há uma explicação possível para todo o mal que se disse sobre o BABELL: «nesta vida de puritanos mal resolvidos, os meios são a base inconfessada das invejas». «Apesar de ter mobilizado multidões inauditas em festivais literários» (fontes?), «apesar de convocar figuras cimeiras da literatura universal e apesar de ter contribuído vigorosamente para aumentar a visibilidade global do Porto, o BABELL estimulou o bota-abaixismo», ainda que a maior parte das críticas se tenha mostrado «fraca de substância e uniforme no seu propósito: atingir os donos da Livraria Lello, ou a Fundação Lello, que propiciaram os meios para o evento». Escreva-se: o dinheiro. É estranha esta dificuldade das pessoas em usar a palavra dinheiro, quando é isso que querem dizer. Podíamos perguntar: porque é que a Livraria Lello não vendeu os bilhetes para o BABELL diretamente? Porque, na verdade, não precisa do dinheiro. A mesma notícia do Jornal de Negócios diz que «a Livraria Lello recebe 3.500 visitas por dia e vende um milhão de livros por ano. Só com as entradas – o bilhete de acesso custa 10 euros – arrecada 35 mil euros por dia, o que dá cerca de 12,8 milhões por ano». Ajustando os mesmos números ao novo preço do bilhete, 15,95€, os valores sobem para 55 mil euros por dia, e mais de 20 milhões de euros por ano. Mas, então, se não lhe faz falta esse dinheiro: porque não deu os bilhetes para o BABELL, também diretamente, às pessoas? Porque precisou das livrarias: não para encher as plateias, mas para pintar tudo com as cores da bondade. Durante meio ano, os livreiros da cidade, quase todos, foram trabalhadores e embaixadores da Lello. Dito isto, eu quero deixar claro que não estou, de maneira nenhuma, a criticar as livrarias e alfarrabistas que aderiram ao BABELL (por inescapável): mas estou a dizer que a Livraria aberta não foi, e não será nunca, uma delas, por muitos livros que deixemos de vender. «Nunca me cruzei com essas pessoas», escreve Pedro Olavo Simões sobre a Família Pedro Pinto, «e, se posso dizer que engordaram fortuna com base numa história mal contada (a inverosímil ligação da Lello ao universo Harry Potter), tenho de reconhecer que foram inteligentes ao tirar partido disso. Estão a ficar donos de certa parte da cidade? Talvez, porque a cidade não se preocupou antes. Demoliram a Confeitaria Serrana? Sim, porque nunca se considerou o espaço merecedor de uma classificação efetiva, além do ineficaz “Porto de Tradição”. Enfim, sendo elevado o risco de surgir na Rua do Loureiro mais um pastiche para turista se babar, valha a circunstância de elementos artísticos terem sido salvaguardados. Privam uma comunidade muçulmana do seu lugar de culto? Ou terá essa comunidade falhado ao não conseguir alternativa a um arrendamento precário?... Bem», continua ele, «uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Atacar o BABELL por razões que lhe são externas é só estúpido, porque o festival é excelente para a cidade». Quase parece que o BABELL serviu para limpar a imagem dos donos da Lello, para fecharmos os olhos a tudo o resto: mas não, não pode ser isso, devo ter percebido mal. «Passe o exagero da comparação», diz Pedro Olavo Simões, para fechar, «Ludovico Sforza, mecenas milanês de Leonardo da Vinci, tinha a sua faceta de déspota impiedoso. Vamos destruir todas as reproduções da Última Ceia que há nos lares portugueses?» Uma coisa é certa, e já devíamos saber, desde o Renascimento, que não vale a pena lutar contra ela: tudo somado, não importa de onde vem o dinheiro, porque ele tudo pode e tudo lava.

Boa semana,
r

Metropolis, Fritz Lang, 1927.

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